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Protestos no Equador: Movimento indígena encurrala presidente neoliberal Guillermo Lasso

Paralisação de privatizações e controle de preços de combustíveis e produtos de primeira necessidade são algumas das demandas do levante iniciado em 12/06
Martín Cúneo
El Salto
Quito

Tradução:

O levante indígena contra as políticas neoliberais do presidente Guillermo Lasso tem doze dias e as manifestações aumentam com a escalada repressiva. Uma vez mais, a Greve Nacional é protagonizada pelo movimento indígena, organizado na Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), uma histórica organização que nucleia milhões de equatorianos e conseguiu com sua mobilização dezenas de mudanças legislativas em suas três décadas de história, além da queda de dois presidentes: Abdalá Bucaram, em 1997, e Jamil Mahuad, em 2000.

A Conaie também protagonizou a rebelião mais importante contra o ex-presidente Lenin Moreno, em outubro de 2019, que esteve perto de provocar a queda do Governo. Então, uma enorme mobilização indígena, sindical e universitária conseguiu derrubar o decreto 883, que eliminava o subsídio à gasolina

Desde o início das manifestações, na noite de 12 de junho, mais de 90 pessoas foram presas, uma centena ficou ferida e pelo menos duas pessoas morreram devido aos ataques policiais. Entre elas, Byron Guatatuca, de nacionalidade kichwa, residente na comuna de San Jacinto, morto por um disparo à queima-roupa da polícia em Puyo, na província amazônica de Pastaza.

O exército deslocou mais de 2 mil soldados armados para o entorno do Palácio de Carondelet, sede do Governo, com um plano traçado para evitar que os manifestantes ultrapassem os controles de acesso às principais instituições do Estado.

A Aliança de Organizações pelos Direitos Humanos denunciou, neste 23 de junho, a utilização de bombas lacrimogêneas nos arredores dos centros de ajuda humanitária “sem importar que houvesse mulheres com crianças nos braços”. A plataforma exige a intervenção da Comissão Interamericana de Direitos Humanos “ante as graves violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado” durante a Greve Nacional.

Segundo denunciam, “a força pública detém manifestantes e não os entrega à justiça”. Além de indicar a violência policial que causou duas mortes e deixou três feridos em estado crítico, a aliança afirma que as dez demandas apresentadas pelos manifestantes ao Governo nacional “constituem exigências legítimas de cumprimento de direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais gravemente atingidos, demandas que foram constantemente ignoradas pelo Governo nacional”.

“Estilo autoritário de Lasso começa a ter contradições ao entregar Equador ao capital estrangeiro”

Esta coalizão acusa o presidente Guillermo Lasso de ser “responsável pela injustiça social, pelo aumento dos preços da cesta básica, pela precarização laboral e pelo desemprego”, assim como pelos cortes na educação, saúde e pela imposição violenta de megaprojetos de mineração e petróleo que põem em “grave risco” a vida das aldeias e nacionalidades indígenas do Equador.  

Paralisação de privatizações e controle de preços de combustíveis e produtos de primeira necessidade são algumas das demandas do levante iniciado em 12/06

EDU LEÓN
Greve Nacional no Equador junho 2022




As dez exigências

A Conaie acusa o Governo de Lasso de “impor o neoliberalismo e cumprir a agenda do FMI de maneira dura, cega, como um dogma, golpeando sistematicamente a população com medidas de ajuste”. Ao aumento do preço dos combustíveis, que “repercute em uma economia inalcançável para a maioria das famílias”, somam-se as despedidas em massa no setor público, a falta de remédios e de “infraestrutura educativa” e a “imposição do extrativismo” nos territórios indígenas. Além disso, a Conaie denuncia uma campanha repressiva contra os movimentos sociais, com “fustigamentos, perseguição, criminalização” em uma “guerra contra o povo mobilizado”. 

A detenção do presidente da Conaie, Leonidas Iza, no segundo dia de mobilização, é uma prova disso. As imagens do momento foram captadas por integrantes da confederação indígena. A intensificação das manifestações levaram a sua libertação 24 horas depois.

O levantamento indígena ocorre quando se cumpre o primeiro ano de governo de Guillermo Lasso, um banqueiro ultraconservador, membro da Opus Dei. Segundo conta Pablo Dávalos, pesquisador próximo à Conaie, quando Lasso chegou ao poder “acelerou as reformas neoliberais”, começando por um programa “agressivo” de privatizações em diversas empresas do Estado, entre elas a empresa pública de seguros e o mercado elétrico. Ao mesmo tempo em que dava parte do bolo às empresas privadas, bloqueou qualquer tipo de regulamentação das atividades financeiras, para oferecer certo alívio diante do choque econômico produzido pela pandemia, explica Dávalos.

Desde o início das manifestações na noite de 12 de junho, mais de 90 pessoas foram presas, uma centena ficou ferida e pelo menos duas pessoas morreram em consequência dos ataques policiais]

Para “ampliar o horizonte das privatizações, a desregulamentação, a abertura da economia e a flexibilização laboral”, no primeiro trimestre de 2022 enviou um projeto de lei à Assembleia Nacional com mais de 400 artigos, para reformar mais de 30 leis, entre eles uma reforma neoliberal do mercado de trabalho. 

Entre as dez exigências da Conaie figuram a paralisação das privatizações dos setores estratégicos, o congelamento do preço dos combustíveis, preços justos para os produtos do campo, políticas de controle dos preços dos produtos de primeira necessidade ou um alívio econômico para mais de quatro milhões de famílias com uma moratória das dívidas.

Confira a galeria de imagens em El Salto.
Por Martín Cúneo
Tradução de Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Martín Cúneo

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