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Recrudecimento de conflitos étnicos ameaça a paz e unidade territorial do Sudão do Sul

Os recentes episódios de extrema violência em Jonglei, reacenderam o temor de que a violência inviabilize a consolidação da mais nova nação africana
Julio Morejón
Prensa Latina
Havana

Tradução:

 A cinco anos da guerra e dois do processo de paz, o Sudão do Sul enfrenta dificuldades socioeconômicas; uma das mais perigosas é o conflito entre comunidades, por suas vítimas e por destroçar o tecido nacional.

Os mais recentes episódios de violência entre esses grupos humanos no estado de Jonglei levam a temer uma escalada e evidenciam a deterioração da segurança, tanto pelas perdas imediatas como pelo aumento de deslocados que provocam.

Segundo grupos de auxílio humanitário, no incidente ocorrido em 16 de maio último, mais de 240 pessoas morreram e centenas ficaram feridas quando uma facção murle atacou a localidade de Pieri e outras áreas dominadas pelo grupo étnico Lou Nuer.

O ciclo de assédios que sacudiu – e ainda estremece – essa zona do Sudão do Sul rememora a recém concluída guerra entre duas alas do Movimento Popular de Libertação do Sudão, uma agora no governo encabeçado por Salva Kiir Mayardit e a outra pelo chefe rebelde e atual primeiro vice-presidente Riek Machar.

Embora aquela contenda tenha cessado em 2018 com a assinatura de um acordo de paz, ainda há cabos soltos que debilitam a consolidação total do projeto de distensão e torna difícil a imposição da autoridade, o que significa neste caso incapacidade para frear os choques interétnicos.

Algumas análises destacam que a demora na formação do novo exército nacional – que deve ser integrado pelos combatentes da guerra, segundo o que foi acordado – provoca um vazio de um dos pilares da autoridade do Estado, o do monopólio no uso da força, abrindo brechas na defesa da estabilidade necessária.

Sem dúvida, não é só a falta de pulso que possibilita os enfrentamentos entre comunidades mas também as disputas abertas ou veladas pela posse e utilização da terra, um tema que se repete com diversos protagonistas e matizes em outras partes do continente.

Os recentes episódios de extrema violência em Jonglei, reacenderam o temor de que a violência inviabilize a consolidação da mais nova nação africana

Agência de Notícias do Sudão do Sul / Charles Lomodong
Soldados do governo do Sudão do Sul

Enfrentamentos localizados em Jonglei

Jonglei é um dos 10 estados do Sudão do Sul; localiza-se na antiga região do Nilo Superior, em uma área de pouco mais de 122 mil quilômetros quadrados e sua população é inferior a um milhão e meio de habitantes, residentes em 13 condados, com capital estadual em Bor.

O território em geral é muito afetado por choques entre tribos, conforme caracterização da ONU.

A violência recente em Jonglei incluiu o saque de alimentos e o roubo de gado, o que criou incertezas quanto à temporada de semeadura e afetou a economia local, já considerada frágil. Tais agressões estão associadas também a uma reação à pobreza que consome essas populações.

Em apenas dois dias de ataques foram incendiadas 28 aldeias e, também, saqueadas pelos assaltantes, que obrigaram centenas de residentes a abandonar o lugar, o que acarretou outro problema não resolvido, o dos deslocados internos, indivíduos e famílias despojadas de seus bens quando fogem desses ataques.

Vingança e o ancestral “olho por olho”

“A incursão de Murle é vista como vingança a um ataque de Lou Nuer que deixou mais de 100 pessoas mortas em fevereiro. Estes assassinatos por vingança de olho por olho são assaltos em grande escala que podem envolver milhares de homens jovens bem armados”, afirmou o jornalista Okech Francis, em The New Humanitarian.

Na jurisdição de Jonglei destaca-se a presença de três comunidades com interesses de poder distintos: os Murle, os Dinka-Ngok e, os Lou Nuer, e embora a maioria das análises concorde que os conflitos sejam causados por disputas de terra, existem também problemas ancestrais, como os vinculados às migrações, às alianças e suas rupturas.

Possibilidade de um etnocídio

Existe um crescente temor de que no mais jovem Estado africano – nasceu em julho de 2011 – estoure um conflito étnico de graves consequências, sobrevenha um etnocídio, em um país que acaba de atravessar uma guerra com cerca de 400 mil mortos e uma cifra muito superior de deslocados.

Adama Dieng, conselheiro especial da ONU para a prevenção de genocídios, enfatizou em uma entrevista à jornalista Marie-Pierre Olphand, da Rádio França Internacional, que o histórico do Sudão do Sul registra, a partir de julho de 2011, ciclos intermitentes de violentos confrontos entre comunidades étnicas na região de Jonglei, opondo Murles, Dinkas e Nueres.

Esses enfrentamentos estenderam-se a outras regiões, sobretudo depois que em 2013 o então vice-presidente Riek Machar – um Nuer – foi afastado do governo, presidido pelo Dinka Salva Kiir. Esta luta pelo poder foi agravada pela disputa do controle da exploração do petróleo nacional.

Conflitos não poupam mulheres e crianças

O comissário do condado de Uror, John Dak Gatluak, assegurou à imprensa que os últimos ataques causaram quase mil mortos, entre eles 230 mulheres e crianças em seis povoados da zona, assim como 370 pessoas feridas, algumas criticamente.

No estado de Jonglei, organizações não governamentais denunciaram que o conflito étnico foi extremamente letal em poucos dias e provocou a emigração forçada de milhares de cidadãos, o que torna mais frágil e difícil retomar a paz no Sudão do Sul em geral e livrar-se do estigma de violência tribal temida em todo o continente africano.

Julio Morejón, Jornalista da Redação Internacional de Prensa Latina.

Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Ana Corbusier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Julio Morejón

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