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Preconceitos, prejuízos e estereótipos

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Embora nem todos os preconceitos sejam causadores de prejuízos, a verdade é que ambos terminam muitas vezes estreitamente vinculados. Sobram exemplos. E eles se relacionam com os estereótipos, de modo que nesse enredo de pré-concebidos se constroem fios que, por sua vez, constituem verdadeiras teias de aranha entre as quais é fácil ficar enredado. Para não ser crítico, nem parecer que fujo de exemplos concretos, mencionarei algumas das três coisas: prejuízos que causam preconceitos condicionados por estereótipos.

Por Laidi Fernández de Juan (*)

Acreditar, para citar um caso que pertence à esfera artística, que o humorismo é algo menor, ou fácil, ou não transcendente, é um preconceito que fere, que causa prejuízo cultural. A literatura humorística não é considerada um gênero literário, mas um simples entretenimento que não vai além da mera risada que possa gerar, no melhor dos casos. Já disse antes e reitero: Assim como a literatura policial (ou o gênero “sombrio”, uma de suas variantes), depois de batalhar durante anos, conseguiu afiançar-se com a validez que lhe corresponde, – fato que se deve em grande medida à atenção prestada a essa manifestação por grande autores como o mexicano Alfonso Reyes e os argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares—, a literatura humorística, com seus códigos próprios e a mesma exigência da chamada “séria”, merece o respeito que ainda não tem no nosso meio. Daí a importância quase histórica do fato de ter sido Eduardo del Llano a ganhar o Prêmio Alejo Carpentier de Romance com El enemigo. Celebro o autor, e com igual regozijo, o Júri, que com total justiça valorizou a qualidade narrativa de um romance, que além de bem construído, é humorístico.

Em algumas ocasiões se causa prejuízo, sem que exista preconceito, mas simplesmente se fere alguém que está dizendo a verdade, por muito dolorosa que ela seja. É o caso do companheiro Esteban Morales, que ousou dizer em voz alta, há alguns anos, o que já se murmurava nos corredores com respeito ao flagelo perigosíssimo da corrupção. Depois foi retificado o erro de sancioná-lo, mas a cicatriz ficou. E agora aparece nas redes sociais um artigo que aborda o mesmo assunto (parece que já se pode falar de corrupção), e não se menciona Morales, não se lhe dá o crédito como iniciador de um debate que se frustrou porque não era “o momento adequado”. Nesse meio tempo, a corrupção cresceu com o mesmo vigor do mato no jardim, porque isso de “marco propicio” y de “momento adequado” é rotundamente alheio aos males sociais..

Com respeito aos estereótipos ainda há muito que cortar. O porte e o aspecto de uma pessoa, por exemplo, está longe da qualidade humana que se encontra sob a roupa, o cabelo e as tatuagens, assim como costuma ser enganoso um traje de etiqueta, e a delicadeza de um vestido clássico. Nada tem que ver uma coisa com a outra. Conheço jovens tatuados até às sobrancelhas, que parecem carrinhos metálicos de tantos piercing que têm, e cujas línguas, atravessadas por aros e bolinhas multicoloridas, provocam olhares de repugnância e, sobretudo, causam medo. No entanto, são seres bondosos, inteligentes e solidários com o próximo. Ao mesmo tempo, já vi homens com trajes de admirar, que carregam pastas “executivas”, e que enrolam a voz para sussurrar “trago presunto da loja, mas é de melhor qualidade”, para em seguida, abrir a pasta que parecia destinada a atas notariais e papéis timbrados e mostrar a mercadoria acabada de roubar de um armazém. Por meu bairro passa uma mulher muito arrumada, levando um carrinho de bebê, coberto com um filó. A imagem não pode ser mais terna. Até que se aproxima, levanta o mosquiteiro, e no lugar onde deve estar um ser humano em miniatura, há um ou dois baldes de sorvete, ainda congelados. “Custam dez cada um”, diz, com o tom de quem pede licença para amamentar o bebê no meio da rua. Ainda há quem julgue pelo comprimento do cabelo, da saia, do decote da blusa e da sola dos sapatos, mas por sorte, é uma tendência condenada ao fracasso.

Falando de dinheiro, poderíamos dizer que as chamadas listas negras costumam ser venenosas e quase sempre injustas, mas a boa notícia é que passam, se esfumam e um belo dia desaparecem, e paz na terra e glória no céu. A única maneira de suportar prejuízos gerados por preconceitos, por conveniência ou por covardia, é saber quem se é, ancorar-se naquilo que definitivamente se acredita, e seguir o conselho de nossos avós que diz “tem que suar o calor”, ou aquele árabe: “Sente-se na porta de sua loja e verá passar o cadáver do seu inimigo”. É um ditado, se entende, mas vale a pena acalmar-se entre o vai e vem do porrete, que é como dizer enquanto chega a justiça com seu passo firme embora exasperantemente lento.

*Original de La Jiribilla, revista cultural cubana – Direitos reservados


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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