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Porto Rico: "Somos pacientes, mas não somos covardes", diz líder do Movimento Libertador

Indignados, os porto-riquenhos tomaram as ruas e em apenas duas semanas de protestos derrubaram o governador Ricardo Rosselló
Redação Prensa Latina
Prensa Latina
Havana

Tradução:

A renúncia de Ricardo Rosselló após duas semanas de protestos populares, criou um precedente histórico em Porto Rico, já que nunca um governador da ilha havia abandonado o cargo sem cumprir seu mandato.

“O povo porto-riquenho parecia estar dormindo”, declarou à Prensa Latina, Rosa Meneses Albizu Campos, a propósito das manifestações massivas que seu país vive desde meados de julho.

Delegada no exterior do Partido Nacionalista do Porto Rico (PNPR)/Movimento Libertador, Meneses disse que durante um bom tempo perguntava-se “por que, depois do furacão María quando ficamos sem teto, sem luz, sem água, sem nada, despojados do mais básico para viver, não protestamos”.

A resposta era que o fenômeno meteorológico ocorrido em setembro de 2017 causou na chamada Ilha do Encanto foi “verdadeiramente uma catástrofe e acho que estávamos focados demais em nossa própria dor tentando resolver nossos problemas de sobrevivência”.

No entanto, nestes dias “as pessoas tomaram as ruas indignadas, revivendo a chama da rebeldia do povo porto-riquenho. Portanto, que não se confundam, somos pacientes, mas não covardes”.

Indignados, os porto-riquenhos tomaram as ruas e em apenas duas semanas de protestos derrubaram o governador Ricardo Rosselló

Prensa Latina
Rosa Meneses Albizu Campos, Delegada no exterior do Partido Nacionalista do Porto Rico (PNPR)/Movimento Libertador

Somatória

O que acabamos de ver é a somatória de tudo que tem acontecido em Porto Rico, e a gota d'´água foi esse indivíduo (Roselló) e seu círculo que, se supunha, eram os que deveriam defender os interesses dos porto-riquenhos, destacou.

Neta de Pedro Albizu Campos, a figura mais relevante na luta pela independência do Porto Rico durante o século XX, Rosa tem plena consciência de que “é os Estados Unidos que, até agora, tem decidido o que acontece na ilha”.

Recordou que Roselló chegou ao poder “porque era quem interessava a Washington que ganhasse as eleições coloniais de 2016” e “enfatizo coloniais porque também não é segredo que quando converteram em 1952 Porto Rico em um Estado Livre Associado aos EUA, nossa condição de protetorado ficou evidente”.

Por isso um grupo de jovens independentistas assaltaram as sessões do Congresso dos Estados Unidos quando se decidia o estatuto, “eles denunciaram ao mundo que Porto Rico era uma colônia e seu problema não era doméstico, era uma luta pela independência nacional”, comentou.

Até hoje – acrescentou – “esse é o problema básico de Porto Rico, uma luta pela independência nacional, que se converteu em uma luta pela sobrevivência do país”.

Segundo Meneses, os Estados Unidos estão implementando tudo que podem, por diferentes vias, “para exterminar a nacionalidade porto-riquenha” e para cumprir tais objetivos utilizam os setores da educação e da saúde.

A líder política boricua afirmou que a Casa Branca tem aplicado métodos para “envenenar as pessoas, esterilizar as mulheres aplicando radiações e fazendo experimentos em nosso território”.

Em sua opinião, os Estados Unidos apostaram na mudança populacional e “vem implementando desde o primeiro dia, aquele 25 de julho de 1898 em que começaram a desembarcar seus marines e tomaram posse da ilha, estes métodos”.

Hoje, há mais porto-riquenhos fora do país que dentro – explicou – enquanto “continuam chegando quantidades inimagináveis de estrangeiros que estão comprando propriedades e se estabelecendo em meu país, principalmente a partir de 2016 quando os Estados Unidos promulgaram a Lei Promessa (iniciais em inglês de Puerto Rico Oversight, Management, and Economic Stability Act)”.

A iniciativa legislativa federal “permitiu – entre outros males – o estabelecimento de uma Junta de Controle Fiscal de sete pessoas nomeadas pelo Presidente dos Estados Unidos que são as que exercem toda a autoridade executiva de Washington em Porto Rico”.

