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Racismo, fim da democracia e saúde privada: as razões de Chomsky para acabar com Era Trump

Em entrevista, o pensador definiu a eleição de novembro próximo em seu país como “a mais importante na história da humanidade”
Bernarda Llorente
Télam
Buenos Aires

Tradução:

O linguista e cientista político estadunidense Noam Chomsky, um dos intelectuais mais eloquentes para ler os cenários complexos que se articulam por baixo da pandemia que hoje paralisa o mundo, sustenta que estamos diante de uma confluência crítica gerada pelo deterioro da democracia, a iminência de um catástrofe no meio ambiente e a ameaça de uma guerra nuclear: a evolução desse panorama depende das próximas eleições em seu país, às quais define em uma entrevista exclusiva com a Presidenta de Télam como “as más importantes não só na história dos Estados Unidos, mas também na história da humanidade”.

Aos 91 anos, o brilhante pensador e autor de obras como “A nova ordem mundial (e a velha)” ou “Poder e terror” mantêm a potência de sua vez dissidente e antibelicista que ao longo de mais de sessenta anos o levou a compatibilizar seus aportes acadêmicos com intervenções públicas que lhe têm valido represálias dos sucessivos governos de sua país, como ser detido por condenar o guerra do Vietnã, figurar na lista negra do ex-presidente Richard Nixon ou receber duros questionamentos por denunciar a guerra suja de Ronald Reagan.

Acusado às vezes de “antiamericano” pela dureza de suas críticas, Chomsky desempenha um papel ativo em causas coletivas – há poucos meses firmou com 150 intelectuais um manifesto no qual alertam sobre o risco da censura aos conteúdos que não se ajustam aos parâmetros impostos pela correção política – sem deixar de atiçar suas cruzadas pessoais: o combate às multinacionais, ao neoliberalismo e ao atual presidente Donald Trump, ao qual caracteriza em um entrevista a Télam, via Zoom desde sua casa em Tucson (Arizona), como “uma espécie de ditador de araque que criou em Washington um pântano de corrupção”. 

Em entrevista, o pensador definiu a eleição de novembro próximo em seu país como “a mais importante na história da humanidade”

Universo Racionalista
Acusado às vezes de "antiamericano" pela dureza de suas críticas, Chomsky desempenha um papel ativo em causas coletivas

Leia a íntegra da entrevista

Bernarda Llorente – Dr. Chomsky, enquanto uma parte importante da humanidade pareceria centrada no impacto do coronavírus e suas consequências, o senhor redobra a aposta e adverte que a sobrevivência de nossa espécie humana é o que verdadeiramente está em perigo. 

Noam Chomsky – Devemos reconhecer que este é um momento histórico notável. Estamos no meio de uma confluência de crises existenciais: a da catástrofe do meio ambiente, a da guerra nuclear, a crise do deterioro da democracia, que é o único meio para combater essas crises. E, além do mais, as crises de pandemias. A Covid-19 em particular – da qual sairemos – terá um custo desnecessário, terrível. Mas não será a última. Temos tido muita sorte até agora porque as repetidas epidemias de coronavírus que temos vivido foram contidas. O Ebola, por exemplo, foi altamente letal mas não demasiado contagioso. A Sars é muito contagiosa, mas não muito letal. A próxima pandemia que se apresente poderia ser ambas: altamente contagiosa e altamente letal. Então nos enfrentaremos a algo assim como a Peste Negra do século XIV. Podemos preveni-la, mas há que fazê-lo.

Por que temos uma pandemia hoje?

É uma pergunta importante ser feita. Tivemos a epidemia da Sars em 2003, um vírus muito similar.  Os cientistas advertiram que viriam outros, que devíamos nos preparar e sabíamos como fazê-lo: isolar os vírus, planejar como desenvolver uma vacina, fortalecer um sistema de prevenção de pandemias. Tudo está bastante claro. Mas não basta ter a informação. Alguém tem que fazê-lo. As grandes empresas farmacêuticas têm os recursos, os laboratórios, etc. No entanto, não o fazem, porque há algo que se chama Capitalismo. O capitalismo dita que há que tentar sempre aumentar os lucros. Não se gasta dinheiro em algo que poderia suceder dentro de dez anos e no que não se ganhará muito dinheiro, de qualquer modo. Quanto há vacina, todo mundo a usa, e isso é tudo. As companhias farmacêuticas investem em coisas que possam continuar vendendo amanhã. 

Talvez as crises estejam mostrando a necessidade de que o Estado retome seu protagonismo? 

