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Peru: Trajetória de Manuel Dammert deixará lições para novas gerações de lutadores sociais

A vocação unitária que se radicou nele desde os anos 80, o acompanhou em sua longa carreira política. E a honrou sem concessões nem duas medidas
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Manuel Dammert foi uma das mais destacadas figuras da esquerda peruana. Sua longa trajetória deixa marca no coração das pessoas, mas também deixa lições que deveriam ser assimiladas pelas novas gerações de lutadores sociais que buscam enfrentar riscos, perigos e ameaças à procura de abrir um caminho de vitória pela qual haverá de transitar nosso povo.   

Soube dele nos anos de Velasco. Liderava um dos pequenos núcleos que se enfrentavam ao processo revolucionário. Passavam o tempo discutindo, sem se pôr de acordo, o caráter do governo da época, mas todos o atacavam ferozmente; e nos combatiam porque nós agitávamos as bandeiras de classe da CGTP.

Foram anos de duro confronto. A novidade do fenômeno e a inexperiência daqueles que vislumbravam um cenário inédito, impediu que nesse momento se vissem as coisas como eram.   

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Seguiram depois na segunda metade dos anos 70 quando, convocados por Mirko Lauer e Mosca Azul Editores, participamos de um debate que seria recolhido em dois volumes e que buscava analisar o papel da esquerda no século XX.

Ali continuaram as diferenças, mas a discussão permitiu perceber afinidades e desenhar caminhos. Jorge del Prado, desde a altura que lhe dava sua experiência, me disse nesse período: “Manuel é sincero e honrado”. Isso me ajudou a vê-lo de outro modo. 

A vocação unitária que se radicou nele desde os anos 80, o acompanhou em sua longa carreira política. E a honrou sem concessões nem duas medidas

Wikipedia
Manuel Dammert

Esquerda Unida

Apreciei muito sua contribuição nos anos 80, quando se flagrou a Esquerda Unida. Essa relação nos colocou, em seu momento, na foto que hoje faz história. Nela estão os dirigentes dos Partidos da Esquerda na Praça San Martin, em 13 de setembro deste ano, quando a Esquerda Unida apareceu no cenário político nacional. A circunstância abriu um período de colaboração sem reticências e de apoio consequente. 

Depois trabalhamos como parlamentares da Esquerda Unida durante o primeiro governo de Allan Garcia. Não tivemos discrepâncias, mas sim coincidências e ação comum.

A defesa dos recursos naturais, os direitos humanos, os interesses dos trabalhadores, a liberdade de nosso povo e a solidariedade com a luta daqueles que em nosso continente enfrentavam a opressão e o horror. Foi a base de uma convergência essencial que não conheceu deserções e deixou marcas inapagáveis. 

Na década dos 90, a quebra da Esquerda Unida nos encontrou na mesma posição. Ambos estivemos contra a ruptura e lutamos até o fim pela unidade. Quando perdemos a batalha e a frente ficou quebrada, nosso vínculo, afirmado pelos conselhos de Barrantes, se fez mais constante. Como muitos, estivemos em luta contra o governo de Fujimori.

Colaboração mútua

Depois ocorreu um período da colaboração mútua, derivada da minha identificação com seu trabalho parlamentar até sua conclusão em setembro de 2019; e sua vontade solidária que o levou a apoiar o que nós lançamos com presteza: a liberdade dos 5 heróis cubanos prisioneiros do Império, a defesa de Cuba Socialista, a identificação com a causa da Venezuela Bolivariana, o apoio à Nicarágua Sandinista, a solidariedade com as lutas dos povos irmãos: Bolívia, Chile, Brasil, El Salvador. Tudo isso esteve de modo recorrente em nossa agenda. 

Houve mudanças em sua trajetória política? Claro que sim. Foram resultado da experiência vivida, da vontade de luta, do trabalho solidário e da identificação com o mito do Amauta: as necessidade de construir um Peru Novo em um Mundo Novo.

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A partida de Manuel Dammert  deixa um vazio muito grande. E se irá tornando mais notável à medida em que passe o tempo. E só poderá ser revertido quando se compreenda que não se trata de palavras, e sim de ações; e quando haja consciência do fundamental, que é lutar sem cessar pelos interesses do país e do seu povo.

A vocação unitária que se radicou nele desde os anos 80, o acompanhou em sua longa carreira política. E a honrou sem concessões nem duas medidas. Sacrificou o seu em benefício do coletivo. E com esse espírito se somou a Juntos pelo Peru promovendo a figura estelar de Verónica Mendoza.

Ganhar com ela em 11 de abril, será um modo de render homenagem à sua memória.

Gustavo Espinoza M.*, Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru  


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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