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Gritos de “Fora Dina!” e “Dina assassina!” ecoaram por todo o país. (Foto: @WaykaPeru / X)

Protestos no Peru reafirmam unidade popular e desmontam farsa da grande mídia

Atos tomaram praticamente todas as ruas e avenidas do Centro Histórico de Lima, condenando o regime Boluarte não apenas por ser incapaz de enfrentar a crise no Peru, mas ser o responsável por ela
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

Beatriz Cannabrava

O dia 21 de março será lembrado por muito tempo no Peru como um marco especial, uma data emblemática que permitiu que milhões de peruanos, em todos os cantos da Pátria, se reunissem e marchassem para expressar uma vontade inequívoca: seu repúdio ao governo de Dina Boluarte por sua incapacidade de enfrentar a criminalidade e sua virtual cumplicidade com ela.

Na capital, Lima, a mobilização foi a mais expressiva das últimas décadas. Praticamente todas as ruas e avenidas do Centro Histórico foram tomadas, e amplas áreas da cidade, incluindo bairros pouco habituados a esse tipo de manifestação, também foram percorridas.

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O denominador comum das marchas foi o repúdio à onda de crimes, extorsões e violência desenfreada, mas não se limitou a isso. O grito multitudinário da população foi direcionado contra Dina Boluarte e seu regime, sustentado pelas forças militares.

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A televisão e a “grande imprensa” se esforçaram, ao reportar os fatos, para destacar o cansaço da população com o clima de terror que ameaça a todos. Mas essa foi apenas a superfície do protesto. Muito rapidamente, emergiu em todos os lugares a condenação a um governo não apenas incapaz de enfrentar a crise, mas também responsável por ela. “Fora Dina!” e “Dina assassina!” foram os gritos que ecoaram por todo o país.

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Parece, no entanto, que ainda há aqueles que não aprenderam a lição. Em alguns casos, isso pode ocorrer por imaturidade política, mas em outros, fica evidente a intenção de ocultar fatos para retribuir favores recebidos no passado – ou ainda por receber. Em qualquer cenário, torna-se urgente uma definição clara, que posicione cada um em seu devido lugar.

É importante ressaltar, porém, que as opiniões nem sempre são unânimes. Há comentaristas para todos os gostos e articulistas de diferentes orientações, o que dá à imprensa diária uma aparente – e falsa – imagem de pluralidade.

Forjar a unidade popular é um esforço complexo e difícil, mas essencial para acumular forças e derrotar os inimigos do povo (Foto: @WaykaPeru / X)

Por outro lado, o governo manobrou abertamente para frustrar a manifestação. Tentou deslegitimá-la, atribuindo-lhe um caráter “político” e, em seguida, usou esse rótulo para pressionar os grupos que inicialmente convocaram o protesto, impedindo-os de participar. Além disso, a expressão “merinazo”, que busca vincular a marcha com os acontecimentos de novembro de 2020, não foi utilizada por aqueles que promoveram o protesto, mas sim por seus adversários, interessados em instigar com sangue um cenário de violência.

Depois, o regime ameaçou reprimir qualquer “foco de violência”, como se essa violência não derivasse, sempre, da própria ação policial, empenhada em reprimir qualquer protesto. Para esse fim, mobilizou milhares de efetivos policiais – uma resposta prática para desmentir aqueles que afirmam que a polícia “nunca aparece” quando é necessária. Os que dizem não ver a polícia em seus bairros puderam vê-la em massa na avenida Abancay e em todo o centro de Lima. A polícia aparece quando o governo quer.

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De todo modo, o governo teve razão em uma coisa: a troca de um ministro não resolve o problema. Por isso, o melhor é remover todos – incluindo Dina – e buscar um novo governo que, ouvindo a população, encontre outros caminhos para enfrentar a crise.

Um exemplo do posicionamento da mídia pôde ser observado no jornal UNO, especialmente em sua edição de 22 de março. Ali, após assegurar que “a marcha convocada pelos Caviares foi um fracasso”, o jornal relegou a cobertura do protesto para a seção de “Espetáculos” e alegou que o partido Força Popular “traiu o Executivo” ao censurar o ministro do Interior. Obviamente, o jornal considerava que o partido deveria ter apoiado o governo.

O jornal também argumentou que a decisão do Congresso se baseou em um “cálculo eleitoral”, que abriu uma “brecha” que debilita o governo de Boluarte. A publicação assinalda que isso seria produto da “Força Caviar”. E para que não restasse dúvida sobre sua posição e como uma maneira de ir contra esse malefício, destacou ainda que “a presidenta Dina Boluarte apela à unidade nacional”.

Nas páginas internas, o periódico qualificou como “postura pérfida” a atitude da Força Popular e deu razão a José Cueto, o controverso vice-almirante e congressista que defende Boluarte. Mais adiante, insistiu no “rotundo fracasso” da marcha de 21 de março, afirmando que “não superou mais do que mil pessoas”. Destacamos esse exemplo porque se trata de um veículo que historicamente teve uma linha editorial de esquerda – e deveria mantê-la.

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É evidente que a atitude da Força Popular foi oportunista e esteve marcada pela vontade de seus dirigentes de se distanciar de Dina Boluarte e de seu governo. Mas isso era absolutamente previsível. A ultradireita usará a precária ocupante do Palácio do Governo enquanto ela for útil. Depois a abandonará como um trapo velho. O Força Popular precisa “limpar” sua imagem diante da opinião pública para não “se manchar” ainda mais. No entanto, isso não invalida a legitimidade da luta popular nem de suas demandas.

Independentemente desses embates, a imprensa progressista, para se reafirmar como tal, deve assumir uma postura alinhada aos interesses populares. E o primeiro elemento necessário é a Unidade. Forjá-la é um esforço complexo e difícil, mas essencial para acumular forças e derrotar os inimigos do povo.

Uma visão elementarmente clara da conjuntura nacional nos leva a comprovar, sem nenhuma dúvida, que o regime de Boluarte é hoje o principal inimigo de todos os peruanos. A tarefa, portanto, é isolá-lo e derrotá-lo. Para isso, é indispensável somar forças – ou seja, agregar todos aqueles que compartilham desse propósito – e agir de forma estratégica, para evitar que qualquer cidadão se some às fileiras do campo adversário.

Definir sempre o inimigo, conquistar todos os aliados possíveis e neutralizar as forças intermediárias para que não reforcem o campo inimigo: essa foi uma das lições deixadas por Lênin, um lutador indiscutível.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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