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Peru, uma batata quente

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M.*

gustavo espinoza perfil dialogos do sulAinda que Ana Jara e Nadine Heredia o neguem com empenho, é claro que “o caso” López Meneses se converteu numa batata quente para o governo do presidente Humala.

“o caso” López MenesesTrata-se de um fenômeno pouco frequente na política peruana: um “cidadão à pé”, que não ostenta nenhuma representação oficial nem cargo algum, mas que tem o privilégio de uma custodia equivalente a da “proteção a dignitários”, equipada de homens, armas e veículos. Ninguém sabe quem dispôs outorgar-lhe esse status, nem porque os uniformizados resolveram acampar no quarteirão em que vive – “Batalhão Livres”- no distrito de Surco. Só que ostenta poderes especiais e que se jacta de ser “amigo de meio mundo”.
Pareceria que, de fato, em algum momento esteve próximo de quem hoje é chefe de Estado, através de um vínculo não aclarado com seu ‘principal conselheiro’, o comandante Adrián Villafuerte, que perdeu o cargo precisamente quando se colocou em evidência o “nível de proteção de que gozava”, surpreendentemente, Oscar López Meneses.
Como os segredos não abundam no cenário político, tem sido possível reconstruir pelo menos alguns elementos do itinerário deste personagem que hoje é manchete nos principais órgão da grande imprensa.
Sabe-se, por exemplo, que nos anos 1990 do século passado, trabalhou estreitamente vinculado aos Serviços de Inteligência à sombra do principal assessor na matéria, hoje encarcerado. Nessa época frequentou algumas dependências universitárias e segmentos profissionais que lhe propiciaram renda.
Porém, curiosamente, seu nome não aparece em nenhum dos seis volumes que contem as conversas do “doc” com seus cupinches na sala do SIN (o SNI deles). Parece que alguma mão travessa se deu o lucho de expurgar os documentos de maneira cuidadosa e sofisticada para assegurar que não fique pista de sua passagem por esses delicados avatares. Hoje, não obstante recrimina-lo sem maiores cuidados a condição de “montesinista”, aludindo a suas correrias por aqueles corredores durante quase dez anos.
Depois, no ocaso do regime neo nazista da época, o ano 2000 – e disso sim há registros escritos- o homem foi assessor da bancada parlamentar do fujimorismo, com a qual confirmou os vínculos que talvez procurava pudicamente ocultar.
Andou por um bom tempo por essas plagas e teve a possibilidade de conhecer – e frequentar – a muita gente que nessa época era notícia. Daí suas relações com uns e outros e seus cantados vínculos com aqueles que hoje se utilizam dele para comprometer-se com manejos escusos ao chefe de Estado.
Eric Frattini, um jornalista espanhol que foi correspondente no Oriente Médio para a Tele Madrid e outros serviços, publicou recentemente um livro que poderia nos ajudar a compreender alguns fenômenos. É claro que este Frattini não cita tampouco a López Meneses, mas nos revela atividades dos serviços secretos dos Estados Unidos altamente sugestivos. Aludindo a eles o ex presidente estadunidense Dwight D Eisenhower soia dizer: “Na CIA fazem coisas que é melhor não tentar compreender, nem explicar”.
Aludia, certamente, a coisas mais sérias: às manobras da agencia secreta estadunidense para assassinar a Patrício Lumumba, revelar a identidade do agente soviético Yuri Nosenko, acabar com a vida de Fidel Castro e muitas outras ações consideradas como “as joias da coroa”, pelos chefes da instituição encarregada desses crimes.
Ao abordar esses temas, o pesquisador ibérico alude aos métodos dos quais se valem os serviços secretos centralizados em Langley: “fabricar drogas alucinógenas capazes de controlar a mente e a vontade das pessoas”, “criar um assassino que execute ações criminosas respondendo apenas a uma só palavra: ‘fabricar’, infiltrar e destruir aparatos de informação em diversos países do mundo e em cada continente”.
A experiência vivida nas últimas décadas, nos permitiu conhecer algumas estas criações que podem parecer fantástica mas que são o resultado do trabalho da quadrilha de loucos que tem em suas mãos as teias da inteligência que alimenta a Casa Branca.
