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“Queremos e necessitamos mudança” disse o papa

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

II Encontro Mundial dos Movimentos PopularesDiscursando no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, o papa Francisco disse que “Necessitamos uma mudança, uma mudança real, uma mudança positiva, uma mudança redentora” e ao final propôs “três grandes tarefas que requerem do decisivo apoio do conjunto dos movimentos populares:

1 – A primeira tarefa é colocar a economia a serviço dos povos: Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos Não a uma economia de exclusão e iniquidade onde o dinheiro reina em lugar de servir. Essa economia mata. Essa economia exclui. Essa economia destrua a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação mas sem a adequada administração da casa comum, Isso implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. Seu objeto não é unicamente assegurar a comido ou um “sustento decoroso”. Nem sequer, e seria um grande passo, garantir o acesso às “três T” (refere-se a Terra, Teto e Trabalho) pelas quais vocês lutam. Uma economia verdadeiramente comunitária, poderia dizer, uma economia de inspiração cristã, deve garantir aos povos dignidade “prosperidade sem exceção alguma”. Isso está nas “três T” mas também acesso à educação, saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao esporte e a recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gostar de uma infância sem carências, desenvolver seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e chegar a uma aposentadoria digna na velhice.

É uma economia onde o ser humano em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição para que as capacidades e as necessidades de cada um encontrem um caminho adequado no ser social. Vocês, e também outros povos, resumem este sonho de uma maneira simples e bela: “bem viver”.

Esta economia não é só desejável e necessária mas também possível., Não é uma utopia nem uma fantasia. E uma perspectiva extremamente realista. Podemos alcança-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho inter-geracional de todos os povos e os dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de “todos os homens y todo o homem”. O problema, ao contrário, é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema em que apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na industria e na agricultura que danificam a Mãe Terra com vistas da “produtividade”, continuam pegando a milhares de milhões de humanos os mais elementares direitos económicos, sociais e culturais. Esse sistema atenta contra o projeto de Jesus.

A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a carga é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povo o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade  privada. A propriedade, muito especialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta com deixar cair algumas gotas quando os pobres agitam esse copo que nunca derrama por si só. Os planos assistenciais que atendem certas urgências só deveriam ser pensados como respostas passageiras. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: essa que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.
Neste caminho, os movimentos populares têm um papel especial, não só exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vocês são poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de vivendas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado mundial.

Conheci de perto diferentes experiências em que os trabalhadores unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras livres e as cooperativas dos papeleiros são exemplos dessa economia popular que surge na exclusão e pouco a pouco, com esforço e paciência, adota formas solidarias que a dignificam. Que diferente é isso dos descartados pelo mercado formal sejam explorados como escravos!

Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia a serviço dos povos devem promover o fortalecimento, aperfeiçoamento, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover infra-estrutura adequada e garantir plenos direitos aos trabalhadores desse setor alternativo. Quando o Estado e organizações sociais assumem juntos a missão das “três T” são ativados os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem edificar o bem comum em uma democracia plena e participativa.

2 – A segunda tarefa é unir nossos Povos no caminha da paz e da justiça. Os povos do mundo querem ser artífices de seu próprio destino. Quem transitar em paz sua marcha pela justiça. Não querem ser tutelados nem ingerências onde o mais forte subordina o mais débil. Quem que sua cultura, seu idioma, seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. nenhum poder fático ou constituído têm o direito a privar os países pobres do pleno exercício de sua soberania,  quando assim atuam, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e de justiça porque “a paz se funda não só no respeito dos direitos do homem, mas também os direitos dos povos particularmente o direito à independência”.

Os povos de América Latina pariram dolorosamente sua independência política e desde então levam quase dois séculos de uma história dramática e cheia de  contradições tentando conquistar a plena independência.

Nestes últimos anos, depois de tantos desencontros, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre seus povos. Os governos da região não pouparam esforços para fazer respeitar sua soberania, a de cada país e a do conjunto regional que tão belamente, como nossos Pais de antanho, chamam d “Patria Grande”. Peço a vocês, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e fortaleçam essa unidade. Manter a unidade diante de toda tentativa de divisão é necessário para que a região cresça em paz  e justiça.

Apesar desses avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra esse desenvolvimento humano equitativo e violam a soberania dos países da “Patria Grande” e noutras latitudes do planeta. O novo colonialismo adota diferentes fachadas. As vezes é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, financistas, alguns tratados denominados “de livre comercio” e a imposição de medidas de “austeridade” que sempre levam a apertar a cinta dos trabalhadores e dos povos. Os bispos latino-americanos denunciaram isso com clareza no documento de Aparecida quando afirmam que “as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem a pondo de subordinar as economia locais, sobretudo, debitando os Estados, que aparecem cada vez mais importantes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações”. Em outras ocasiões, sob a nobre vestimenta de luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo -graves males de nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada- vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a solução dessas problemáticas e muitas vezes piora as coisas.

