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Plano de Trump e Netanyahu é inaceitável e agrava a já tensa situação no Oriente Médio

Palestina não foi sequer consultada; reação de líderes mundiais foi de rechaço à proposta; para Irã, trata-se de “a traição do século”
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Uma dupla de cínicos e prepotentes, os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Benjamin Netanyahu, de Israel, se reúnem e anunciam um “Plano do Século” para a paz no Oriente Médio. Só que longe de apontar à paz, medida só tende a agravar a situação. 

Primeiro: nenhum palestino, nenhum árabe foi consultado, nem mesmo os aliados europeus. Isto viola o direito internacional e configura uma imposição apoiada na força de duas potências bélicas: Israel, com seu poderoso Exército, e a maior força bélica do planeta, os EUA.

Segundo: plano avaliza os assentamentos ilegais de colonos israelitas em território palestino e dá luz verde à pretensão de Israel de incorporar o Vale do Jordão. Isto significa o controle da água e terras férteis sem conceder nenhum direito aos palestinos que já estão sendo privados de água e alimentos devido aos muros segregacionistas construídos por Israel.

Terceiro: coloca toda Jerusalém como capital de Israel, sem a presença dos palestinos. Fato é agravado pelo fato de Trump ter trasladado a embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém, reconhecendo essa cidade como capital israelense.

O plano já vinha sendo costurado desde que Jared Kushhner, genro de Trump, visitou Netanyahu e anunciou ao mundo que trazia a solução para o conflito.

Palestina não foi sequer consultada; reação de líderes mundiais foi de rechaço à proposta; para Irã, trata-se de “a traição do século”

The White House
Uma dupla de cínicos e prepotentes, os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Benjamin Netanyahu, de Israel.

O que oferecem?

Solução de dois Estados, só que, um micro estado com soberania limitada e US$ 50 milhões para ajudar na consolidação do novo Estado palestino.

Segundo Trump, a iniciativa abriria uma etapa de transição a uma solução de dois Estados; mais do que duplicaria o território palestino e proporcionaria uma capital para a Palestina em uma parte oriental de Jerusalém. Além disso, diz que a Autoridade Palestina teria que instituir leis básica para proteger os direitos humanos e deter as ações “terroristas”.

O programa pretende congelar durante quatro anos a construção de novos assentamentos com colonos judeus, mas descarta a possibilidade de desmantelar os já assentados ilegalmente. Ademais, o governo israelense seguiria mantendo o controle da segurança nas áreas palestinas, as fronteiras, o espaço aéreo, os aquíferos, o mar e o espectro eletromagnético.

O texto nega aos palestinos o direito ao retorno, elimina seus direitos sobre Jerusalém e impõe condições que avassalam direitos históricos e qualquer possibilidade de soberania.

O que resta para os palestinos? Para Mahmoud Abbas a estratégia será continuar a luta até pôr fim à ocupação e conseguir o estabelecimento de um território soberano com a capital na Jerusalém oriental. 

Reação árabe

O Plano é inaceitável segundo Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, controla o território palestino na Cisjordânia, e Ismail Haniya, comandante palestino na faixa de Gaza. 

Simultaneamente, o sítio virtual Palestina Livre, diante da algazarra com que Trump revelou sua tão esperada proposta “para paz no Oriente Médio”, batizada de “Acordo do Século” por supostamente oferecer uma solução justa e equitativa a um dos conflitos mais difíceis do mundo, diz que a proposta ressuscita e restaura o grande apartheid, um sistema político racista, que deveria estar extirpado do mundo.

No Líbano, o que se impõe com a situação criada, como assinala o ex- premiê Saad Hariri, é “respaldar a unidade desse povo (palestino) é um dever árabe, nacional, moral e humanitário”. Documento distribuído à imprensa reflete a posição das duas principais organizações, a Corrente Futura e o Hezbollah, que também defendem o “sagrado direito de retorno” dos palestinos a sua pátria original.

Vale lembrar que com a ocupação e estabelecimento do Estado de Israel em 1948 foram expulsos de seus lares 700 mil palestinos. Hoje são mais de cinco milhões vivem em precárias condições de vida, como refugiados.

Reação mundial

A Jordânia se manifestou dizendo que só a volta das fronteiras ao estabelecido em 1967 poderá conduzir à paz no Oriente Médio. 

A Turquia, que não é árabe, define a proposta de Trump/Netanyahu como um plano de anexação. 

O Irã, que também não é árabe, qualificou o plano como “a traição do século”. Para o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores iraniano, Abbas Mousavi, a solução justa é promover um referendo entre os residentes na Palestina, incluindo os colonos nos assentamentos ilegais

Antonio Guterres, secretário geral da ONU, defende que não pode ser de outra maneira que não a solução aprovada pela Assembleia Geral, de dois Estados, com a volta à fronteira de 1967 e a resolução de 4 de julho do Conselho de Segurança que estabelece Jerusalém como a capital da Palestina. A mesma posição foi manifestada pela França.

Igualmente, o presidente da Assembleia-Geral, Tijiani Muhammad-Bande, reafirmou o compromisso da ONU de apoiar a solução pacífica do conflito na Palestina através da proposta de dois Estados, pois a ONU se guia pelas decisões tomadas pelos Estados membros. Que bom seria se palestinos e israelenses pudessem viver em paz!

Os sauditas foram os únicos que apoiaram Trump sem qualquer reparo.

No Parlamento Europeu, euro-deputados afirmaram que a União Europeia deve rechaçar esse plano porque viola a lei internacional e torna permanente a ocupação. 

O chamado Acordo do Século é, de fato, a vergonha do século, manifestou o espanhol Manu Pineda, um plano sem a participação do governo palestino que significa plano de Netanyahu de roubar as terras dos palestinos.

Para o governo venezuelano, em comunicado oficial, se trata, a todas as luzes, de uma proposta desigual, injusta, parcial e ilegal que a opinião pública mundial qualificará como “a fraude do século”.

Reação ianque

Thomas L. Friedman, premiado jornalista especialista em política exterior do New York Times, pergunta: este plano trata de dois Estados para dois povos ou se trata de diversionismo para dois líderes indecentes? Ele lembra que tanto Trump como Netanyahu estão com seus mandatos em perigo. A proposta agrada os evangélicos, pentecostais e neopentecostais, que apoiam ambos os governantes.

Em Israel já vinha ganhando terreno a ideia de um só Estado tutelado por Israel com a capital em Jerusalém. A proposta dos republicanos, segundo a senadora e candidata democrata Elizabeth Warren, é luz verde para para a futura anexação do território controlado pelos palestinos por parte das forças israelenses.

Telegrama de Prensa Latina recolhe depoimento de Nathan Thrall, especialista em Oriente Médio e diretor do Projeto Árabe Israelense do International Crisis Group, o plano de Trump só dá os últimos retoques a um edifício que os legisladores estadunidenses, tanto republicanos como democratas, ajudaram a construir durante dezenas de anos.

Durante os últimos decênios, na medida em que Israel se apoderou lentamente da Margem Ocidental, pondo mais de 600 mil colonos em território ocupado, Washington proporcionou apoio diplomático, vetos no Conselho de Segurança da ONU, pressão sobre os tribunais e organismos de internacionais de investigação para que não perseguissem Israel e deu milhares de milhões de dólares em ajuda anual.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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