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Quem é Ted Cruz, senador pró-armas, apelidado de "lúcifer encarnado” por republicanos?

Negação sobre mudança climática, apoio a reforma migratória e pena de morte e oposição ao aborto e ao matrimônio gay compõem currículo do político
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Há um ano, quando o tormenta invernal revelou as falhas do sistema privado de eletricidade do Texas provocando um apagão, afetando a milhões e causando dezenas de mortes, o senador Ted Cruz fugiu do seu estado para Cancun com sua família, só regressando quando foi descoberto, e justificando que como “bom pai” foi deixar suas filhas – pôs a culpa nelas – com a intenção de regressar de imediato e finalmente, entre uma chuva de críticas, burlas e memes com alguns batizando-o de “Cancun Cruz” (enquanto outros denunciaram que abandonou até seu cachorro Snowflake na casa), foi obrigada a admitir que “foi um erro”.  

Não foi a primeira vez que fugiu ou mentiu diante de outro tipo de tormenta. Ted Cruz é geralmente considerado como o senador mais desprezado e ridicularizado entre seus outros 99 colegas, talvez entre os políticos menos talentosos em manipular a verdade, e embora tente manter um perfil alto, hoje em dia carece de poder por ser parte da minoria republicana na câmara alta – o máximo que pode fazer são declarações e servir de obstáculo para as iniciativas democratas.

Seus comentários recentes criticando o governo do México durante uma audiência no Senado se converteram em notícia e tema de debate nacional no México, mas não foram registrados por nenhum meio nacional aqui, e passaram despercebidos nos circuitos políticos estadunidenses, como na maioria de suas intervenções no debate nacional.  

Seu poder político depende em grande medida só de sua lealdade para com a figura pública que mais insultou sua família, e quem lhe pôs o apelido de “Lyin’ Ted” (Ted o mentiroso) durante a campanha presidencial de 2016, Donald Trump.  

Negação sobre mudança climática, apoio a reforma migratória e pena de morte e oposição ao aborto e ao matrimônio gay compõem currículo do político

Reprodução / Facebook
Longe de ser um “insurgente”, em sua reeleição em 2018, Ted Cruz foi o senador mais beneficiado por agrupamentos pró armas

Primárias republicanas

Nas primárias republicanas de 2016, a pugna entre os dois pré-candidatos Trump e Cruz foi particularmente pessoal e de baixarias. Trump repetia que “Cruz é um hipócrita total” e “Cruz é o maior mentiroso que topei na vida… Ele mente sobre tudo”. Trump chegou a declarar que o pai cubano de Cruz “estava com Lee Harvey Oswald antes de que Oswald, sabem, foi baleado”, insinuando que tinha algo que ver com o assassinato de John F. Kennedy.

Cruz respondeu em vários momentos, declarando que Trump era um “mentiroso patológico”, e o qualificou de “instável” e até sugeriu que poderia ter vínculos com a Máfia.  

Depois se enfrentaram sobre suas esposas, com aliados de Cruz circulando uma foto semidesnuda da próxima primeira-dama e Trump enviando uma foto feia da esposa de seu adversário.

Embora Cruz tenha se recusado a endossar Trump ao chegar à Convenção Nacional Republicana, poucas semanas depois pareceu perdoar os insultos aos seu pai e à sua esposa, e desde então tem sido um fiel defensor e aliado do ex-presidente. 

Em 2018, Cruz convidou Trump para ir ao Texas e apoiar sua eleição. “Já não é LyinTed, agora é belo Ted”, declarou Trump. 

Durante 2012 e até o presente, Cruz promoveu a versão falsa de Trump sobre a “fraude eleitoral” nas eleições presidenciais de 2020, algo com que justificou o assalto sobre o Capitólio há pouco mais de um ano, embora o senador tenha recusado aceitar algumas responsabilidades por esse incidente. 

Seus colegas republicanos no Senado não escondem seu desprezo desde que chegou a esse clube exclusivo. Em seu primeiro mandato como senador, o senador John McCain o qualificou como uma “ave louca”, e Lindsey Graham lamentou que ter que escolher entre Cruz e Trump como candidatos de seu partido: “é muito como optar entre que te peguem um balaço ou que te envenenem: creio que têm o mesmo resultado” (Graham se subordinou, tal qual Cruz, quando este ganhou a indicação, até hoje).

“Lúcifer encarnado” 

O ex-presidente da câmara baixa, o republicano John Boehner o qualificou de “Lúcifer encarnado”.  O então senador democrata Al Franken comentou que “vocês têm que entender que eu quero mais a Ted Cruz que os meus colegas. E eu odeio Ted Cruz”. 

De certa maneira, todo este repúdio de seus próprios colegas beneficiava Cruz porque se apresentou como candidato ao Senado em 2012 como um tipo de populista direitista anti-elite ao surfar na onda do movimento insurgente Tea Party dentro do Partido Republicano. Tudo apesar de ter obtido uma educação de elite na Universidade de Princeton e na escola de leis de Harvard.

Longe de ser um “insurgente”, em sua reeleição em 2018, Cruz foi o senador mais beneficiado por agrupamentos pró armas, pela indústria petroleira, indústria militar, o lobby sionista e linhas aéreas, entre outras.

Nega que a mudança climática seja resultado da atividade humana, descarrilhou a reforma migratória, é defensor do chamado direito às armas, se opõe ao aborto e ao matrimônio gay e favorece a pena de morte.

Cruz, cujo nome real é Rafael Edward, é filho de Rafael Cruz, um cubano que fugiu da ilha em 1957. Segundo contam pai e filho, o pai formou parte da resistência rebelde contra Fulgêncio Batista, versão questionada por seus próprios contemporâneos em Cuba, por exemplo a parte onde supostamente estava ao lado de Frank País horas antes de sua morte, quando na verdade o herói foi assassinado meses antes e em outro lugar. 

Cruz e seus assessores acusaram os jornalistas de serem “irresponsáveis” por se atreverem a acreditar na versão de “oficiais comunistas” em lugar da versão do senador e seu pai, o qual se autonomeou como “pastor”. 

Enquanto isso, no dia 18 de fevereiro, primeiro aniversário de sua grande fuga para um país ao qual desejava impor um muro com seu amigo Trump, não faltaram as piadas sobre “Cancun Cruz” 

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York
Tradução Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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