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Protestos seguem na Colômbia: “governo dialoga de dia e mata de noite”, diz senador Gustavo Petro

Para o político, “se a atenção que dedicam aos bancos privados fosse entregue às famílias que passem fome e à pequena e média indústria, o problema dos colombianos estaria resolvido”
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

“Voltaram a matar em Yumbo. O governo dialoga de dia e mata de noite”, denunciou o senador Gustavo Petro, líder do movimento Colômbia Humana, repudiando a repressão ocorrida no município industrial do Valle del Cauca, na madrugada de segunda (17).

Nesta data, na cidade localizada ao norte de Cali, organizações de direitos humanos apontaram a ocorrência de ao menos três assassinatos, 34 feridos e 18 desaparecidos pela ação conjugada do Exército, da Polícia, do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad) — a temida Tropa de Choque — e dos milicianos do governo contra os manifestantes. A paralisação iniciada em 28 de abril tem a bandeira da democracia e do fim do uso abusivo da força como uma das suas principais reivindicações.

Segundo Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá, a violência desmedida contra a população civil — que incluiu crianças e idosos — nada mais é do que o reconhecimento do “fiasco da política econômica do país”.

“Em 2019, antes da COVID e diante da queda dos preços do petróleo, a resposta de Duque e de seu ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla, [que renunciou recentemente devido aos protestos], ao invés de fazer a transição para uma economia produtiva, como havíamos sugerido, foi aumentar a rentabilidade das petrolíferas e carvoarias via redução de impostos, estendida ao setor financeiro e a outras grandes corporações do país, o que provoca um desfinanciamento do Estado”, declarou Petro. 

Para o senador, “se a atenção que dedicam aos bancos privados fosse entregue às famílias que passem fome e à pequena e média indústria, o problema dos colombianos estaria resolvido”. Infelizmente, acrescentou, “em vez disso, propõem a um país de famintos um imposto sobre a comida”.

Conforme o líder oposicionista, “o governo não quer negociar e se nega a dar garantias”. Em sua avaliação, “o senhor Duque quer a violência, Álvaro Uribe (ex-presidente de 2002-2010) quer a violência, porque para eles quanto mais caos melhor”, uma vez que usam das confrontações — e de parcela significativa da mídia que controlam — para justificar o injustificável. Assim, mobilizam “o setor mais radicalizado e fundamentalista, o uribismo, que é puro fascista, que quer um golpe de Estado”.

A governadora do Valle del Cauca, Clara Luz Roldán, disse ter “muita, mas muita indignação” com o vídeo que circulou nesta segunda-feira em que se vê militares junto a milicianos. “Por que há membros do Exército próximos a civis armados e encapuzados nos atropelos de Yumbo? Por que razão estes soldados não protegem aos cidadãos e à Prefeitura da cidade?”, questionou a governadora, cobrando uma explicação para tudo o que foi documentado.

“Desaparecidos” pela polícia

A Comissão de Justiça e Paz divulgou um vídeo em que se vê quando a jovem Jenny Paola Cano, “agora relatada como desaparecida”, teve sua casa invadida e foi retirada à força por agentes da Esmad.

Veja o vídeo:

Na mesma madrugada foi mandada pelos ares uma subestação de gás propano próximo à Empresa Colombiana de Petróleos (Ecopetrol), cuja explosão vem sendo imputada pelo governo aos manifestantes, que denunciam a presença de agentes infiltrados. 

Para o senador Wilson Arias, do Polo Democrático, não cabe dúvida de que se trata de “uma enorme e macabra provocação”. “Da mesma forma como o incêndio do Reichstag na Alemanha, que precedeu o holocausto, forças obscuras querem acender a guerra e a matança contra o povo da Colômbia”, condenou Arias. Provocado pelos nazistas, em 27 de fevereiro de 1933, o incêndio do prédio do Parlamento Alemão foi utilizado por Hitler para acabar com a democracia e impor o seu regime.

O prefeito de Yumbo, Jhon Jairo Santamaría, conclamou o governo nacional a “assumir a responsabilidade do que começou a nível nacional”. Pressionado pelo Ministério da Justiça a romper à força as barreiras levantadas pelos manifestantes, Santamaría sublinhou que “nunca daria uma ordem” para afetar sua comunidade, “porque sou prefeito, mas também sou cidadão”.

Para o político, “se a atenção que dedicam aos bancos privados fosse entregue às famílias que passem fome e à pequena e média indústria, o problema dos colombianos estaria resolvido”

Reprodução/ Twitter
Gustavo Petro (segundo à direita), líder do movimento Colômbia Humana e ex-prefeito de Bogotá, durante protesto

O senador Iván Cepeda, do Polo Democrático Alternativo, anunciou que, “diante das graves denúncias de desaparições e assassinatos, e ao anúncio de novos crimes de lesa-humanidade cometidos pela Polícia e pela Esmad, será feita uma nova comunicação à Corte Penal Internacional (CPI). Organizações
Não-Governamentais (ONGs) e Cepeda já haviam entregue uma denúncia contra o governo de Duque na semana passada pela prática de terrorismo de Estado adotada contra os manifestantes.

Política de terra arrasada

O Comitê Nacional de Paralisação (CNP) lançou uma nota na segunda-feira (17) em que afirma que diante da disposição de diálogo, os manifestantes tiveram o anúncio do presidente “do deslocamento da máxima capacidade de força pública para desbloquear o país”. “A resposta às garantias é a de terra arrasada contra a greve”, frisou.

O documento do CNP ressaltou que, entre outros absurdos, o governo sequer “se referiu ao uso de armas de fogo no controle dos protestos” ou conter as milícias utilizadas contra manifestantes ou civis armados infiltrados nas mobilizações. 

“O governo ainda não entende que estamos paralisados porque essas leis, essas instâncias e essas autoridades não funcionam e não respondem a milhões de colombianas e colombianos”. “O governo insiste em mostrar e inclusive exagerar os fatos de vandalismo – com o uso e abuso de seus meios de comunicação – como se com isso pudesse legitimar a força pública para matar, ferir ou desaparecer a quem protesta”, assinala.

De forma enfática, o CNP “segue esperando uma resposta concreta e séria” do governo, convocando a todos se somarem nesta quarta-feira (18), nas “maiores e mais pacíficas manifestações”.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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