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Populistas fecham aliança para eleição européia e querem minar a própria UE

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

O eurocético holandês Geert Wilders costura aliança para as eleições europeias
O eurocético holandês Geert Wilders costura aliança para as eleições europeias

Muitos europeus observaram com espanto a recente paralisação de grande parte dos EUA. Mas a União Europeia poderá passar por situação semelhante se partidos eurocéticos continuarem a crescer na eleição européia para o Parlamento da UE.

O que quase ninguém imaginava ser possível se tornou realidade. Um grupo dissidente de políticos reacionários, o movimento ultraconservador Tea Party, mergulhou os Estados Unidos numa crise devido a disputas orçamentárias. Foi somente com grande dificuldade que o presidente Barack Obama conseguiu acabar com o bloqueio administrativo, o chamado shutdown, eliminando, por enquanto, a ameaça de insolvência dos Estados Unidos.

“Os EUA estão muito longe, isso não seria possível por aqui”, podem ter pensado alguns europeus. Porém, futuramente, a possibilidade de uma política de bloqueio por parte de forças reacionárias no Parlamento Europeu não está descartada.

Se partidos eurocéticos e populistas de direita continuarem em ascensão e se saíam bem nas eleições europeias em maio de 2014, ganhariam mais influência no Parlamento Europeu. Ali, poderiam formar alianças e influenciar a política europeia a seu favor.

Em Bruxelas, não se acredita que, neste caso, a União Europeia (UE) seria completamente paralisada por essas forças ultraconservadoras, mas há cada vez mais temores de que a ameaça de um “shutdown light” possa acontecer – um bloqueio ou uma maior morosidade nas propostas legislativas, como também uma obstrução generalizada dos trabalhos parlamentares.

A eurodeputada Franziska Keller, do Partido Verde, relatou à Deutsche Welle sobre bloqueios por parte de grupos reacionários que já existem no Parlamento Europeu. A deputada advertiu que, em breve, a obstrução de projetos de lei, entre outros, poderia acontecer mais frequentemente no Parlamento Europeu.

Aliança populista de direita

Marine Le Pen deu cara nova à extrema direita francesa
Marine Le Pen deu cara nova à extrema direita francesa

Principalmente a ala populista de direita está se mobilizando. Os eurocéticos franceses e holandeses, sob a liderança respectivamente de Marine Le Pen e Geert Wilders, querem trabalhar em conjunto. Pelo Twitter, Wilders anunciou um encontro com Le Pen para esta quarta-feira (13/11), quando deverão discutir sobre uma estratégia comum para as eleições europeias. O objetivo é conquistar uma bancada tão grande quanto possível para os eurocéticos.

Franziska Keller acredita que os populistas de direita estão de olho principalmente na política de migração e de refugiados da União Europeia. “Vai ser duro. Se quisermos tirar consequências da tragédia de refugiados em Lampedusa [no dia 3 de outubro, um naufrágio de refugiados que tentavam chegar ilegalmente à Itália matou mais de 300 pessoas] e fortalecer a migração legal, então temos de nos preparar [para atos de resistência].”

Outros políticos europeus também estão preocupados. “O crescimento do populismo é hoje o fenômeno social e político mais ameaçador na Europa”, disse, por exemplo, o primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, ao jornal The New York Times. “Temos de lutar contra isso”, exigiu Letta, “caso contrário, nas eleições de maio de 2014, teremos o Parlamento mais antieuropeu de todos os tempos.”

Para evitar um “pesadelo”, os pró-europeus devem obter ao menos 70% dos assentos. No entanto, em quase todos os países da UE, partidos populistas de direita, eurocéticos e antieuropeus ganham importância. Temas-chave como a imigração, a política de austeridade econômica, a saída da União Europeia e a rejeição ao euro dominaram as últimas eleições.

Sinal de grande força simbólica

Franziska Keller
Franziska Keller quer chamar a atenção para a importâncias das eleições européias

Uma baixa participação eleitoral pode também facilitar a entrada dos adversários da UE no Parlamento Europeu. Nas eleições europeias passadas, em junho de 2009, o comparecimento às urnas foi de pouco mais de 43% – muito menor que a média de 60% a 70% nas eleições parlamentares e presidenciais em países democráticos.

“Quanto menor a participação eleitoral, quanto maior a indiferença dos eleitores, mais fácil para forças radicais conseguir maiorias”, explicou à Deutsche Welle Sergey Lagodinsky, especialista da Fundação Heinrich Böll. A frustração política generalizada faz com que eleitores “presos no campo de promessas populistas” passem a apoiar partidos alternativos, disse Lagodinsky.

De acordo com informações da emissora pública alemã ARD, os estrategistas políticos em Bruxelas esperam que, após as eleições europeias, até 20% dos eurodeputados queiram abolir o Parlamento Europeu.

Atualmente, 60 dos 765 deputados podem ser classificados como ligados ao bloco dos eurocéticos. “Se há um grupo relativamente forte dentro do Parlamento, que é contra esse Parlamento e a União Europeia, isso seria um sinal de grande força simbólica”, disse Lagodinsky. “Acredito que essa força simbólica seria a pior coisa que possa sair das eleições.”

Na esteira do populismo

Segundo emissora alemã, após eleições em 2014, 20% dos eurodeputados poderão querer abolir o Parlamento Europeu
Segundo emissora alemã, após eleições em 2014, 20% dos eurodeputados poderão querer abolir o Parlamento Europeu

Diferentemente do Tea Party americano, que como parte do importante Partido Republicano pode assumir uma influência maior na política do país, Lagodinsky acredita que os adversários da União Europeia estarão relativamente isolados. Assim, não haveria uma ameaça institucional como no caso do Tea Party. “O perigo seria, no entanto, que outros partidos conservadores, mas também partidos de esquerda, sejam levados na esteira do populismo”.

Na Alemanha, por exemplo, “devido à crescente importância do partido Alternativa para a Alemanha [AfD, na sigla original, legenda criada por políticos conservadores como protesto à política da chanceler federal Angela Merkel], outros grupos conservadores e talvez também o Partido Liberal sejam pressionados e passem a agir com tais palavras de ordem.”

Políticos como a eurodeputada Franziska Keller pretendem aproveitar o tempo até as eleições europeias em maio do próximo ano para destacar a importância do voto e para desenvolver uma estratégia com a qual os populistas de direita sejam colocados no devido lugar. “Até o momento, os grupos populistas de direita no Parlamento Europeu acabaram, no final das contas, se dissolvendo por si mesmos em suas disputas nacionalistas”, disse Keller. Ela supõe que isso possa vir a acontecer novamente. “Mas não podemos contar com isso”, afirmou.

Deutsche Welle.DE


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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