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“Precisamos recuperar o pensamento crítico”

Paulo Cannabrava Filho

Tradução:

Revista Diálogos do Sul

Capa da edição comemorativa dos 10 anos de Cadernos do Terceiro Mundo Brasil Capa da edição comemorativa dos 10 anos de Cadernos do Terceiro Mundo Brasil

Herdeira do Cadernos do Terceiro Mundo, a Revista Diálogos do Sul vem combativamente promovendo o pensamento crítico por meio de artigos e análises que trazem a visão do Sul.

Um olhar, segundo o jornalista Paulo Cannabrava Filho, à frente da revista, “profundamente anti-imperialista”.

Em exclusiva ao Blog do Zé, ele conta como nasceu a ideia da revista e convida a todos a prestigiarem um outro tipo de jornalismo, aquele “que se preocupa em dar voz aos protagonistas”. Acompanhem:

Paulo, como vocês chegaram à ideia do portal Diálogos do Sul?

Paulo Cannabrava Filho: Entre 1975 e 2005, existiu uma revista chamada Cadernos do Terceiro Mundo. Ela nasceu no exílio, criada por Neiva Moreira, Pablo Piacentini, Beatriz Bíssio. Com a ajuda dos argentinos, ela nasceu em Buenos Aires. Com a chegada da ditadura na Argentina, mais especificamente da Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), eles tiveram que sair de lá e foram para o México. Ali conseguiram fazer novamente a revista que teve, neste período, o seu apogeu.

A revista Cadernos do Terceiro Mundo circulava em inglês, em português (Portugal e África) e em espanhol (América Latina e Europa). Depois, com a anistia política, o Neiva e a Beatriz voltaram para o Brasil e relançaram a revista aqui.

Ela durou até quando?

Paulo Cannabrava Filho: Até 2005, quando não havia mais condições de sobrevivência, sem nenhum apoio, vivendo apenas de pequenos anúncios. Então, a revista quebrou. Mas, muita gente cobrou, “por que vocês não voltam com os Cadernos?” Para você fazer uma revista hoje e distribuir para o mundo, só o custo de distribuição a inviabiliza… Como fazer uma revista para chegar em Manaus? Então, nós abandonamos a ideia da revista. Nisso, eu tive um pouco a ver. Eu sou um dos fundadores da Cadernos do Terceiro Mundo e durante esses 35 anos, estive ligado umbilicalmente a ela. Onde eu estava, era considerado o representante da revista. Aí, com a internet, nasceu a ideia do Portal. Pela internet você alcança o mundo inteiro.

Qual a ideia central do portal?

Paulo Cannabrava Filho: O propósito é o Sul olhando o mundo e o Sul dialogando com o Sul. Então, chamamos de Diálogos do Sul. Nós mostramos o Brasil para o mundo e o mundo para o Brasil, com o olhar do Sul. Do Cadernos do Terceiro Mundo, nós herdamos a ética, o jornalismo diferenciado, aquele que se preocupa em dar voz aos protagonistas. Não vou falar do presidente da Venezuela, Hugo Chávez com informações vinda da agência dos Estados Unidos ou da França. Vou falar de Chávez ouvindo Chávez. E assim por diante…

Nós oferecemos ao público uma visão de mundo diferenciada. A visão do Sul é profundamente anti-imperialista, totalmente. Essa visão do Sul contra o Norte não é só metafórica, ela é real. E o Sul para sobreviver tem de se articular. Nós trabalhamos essa articulação Sul-Sul com ênfase na integração latino-americana, no velho sonho bolivariano que nós perseguimos desde crianças.

Como vocês selecionam o conteúdo? 

Paulo Cannabrava Filho: Nós não fazemos coberturas, porque somos muito carentes de recursos. Até agora não conseguimos apoio. Contamos com o trabalho voluntário do pessoal que colaborava com os Cadernos e de um pessoal novo que ouviu falar e quer sim se incorporar a uma ideia como essa. Temos, também, as agências alternativas. Fizemos um acordo com a Prensa Latina e com a Inter Press Service (IPS) que são duas agências diferenciadas, com olhar de Terceiro Mundo para o mundo. A IPS, inclusive, tem estatuto consultivo da UNESCO, o que é muito importante. Ela trata de temas femininos, desenvolvimento sustentável etc.

Nós temos como objetivo recuperar o pensamento próprio. Martí, Mariátegui, Darcy Ribeiro, enfim, nós temos um pensamento, uma filosofia, uma doutrina para nos amparar e nos opor à alienação do Norte. Porque o Norte é pura alienação. As análises acadêmicas modernas que focam o Norte mostram essa alienação, o consumismo, os senhores da Guerra.

Nós precisamos resgatar o pensamento criativo e, sobretudo, o pensamento crítico. O grande pecado desses últimos anos é que a escola deixou de formar o pensamento crítico. Acabaram com o Paulo Freire. Nós temos de recuperar os Paulos Freires e os Darcys Ribeiros que existem em cada país, principalmente entre os nosso vizinhos. Os filósofos mexicanos, argentinos, o pensamento profundo dos peruanos.

Estamos dando espaço a esses pensadores e tentando fazer com que as pessoas olhem criticamente e criativamente o mundo. Essa é a nossa proposta.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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