O governo tem recursos inesgotáveis, laboratórios maravilhosos, mas não pode fazê-lo por algo chamado neoliberalismo. Como expressou Ronald Reagan em seu discurso inaugural “o governo é o problema, não a solução”. Isto significa que as decisões têm que passar das mãos do governo ao poder privado. A razão? Eles creem que o governo é uma instituição defeituosa porque responde à população, pelo menos em parte, e esse é um problema grave. Não podemos permiti-lo. Portanto, para eles é necessário trasladar as decisões a tiranias privadas que não prestam contas ao público em absoluto. Chama-se “liberdade” no discurso orwelliano contemporâneo. Voltando à pandemia, significa que o governo não pode intervir, porque nunca pensaram nas pessoas. Assim, não houve esforços para desenvolver a vacina e assim sucessivamente. Não obstante, houve alguns avanços. 

Está se referindo às política do presidente Obama e sua proposta de seguro médico? Quanto Trump devastou desse legado? 

A administração Obama pôs em funcionamento um plano de resposta ante uma pandemia que se esperava que explodisse. Houve pesquisas conjuntas entre cientistas estadunidenses e chineses para tratar de identificar coronavírus em covas na China e tentar sequenciar os genomas. Foram executados programas de demonstração para ver o que aconteceria se o vírus se propagasse. Todas estas iniciativas se sucederam até janeiro de 2017. Embora não fossem suficientes, pelo menos eram algo. 

Logo após assumir, Trump desmantelou estes projetos. Todos os anos tentou retirar os fundos. A última vez foi em fevereiro de 2020. Quando a pandemia se desata, o presidente recorta os gastos relacionados com a saúde pública, inclusive os do Centro para o Controle de Enfermidades. Como resultado, os Estados Unidos estavam singularmente mal preparados quando foi golpeado pela pandemia. Houve todo tipo de incompetência e malícia em relação ao seu manejo.

O que aparecem como sérios desatinos do presidente Trump contou, em realidade, com sólidos respaldos institucionais.

O Congresso Republicano tem aprovado centenas de esforços legislativos para acabar com a lei de atendimento acessível, a lei de Obama, e não deixar nada em seu lugar. A lei avançou algo. Não se aproxima do que têm outros países, mas pelo menos foi um avanço e querem matá-la, porque para eles não deveria existir nada fora do mercado. Se você pode sobreviver ou não é problema seu. Chama-se “Libertário” que é uma piada de mal gosto. É totalitário. O que estão dizendo é que se você é suficientemente rico para sobreviver, genial; se não, azar. Isso está se manifestando na crise da Covid-19. Há muita gente que se nega a fazer o teste porque é demasiado caro. Eu me refiro a que tecnicamente o governo paga, mas depois as pessoas recebem negativas e cobranças de sua companhia de seguros. Os cidadãos dos Estados Unidos são 4% da população mundial e 25% dos infectados. Não há melhoria. De fato, está piorando. Eu não saio de casa há quatro meses. 

Há um momento em que estas ideias tomaram maior força?

Dê uma olhada nos hospitais, especialmente desde Reagan. Os programas neoliberais de Reagan foram realmente duros com a população em geral. Os hospitais funcionam com um modelo comercial, devem ser eficientes, só têm os recursos para utilizar em uma situação normal. Se assemelham a uma linha de montagem na empresa Ford Motors. Com os recursos justos. Quando se apresenta qualquer situação excepcional o desastre é total. De fato, este modelo de negócio Reaganiano teve um efeito em todo o mundo. Essas são batalhas que se dão internamente nos Estados Unidos, mas a mesma coisa está acontecendo em toda parte. Os movimentos populares estão tratando de mover-se para uma sociedade viável e habitável. E a pergunta é: quem vai ganhar? 

Como reverter algumas dessas políticas diante de tantas urgências? 

É claro que é muito o que se pode fazer, mas há que superar barreiras sérias. Há que superar a lógica capitalista, há que superar a praga neoliberal e há que superar a liderança malévola: três barreiras principais. Não vai ser fácil, mas não é impossível. As outras crises: aquecimento global, guerra nuclear, deterioro da democracia, sabemos como enfrentá-las e é imprescindível fazê-lo. Não resta muito tempo.

Nesse contexto, o resultado eleitoral do próximos 3 de novembro pode ser a bisagra para superar ou agravar as diferentes crises que o senhor vem enumerando e descrevendo? 

