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Por que ataques à liberdade de imprensa são grave risco à consciência da cidadania

Se a imprensa não pode funcionar, tampouco o farão as instituições fundamentais dos Estados
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul Global
Cidade da Guatemala

Tradução:

Uma das mais graves ameaças para a democracia são os atentados contra a liberdade de expressão. Signo inequívoco da corrupção do sistema, a intimidação e os atos de violência contra jornalistas e outros comunicadores revelam as intenções nada nobres de setores cujo objetivo é manter a população na ignorância, e a dissidência no silêncio. De acordo com dados proporcionados pela Unesco, pelo menos 827 jornalistas foram assassinados na última década. 

Os meios de comunicação com vocação de independência editorial são as primeiras vítimas das tentativas de sabotagem, por se erigirem como porta-bandeiras na denúncia e no protesto. Mesmo quando existem leis específicas para garantir a livre emissão de pensamento, qualquer fissura no estado de Direito constitui um perigo de colapso de direitos civis em mãos de grupos de interessados em pôr uma rede de contenção à imprensa. 

Na América Latina isso não é novidade; durante sua história – antiga e recente – muitas foram as tentativas de calar a imprensa e também muitas as batalhas ganhas por esse setor. No entanto, aumentam as tentativas de intimidação, ao ponto de se tornarem óbvias para sociedades que usualmente se mantêm alheias a este tipo de conflito. O mais preocupante é a impunidade que tem rodeado os ataques contra jornalistas, situada em torno de 80%, o que denota o enorme poder que ampara os agressores.

Se a imprensa não pode funcionar, tampouco o farão as instituições fundamentais dos Estados

ANESP
Ser jornalista ou tentar exercer tal atividade é considerado hoje uma atividade de alto risco




Guerra contra a imprensa

Um dos aspectos mais críticos desta guerra contra a imprensa no nível mundial é a vulnerabilidade dos jornalistas e correspondentes que trabalham em condições de risco por seu trabalho de investigação e denúncia dos abusos cometidos à sombra dos poderes político e corporativo-empresarial.

Estes colegas desempenham um trabalho fundamental no exercício da profissão, sem outro escudo além de seus crachás de imprensa e encomendando-se a todos os santos para não sofrerem represálias por suas investigações – muitas vezes relacionadas com o crime organizado ou temas ambientais que põem o dedo sobre empresas poderosas e políticos corruptos.

Os intentos de silenciar a imprensa constituem um disparo à consciência da cidadania, dado que a condena à ignorância e lhe veda o direito ao acesso a uma informação completa, veraz e responsável, um dos pilares fundamentais dos sistemas democráticos. A situação é real e também são as ameaças para calá-la, o que faz temer que o jornalismo independente se encontre em perigo de extinção enquanto seus representantes continuarem sendo assassinados, perseguidos e impedidos de exercerem seu trabalho com plena liberdade.

Enfrentados a uma situação de extremo perigo e com o desafio adicional de protegerem suas famílias e manterem-se vivos, esses profissionais não poderão cumprir sua tarefa a menos que as autoridades assumam a responsabilidade de fazer valer as leis que protegem o exercício jornalístico. 

O que experimentam os comunicadores é uma situação que poderia ser qualificada como um sequestro dos direitos e liberdades cidadãs. Se a imprensa não pode funcionar, tampouco o farão as instituições fundamentais dos Estados e isso se verá replicado em todas e cada uma das instâncias que o conformam. Este cenário precário para o jornalismo é um dos temas mais sensíveis da última década.

Ser jornalista ou tentar exercer tal atividade é considerado hoje uma atividade de alto risco.

Carolina Vásques Araya | Colaboradora da Diálogos do Sul na Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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