Eles criaram, na Escola das América, no Panamá, ‘serviços especiais’ que serviam para detectar comunistas à distancia, a acabar com eles. Criaram um exército “libertados” em Honduras, que ingressou na Guatemala em 1954 para derrubar Jacobo Arbenz e reinstalar uma administsraçao a serviço do Império. Inventaram uma “organização radical” – Vanguarda Organizada do Povo –VOP- para sequestrar e assassinar o general Schneider no Chile em 1970 e culpar pelo crime aos anarquistas. Infiltraram o entorno do general Velasco Alvarado colocando a seu lado aquele que o derrocaria par restaurar o Peru Oligárquico.
Em outras áreas, valeram-se da cúpula do então Poder Soviético, de quem começou como um simples dipsomaníaco e terminou como um valioso agente: Boris Yeltsin; ao mesmo tempo alentaram a Mijail Gorbachov a deslanchar sua Perestroika, como um avião que parte sem saber se terá pista de aterrissagem no seu ponto de destino, como ele mesmo conferia em 1987.
Se hoje é um lugar comum – e comprovado- dizer que “o doc” trabalhou para a CIA e que, inclusive, foi o virtual chefe de sua estação no Peru nos anos 1990, por que não deduzir que aqueles que trabalharam à sombra deles naqueles anos, são hoje os operadores que têm em mãos os recursos –e as molas- desse odioso poder?
Eles poderiam perfeitamente manter ‘na clandestinidade” a personagens como Rodolfo Orellana, ou Benedicto Jiménez; como mantêm há muitos anos no mistério e na impunidade o “comandante Camión’, a Augusto Blacker Miller, ou ao general Victor Malca e vários outros. Depois de tudo, Lopez Meneses que hoje é manchete no Peru, esteve casado ,precisamente com a filha do general Malca e foi uniformizado que fez a ligação com o “doc” naqueles anos convulsos.
A embaixada dos EUA, em qualquer país do mundo, tem redes de informação diversificadas. Para alguns efeitos trabalha através da DEA, mas também com a Usaid. Conta também com bases militares estabelecidas – no Peru há várias no no Alto Huallaga e no FRAE, a mais importante das quais é Santa Lucia; e com dirigentes civis, alguns dos quais são assíduos comentaristas na televisão local. Possuem também operadores específicos que infiltram no cenário nacional em todos os níveis.
Á sombra da representação ianque, e isso é público, opera a estação da Cia, que funciona em cada país. Suas ações são formais, porque, de acordo com o protocolo estabelecido, trata-se de serviço de um país amigo, que merece a mais alta consideração. No passado se mencionou em documentos formais a ex ministro de García como vinculados a essa estrutura. E é que ela infiltra todo o edifício político, desde as repartições públicas até os partidos de todos os matizes.
Desde 2006, para os serviços secretos dos Estados Unidos, Ollanta Humala era fator de preocupação. Por isso fizeram todo possível para assegurar que Alan Garcia fosse quem disputasse o segundo turno eleitoral e vencesse. Ha quem ainda recorda o desolado pranto de Loudes Flores saindo da casa do embaixador ianque em abril deste ano.
Em 2011, jogaram várias cartas, pelas dúvidas, e logo tiveram que se render diante do triunfo de Humala nas urnas. Diante de seu governo mantiveram duas linhas de trabalho: trataram de isolá-lo e debilita-lo ao máximo para torna-lo anódino; porém, estenderam-lhe a mão para atraí-lo a seu lado ou, pelo menos impedir que vá em busca de outros aliados.
É possível que nesses episódios, López Meneses e outros como ele estarão jogando algum papel. Porém eles também fizeram o jogo duplo da agência. Por isso aparecem ligados al jujimorismo e ao Apra.
Portanto eles têm em mãos ‘informação’ e ‘recursos’ E podem chutar o pau da barraca quantas vezes queiram. E assustar aos que têm medo. Porém, sobretudo, não podem ser colocados em evidência nem sancionados por ninguém. Gozam da impunidade que lhes outorga seu status. Por isso são soberbos, presumidos, malcriados, agressivos…. e perigosos.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru
 
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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