Claro, as eleições de 2020 são provavelmente as mais importantes que aconteçam não só na história dos Estados Unidos, mas também na história da humanidade, por uma razão que não se discute e que é em si mesma assombrosa. É a pergunta mais importante que hoje enfrenta a humanidade e, se não for respondida logo, poderia significar o fim da vida humana organizada na Terra. Trata-se da catástrofe do meio ambiente que se avizinha. Não está longe, não se pode atrasar e devemos decidir se a vamos enfrentar. Este é o tema principal que está em jogo na eleição. O presidente Trump e o seu partido deixaram muito claro que querem acelerar a corrida para o desastre. Talvez seja um sinal de que a espécie humana é simplesmente inviável. Se não pode lidar com um problema como este. E não é o único. A segunda questão crucial que os seres humanos enfrentam – e que tampouco se menciona – é a crescente ameaça de guerra nuclear. É muito alta, maior que durante a Guerra Fria segundo os principais especialistas no tema, e continua crescendo consideravelmente. Temos que perguntar-nos em que tipo de sociedade vivemos. Que classe de espécie somos se não estamos dispostos a parar estes desastres. 

Qual é a razão para que estes temas tão vitais e urgentes não sejam a prioridade na agenda política estadunidense?

Estados Unidos é um país muito livre, mais que qualquer outro no mundo. Por outro lado, é a mais empresarial das democracias ocidentais. Os empresários estadunidenses têm uma elevada consciência de classe. São marxistas até a medula, em uma espécie de marxismo vulgar invertido. Travam conscientemente uma guerra de classes, sem descanso, sem retroceder, sem se deter nunca. E há resultados. 

As instituições financeiras são tão poderosas que não permitem resolver estes temas porque para eles não são um problema. A população quer, mas cada vez que se faz algo, as instituições financeiras o esmagam. Bem, por que deveriam existir? Por que deveríamos ter 40% dos ganhos nos Estados Unidos em mãos de instituições depredadoras, que não fazem nada pela economia e provavelmente a prejudicam? Por que deveríamos ter uma indústria de combustíveis fósseis, que cumpriu sua função nas primeiras etapas do desenvolvimento capitalista, mas agora é uma instituição que se dedica a matar pessoas e destruir a vida na Terra? Por que conservá-la? Por que não há um rechaço massivo? Nem sequer seria tão caro atualmente com o preço do petróleo em baixa. Por muito menos gasto do que se dedica a outras coisas, o governo poderia acabar com a indústria dos combustíveis fósseis. Por que não tapar os poços que têm fugas de metano ou avançar para uma energia sustentável? São tarefas factíveis, mas antes de mais nada devem elevar-se ao nível da consciência. 

Neste sentido, observa-se o surgimento de novos tipos de ativismo político somados aos protestos massivos, com uma intensa participação dos jovens, ou fenômenos como o movimento Black Lives Matter. O que significa o aparecimento destes novos fatores e atores na política estadunidense?

É muito significativo. Black Lives Matter depois do assassinato do George Floyd não se parece a nada na história dos Estados Unidos, literalmente. Nunca houve um movimento social que tenha se desenvolvido a tal escala com um enorme respaldo popular. Dois terços da população o apoiaram, isso é mais do que Martin Luther King conseguiu em pleno apogeu. É solidariedade entre negros e brancos, marchando de braços dados, buscando temas importantes para abordar; não só os ataques policiais contra os negros – que já é bastante escandaloso – mas também problemas muito mais profundos. Embora seja uma mudança notável na sociedade estadunidenses não é um fenômeno isolado. É um dos muitos sinais de uma consciência crescente sobre os problemas mais enraizados e complexos. Transcorreram 400 anos desde que trouxeram escravos aos Estados Unidos; 400 anos de contínua violência e opressão sem trégua até o presente, com um lúgubre legado. E finalmente está sendo considerado com bastante seriedade. Há um par de meses o New York Times publicou uma série muito significativa “1619” (data do começo do tráfico de escravos), na qual se expunha os crimes atrozes da escravidão e do pós escravidão até o presente. Há alguns anos isso houvesse sido inimaginável, nem sequer teria ocorrido a alguém fazê-la. 

Quanto influi o racismo e o antirracismo nas próximas eleições de 3 de novembro? 