Da mesma forma, a concentração monopólio dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas adotadas pelo novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Comi dizem os bispos da África, muitas vezes se pretende converter os países pobres em “peças de um mecanismo e de uma engrenagem gigantesca”.

Ha que reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem interação entre os Estados e os povos de âmbito internacional. Toda ação de envergadura realidade em uma parte do planeta repercute no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso nenhum governo pode atuar à margem de uma responsabilidade comum. Se realmente queremos uma mudança positiva, temos que assumir humildemente nossa interdependência. Porém interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses de outros. O colonialismo, nove e velho, que reduz os países pobres a meros provedores de matérias primas e mão de obra barata, engendra violência, miséria, migrações forçada e todos os males que acarretam … precisamente porque ao colocar a periferia em função do centro se lhes nega o direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade e a iniquidade gera violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter.

Digamos Não às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos Sim ao encontro entre povos e culturas. Felizes os que trabalham pela paz.

Aqui quero deter-me em um tema importante. Porque alguém poderá dizer, com direito, que “quando o papa fala de colonialismo se esquece de certas ações da Igreja”. Digo-lhes com pesar: foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários de América em nome de Deus. Meus antecessores o reconheceram, foi dito no CELAM e também quero afirmar. Tal como o santo João Paulo II peço que a Igreja “se postre diante de Deus e implore perdão pelos pecados passados e presentes de seus filhos”. E quero lhes dizer, quero ser muito claro, como foi o santo João Paulo II: peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja mas pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América.

Também pessoa a todos, crentes e não crentes, que se lembrem de tantos bispos, sacerdotes e laicos que pregaram e pregam a boa notícia de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que em sua passagem por esta vida deixaram comovedoras obras de promoção humana e de amor, muitas vezes junto aos povos indígenas ou acompanhando os movimentos populares, inclusive até ao martírio. A igreja, seus filhos e filhas, são uma parte da identidade dos povos latino-americanos. Identidade que tanto aqui como em outros países alguns poderes se empenham em borrar, talvez porque nossa fé é revolucionária, porque nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Houve vemos com espanto como no Oriente médio e outros lugares do mundo se persegue, se tortura, se assassina a muitos de nossos irmãos por sua fé em Jesus. Isso também devemos denunciar: dentro desta terceira guerra mundial em quotas que vivemos, há uma espécie de genocídio em marcha que deve ser detido.

Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americanos, deixem-se transmitir meu mais profundo carinho e felicitá-los por buscar a conjunção de seus povos e culturas, isso que eu chamo poliedro, uma forma de convivência em que as partes conservam sua identidade construindo juntas uma pluralidade que não atenta, mas fortalece a unidade. A busca de vocês por essa interculturalidade que combina a reafirmação dos direitos dos povos originários com o respeito à integridade territorial dos Estados nos enriquece e nos fortalece a todos.

3 – A terceira tarefa, talvez a mais importante que devemos assumir hoje é defender a Mãe Terra.

A casa comum do todos nós está sendo saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um grave pecado. Vemos com decepção crescente como se sucedem as cúpulas internacionais uma depois da outra sem nenhum resultado importante. Existe uma claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está sendo cumprido. Não se pode permitir que certos interesses -que são globais mas não universais- se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais, e continuem destruindo a criação. Os povos e seus movimentos são chamados a clamar, a mobilizar-se, a exigir -pacífica porém tenazmente- a adoção urgente de medidas apropriadas. Eu lhes peço, em nome de Deus, que defendam a Mãe Terra. Sobre este tema eu me expressei devidamente na Carta Encíclica Laudato si.

4 – Para finalizar, quero reiterar-lhes: o futuro da humanidade não está unicamente em mãos dos grandes dirigentes, as grandes potências e as elites. Está fundamentalmente em mãos dos Povos; em sua capacidade de organizar e também em suas mãos que regam com humildade e convicção esse processo de mudança. Eu os acompanho. Digamos juntos de coração: nenhuma família sem moradia, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador ser direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovens sem possibilidades, nenhum ancião sem uma venerável velhice. Continuem com sua luta e por favor, cuidem muito da Mãe Terra.

Rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir a nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os sature de seu amor e os defendo no caminho dando-lhes abundantemente essa força que os mantêm de pé: essa força é a esperança, a esperança de que não seja defraudada. Obrigado. E por favor, peço-lhes que rezem por mim.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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