Um desses políticos “é o governador, que resulta uma espécie de administrador colonial dos interesses yanquis. Através desse pró-cônsul é que se cumpre a vontade do império em meu país”.

Adeus aos planos de reeleição

Reportagens da imprensa destacaram que Ricardo Roselló foi forçado a se demitir, como foi divulgado em 24 de julho.

Um relatório de um comitê de juristas consultados pela Câmara de Representantes chamou sua conduta de criminosa, o que implicaria o julgamento político de residenciamento, reservado aos governantes que traem seu povo.

Há dois anos e meio, Roselló estava à frente da ilha. Em março tornou públicas suas aspirações de reeleição sob as cores do Partido Novo Progressista (PNP).

Mas seus planos foram por água abaixo devido à divulgação de chats misóginos e homofóbicos dele e alguns de seus colaboradores próximos, que desataram uma onda inédita de mal-estar popular.

“Esse foi o catalizador do desgosto coletivo acumulado há tempos, como a pobreza e todos os males da sociedade que ficaram evidentes com a tragédia do María e revelaram a crise social, política, econômica total que desde 2016 começou a se gestar com a Junta”, explicou Meneses.

Ao mesmo tempo que eram divulgadas as mensagens explosivas na rede social Telegram, a ilha também está sacudida por um escândalo de corrupção após seis servidores públicos do governo terem sido acusados de malversação de 15 milhões de dólares de fundos federais destinados à reconstrução.

“Agora se abriu a caixa de Pandora e saíram os monstros, essas criaturas filhas de Washington que roubaram até os pregos da cruz, como dizemos em Porto Rico, e são servidores públicos que chegaram a esses cargos não para beneficiar o povo mas para satisfazer seus próprios interesses”, enfatizou.

Roselló efetivará sua renúncia no dia 2 de agosto. No começo, falou-se na substituição temporária por Wanda Vázquez, a secretária de Justiça, mas ela já anunciou no Twitter que não pretende ocupar o cargo. “Espero que o senhor governador identifique e submeta um candidato para o posto de Secretário/a de Estado antes do dia 2 de agosto e assim o tenho manifestado”, escreveu na plataforma da Internet.

No entanto, a delegada do PNPR no exterior olha um pouco além, “na realidade, tem até um rearranjo do próprio Estados Unidos – opinou – porque a Casa Branca tira e põe presidentes em todas partes do mundo”. Do seu ponto de vista, “estão construindo algo para Porto Rico que não sabemos o que é, a verdade é que já não lhes serve mais o Estado Livre Associado”.

Yulín Cruz

O que é que vem? – se perguntou Meneses – por que estão promovendo leis e com elas dão todo tipo de facilidades aos investidores estrangeiros?,Por que chegam tantos multimilionários a Porto Rico? Será uma base para os Estados Unidos em todo o sentido da palavra?”

Considerou que “vem se formando um esquema” e a “carta política para esse outro projeto que querem estabelecer em Porto Rico tem nome: Carmen Yulín Cruz, a atual prefeita de San Juan”.

Qualquer solução temporária neste momento para o governo tem uma ficha marcada. “Yulín é a escolhida para as eleições coloniais de 2020”, reafirmou.

A prefeita “tem paquerado com o setor independentista, em particular os soberanistas, mas ela é uma colonialista”, afirmou Meneses.

Pré-candidata a governadora pelo Partido Popular Democrático (PPD), Yulín “usa muito a palavra soberania para não dizer independência, é uma jogada política”, acrescentou.

Dívida

Algumas estatísticas apontam que na Ilha do Encanto coexiste uma profunda crise econômica com uma dívida fiscal que supera os 70 bilhões de dólares.

Em maio de 2017, o governo de Roselló se declarou em bancarrota com o objetivo de reestruturar a dívida pública, enquanto isso, passados quase dois anos do furacão María, cerca de 40 mil famílias continuam sem teto.

Para muitos – entre eles Rosa Meneses – a questão vai além da renúncia de Roselló, se trata do braço de ferro entre os setores que querem uma nação independente, aqueles que insistem no Estado Livre Associado ou os que, como o governador, querem ser o estado número 51 dos EUA..

Ao que tudo indica, as demonstrações populares dos últimos dias inclinam a balança para a primeira opção: a independência.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Redação Prensa Latina

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