Está tendo um efeito substancial. Para a administração Trump, para o Partido Republicano, é a peça absolutamente central de sua campanha. Insistem abertamente sobre a supremacia branca. O tema central é mostrar uma América cristã branca em perigo; enquanto diminui seu número e cresce sobre ela a ameaça de pessoas de cor, de minorias, de setores com ideias progressistas, há que preservar a América cristã supremacista, branca e racista. Esse é o tema aberto da campanha. Nunca existiu algo parecido. Eu vi correntes subterrâneas desse tipo ao longo da história dos Estados Unidos, mas nada tão abertamente racista. Não é só a campanha, são os tuítes, os comentários, cada declaração que Trump faz é uma incitação à supremacia branca, ao ódio branco. Sua base são agora os evangélicos, esses 25% da população que é republicana, rural, tradicional, conservadora, cristã branca. 

Hoje se reflete no clima social um nível de polarização que não se via há décadas. Uma parte importante está mobilizada com questionamentos profundos. Os protestos podem ser o motor da mudança?

Sim, é possível com um ativismo popular comprometido. É o tipo de coisas que estão sendo vistas nas ruas depois do assassinato de Floyd. Esse tipo de mobilização intergeracional e multiétnica pode gerar mudanças. De fato, tem levado a todas as mudanças positivas que têm tido lugar ao longo da história: abolição da escravatura, direitos da mulher, oposição à agressão, o que seja; sempre tem vindo do mesmo lugar e isso pode acontecer agora. Mas há que fazê-lo. Tudo o que mencionamos têm soluções que não são utópicas, estão ao alcance. É necessário que alguém pegue a bola corra com ela. Algumas das formas de fazer isso é manifestar-se nas ruas ou ocupando escritórios do Congresso como fez o grupo de jovens Sunrise Movement com o escritório da Nancy Pelosi. Bom, obtiveram apoio dos representantes jovens eleitos na onda de Sanders, especialmente Alexandria Ocasio-Cortez, e se conseguiu pôr um New Deal Verde na agenda legislativa pela primeira vez. Esse é um pré-requisito para a sobrevivência, a enorme oposição nos centros de poder, na indústria de combustíveis fósseis, nas indústrias financeiras, nos bancos, etc. É o tipo de coisas que oferecem esperança de uma sobrevivência e de uma vida digna. Pode-se fazer, mas não acontece por si só. 

Qual o papel do Partido Democrata neste novo cenário político e com um panorama eleitoral no, qual leva vantagem, mas pode ser imprevisível?

Os movimento populares são tremendamente significativos, também dentro do Partido Democrata. Qual vai se impor? O partido da base popular, que é uma espécie de social democrata, ou o dos clintonistas, orientado para os doadores, particularmente os mais ricos. A oposição democrata está dividida entre estas duas tendências e suas diferenças se plasmam em muitos temas importantes. Um por exemplo, a mudança climática. Joe Biden e Kamala Harris, os nominados à presidência e vice-presidência, pediam o fim dos subsídios para as empresas de combustíveis fósseis, demanda explicitada na plataforma eleitoral de 2016. A ideia de que o governo subsidie as empresas que se comprometem a destruir a vida na Terra está além das palavras. E não só nos Estados Unidos, sucede em todo o mundo. O partido Democrata, dirigido por burocratas seguidores de Clinton, a eliminou do programa, diante do risco de que estas empresas deixassem de contribuir para a campanha. 

Quão profundas são as diferenças entre a ala mais “progressista” e a “burocracia arrecadadora”, como o senhor chama os seguidores de Clinton?

Dê uma olhada na campanha de Sanders. As posições de Bernie são condenadas em um espectro amplo, inclusive por liberais que dizem: “são agradáveis, são boas, mas o país não está preparado para elas”. Repassemos o programa para o qual o país “não está preparado”. Sanders tem duas propostas principais: Uma é a atenção médica universal. Você conhece algum país que não tenha saúde universal? Não, existe em todas partes. Então, o que se afirma em todo o espectro midiático é que é demasiado radical dizer que os Estados Unidos poderiam chegar ao nível de qualquer outro país avançado, inclusive ao dos países pobres. “É impossível. Não podemos chegar tão alto”. 

O outro programa é a educação superior gratuita. Está em toda parte; nos países capitalistas mais avançados, aqueles com maiores recordes e conquistas: Alemanha, Finlândia, França, onde quer que você olhe há educação superior gratuita. Os países pobres também a têm. Mas soa como algo demasiado radical para os estadunidenses. Para os clintonistas – burocratas, conservadores, preocupados com os doadores ricos – estas propostas não podem ser permitidas; Para a base popular, são fundamentais; desejam elevar-se ao nível do resto do mundo. 

Quase havendo terminado seu primeiro mandato, o que o senhor crê que significou a presidência de Trump para a democracia estadunidense?

Você abre os jornais quase todos os dias, por exemplo, o New York Times, e vê uma manchete que diz: “Este é o fim da democracia estadunidense?”, “Esta é a última eleição estadunidense?” Não são teorias conspiratórias marginais. A sobrevivência da democracia está em jogo. A democracia não se baseia só em regras e leis. Baseia-se na boa fé e na confiança. A democracia moderna mais antiga, Grã Bretanha, tem 350 anos, sua constituição pode ser escrita em um pequeno cartão, é uma frase ou duas. E tem existido graças à boa fé e à confiança. Quando Boris Johnson prorrogou o Parlamento, para poder aprovar sua versão do Brexit, houve um grande alvoroço na Inglaterra e a Corte Suprema reagiu. Isso não sucederia nos Estados Unidos com a Corte que temos. O que Trump está fazendo é muito mais extremo. O Poder Executivo foi quase totalmente depurado de qualquer voz crítica ou inclusive independente. Aqueles que sobram são só aduladores, como Mike Pompeo ou Mike Pence. Constitucionalmente, as nomeações realizadas pelo presidente devem ser ratificadas pelo Congresso, pelo Senado. Não está acontecendo. Nem sequer as envia para confirmação. Simplesmente os nomeia em um posto temporário. Trump criou em Washington um pântano de corrupção. É como uma espécie de ditador de araque. 

Na era Trump não só se reduziram direitos, também se viu afetada a qualidade institucional de uma democracia que aparecia como “exemplar”?

O que sobra da democracia? Não muito. Há muito de que culpar os democratas. Muito. Mas o que está acontecendo no Partido Republicano nunca ocorreu na história da democracia parlamentar, sob a liderança de um ditador de araque. O senado em mãos de Mitch McConnell, cúmplice próximo do Presidente, simplesmente se nega a agir. Não faz nada mais que aprovar leis para enriquecer a porção do eleitorado super rico do Trump; recortes de impostos, isenções corporativas, etc. Também se dedica a ocupar totalmente o poder judiciário, com advogados jovens de ultradireita que permanecerão por mais de uma geração e poderão bloquear qualquer legislação que se afaste de suas posições extremamente reacionárias. Este é o Senado. O Poder Executivo acabou.

Como o senhor assinalou muito claramente, nos Estados Unidos convivem um governo que vai se deslocando cada vez mais para a extrema direita do espectro político, com enormes movimentos políticos de participação massiva em meio a esta profunda crise de saúde, que aguçou muitas das contradições subjacentes. Nesse contexto, como imagina o mundo pós Covid-19?

Aqueles que produziram a crise em que estamos agora (a pandemia, o aquecimento global – que é muito mais grave – a ameaça de uma guerra nuclear, a destruição dos processos democráticos, basicamente todo o programa neoliberal) estão lutando sem descanso para assegurar-se que o sistema que criaram, do qual se beneficiam, persista de uma forma ainda mais dura, com maior vigilância e controle. Uma tendência mundial que se exemplifica na política exterior de Trump. Não é fácil encontrar demasiada coerência no caos da administração atual, embora se destaquem alguns itens. Em assuntos internacionais a intenção descrita abertamente por Steve Bannon (um dos principais estrategistas de Trump nos primeiros anos) tem sido criar uma internacional reacionária; uma internacional dos Estados mais direitistas do mundo, dirigida pela Casa Branca. Esse significa no Oriente Médio estimular as ditaduras familiares do Golfo, MBS [Mohammad bin Salman, príncipe da Arábia Saudita] e o resto. Ou apoiar a pior ditadura na história do Egito (Trump a chama de sua ditadura favorita), ou que Israel tenha se movido muito à direita. No hemisfério ocidental, respaldar países como Brasil de Bolsonaro ou outras figuras de ultradireita. Movendo-nos mais para o leste temos a índia de Modi, que tenta desmantelar a democracia secular. O grupo governante radical hindu é seu candidato preferido. Na Europa, Victor Orban da Hungria, que atenta contra o sistema democrático, ademais de outros exemplos que abundam pelo mundo. Basicamente, uma iniciativa internacional reacionária da Casa Branca. 

Se trata de uma estratégia global que se combina no nível nacional com os programas neoliberais que prejudicaram gravemente a população e beneficiaram enormemente a uma minoria minúscula. Persistirão em uma forma ainda mais dura, essa é uma tendência internacional. 

Que alternativas há diante disto? Qual seria a resposta? 

Em todo o Planeta há forças populares que dizem: “esse não é o mundo que queremos”, “esse não é um mundo no qual as pessoas possam viver uma vida digna, em que a sociedade possa sobreviver, em que haverá políticas dirigidas às necessidades não lucrativas”. Estão se reunindo de fato. Em alguns dias será realizado o primeiro encontro da Internacional Progressista. Foi fundada pela gente de Bernie Sanders nos Estados Unidos, Young 25 na Europa, com a gente de Varoufakis (ex-ministro de economia da Grécia), um movimento europeu transnacional que está tratando de preservar o que é valioso na União Europeia e superar suas sérias falhas. Têm candidatos no Parlamento Europeu e trouxeram vozes do Sul Global. A primeira reunião terá lugar na Islândia, o Primeiro-ministro é membro da organização. Isso representa outra força em distintos lugares do mundo. Representa uma espécie de guerra de classes em escala internacional, enfrentando riscos que nunca existiram na história da humanidade. São colossais. Trata-se literalmente da sobrevivência da Humanidade. Essa é a situação que temos agora mesmo, não se pode fazer uma predição. 

O que sim sabemos muito bem é como agirão as forças reacionárias. Têm recursos econômicos, poder estatal, têm programas, estão comprometidas. A pergunta é como reagirá à população geral do mundo. Têm opções, têm possibilidade, têm números. A pergunta é se podem montar uma força contrária que de alguma maneira permita à humanidade escapar da atual confluência de crises que enfrentamos. 

Que tipo de lideranças políticas se requere nestas circunstâncias? Quais o senhor imagina emergindo desta pandemia? 

Agora mesmo é difícil ser particularmente otimista a respeito, mas sabemos que tipo de liderança gostaríamos que saísse. A questão é se podemos fazer com que assumam. Tomemos a Internacional progressista. Creio que gente como Bernie Sanders e Yanis Varoufakis e outros associados com seu movimento. AOC [Alexandria Ocasio-Cortez] nos Estados Unidos, e alguns outros com este perfil, seriam o tipo de líderes políticos que poderiam lidar com essas grandes crises. Não sozinhos, é claro. Os líderes políticos não podem fazer nada sozinhos. Primeiro necessitam um apoio popular massivo. E depois têm que romper o poder que possuem as instituições e que controlam a sociedade. Há que recordar que vivemos em mundos de Estado-Capitalismo e cada país tem uma forma ou outra de Estado-Capitalismo. Isso significa uma concentração extrema de poder em instituições privadas com grande influência em todo o que acontece. Isso tem que ser eliminado.

Dr. Chomsky, uma pergunta final. No que respeita à América Latina, na qual vemos esta batalha entre governos mais progressistas e governos de direita ou extrema direita como é o caso do Brasil de Bolsonaro, que mensagem gostaria de transmitir à Região agora? 

O Brasil envia mensagens muito claras. O Banco Mundial, que não é uma organização particularmente de esquerda, fez uma análise detalhada da economia em 2016, um par de anos depois que Lula deixara o cargo. Qualificaram os anos de Lula como uma década dourada na história do Brasil, com fortes reduções da pobreza, incorporação de grande parte das populações que haviam sido marginadas, inclusão, grande avanços no desenvolvimento social. Disseram que foi uma década dourada, nada comparável. Nesse momento o Brasil foi provavelmente o país mais admirado do mundo, estava em foros internacionais, era uma voz para o Sul Global, estava unindo a América do Sul. Lula era provavelmente a figura política mais respeitada do mundo. O que é agora? O Brasil é simplesmente objeto do desprezo e o ridículo do mundo, dirigido por um palhaço virulento, uma pessoa que apoia a ditadura militar, que busca destruir. A devastação da selva amazônica aumentou aproximadamente 30% só no último ano. Acabemos com tudo, enriqueçamos ainda mais os ricos, matemos a quem não gostamos, deixemos que a pandemia continue. É o governo talvez mais reacionário na história do Brasil. Um objeto de burla em todo o mundo. Bem, essas são as lições. Contamos com um prazo de dez anos. A lição é que você tem o futuro em suas mãos. Pode fazê-lo de uma maneira, pode fazê-lo de outra maneira. Não há forma de predizer. Isso é o Brasil, se poderia aplicar o mesmo aos demais. 

Dr. Chomsky, obrigada uma vez mais por tudo. 

Bernarda Llorente é Presidenta de Télam.

Tradução: Beatriz Cannabrava /Ana Corbusier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Bernarda Llorente

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