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Repressão, mortes, tiro nos olhos: Piñera morre sem pagar por crimes contra povo chileno

Ex-presidente bilionário morreu nesta terça (6) após um acidente de helicóptero
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

O ex-presidente direitista, Sebastián Piñera Echeñique (74), o qual governou o Chile em dois períodos (2010-2014 e 2018-2022), morreu nesta terça-feira (6) em um acidente aéreo no sul do país, quando o helicóptero em que viajava caiu na água do Lago Ranco, instantes após decolar.

Segundo mensagens em redes sociais enviados por vizinhos próximos ao lugar do acidente, este ocorreu quando a aeronave, um Robinson 44, a cujos mandos estava o ex-presidente, alçou voo da casa particular de um amigo e sócio de negócios. 

“Crianças, lhes conto (que) morreu Piñera. Vinha de helicóptero, o dia estava horrível, estava chovendo, ele saiu da casa de José Cox, decolou e foi a pique no lago. Ele não pôde sair, mas saíram três pessoas”, disse uma mulher em uma mensagem do WhatsApp que foi divulgada massivamente.

Piñera obteve uma licença de piloto privado em novembro de 2004, a qual havia renovado em meados de janeiro passado com vigência por um ano, após fazer um treinamento após anos sem pilotar. 

A Direção-Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) entregou uma declaração sobre a fatalidade, dizendo que “aproximadamente às 15:30 horas o helicóptero de matrícula CC-PHP, nas imediações do setor Lihue, Lago Ranco, Região de Los Rios, após decolar e após poucos minutos de voo, capotou no lugar”. O órgão precisou que, além de Piñera, havia outras três pessoas a bordo, as quais conseguiram sobreviver.

Em 2011, em declarações à revista Qué Pasa, Alfonso Wesel, que fora seu instrutor de voo, disse que “ensiná-lo a voar não foi tarefa fácil. Aqueles que querem aprender a voar pelas nuvens, devem ser pessoas conservadoras, que arriscam pouco, que não vão contra a corrente, como sucede quando queres ganhar no mundo dos negócios. Justo o que Piñera não é, por isso teve que aprender e levou quase um ano para fazê-lo, bastante mais que seu companheiro de aula”. 


Trajetória

Piñera, um multimilionário cuja fortuna somou 2,7 bilhões de dólares, foi um personagem controverso em sua trajetória como investidor e especulador financeiro, da mesma forma que em sua incursão na política. Sempre misturou ambas as atividades. Em não poucas ocasiões, foi acusado de utilizar informação privilegiada a que tinha acesso para decidir a compra de ações que depois se valorizavam, ultrapassando a linha do conflito de interesse e sendo sancionado. Também se demonstrou que recorreu a paraísos fiscais para movimentar dinheiro para outros territórios.

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Ex-presidente bilionário morreu nesta terça (6) após um acidente de helicóptero

Repodução/Fotos TVN
Sebastián Piñera em 5 de dezembro de 2017

Mas o que o marcou definitivamente, foi sua reação ante a explosão social de outubro de 2019, durante sua segunda presidência, iniciada dez dias depois que declarou que o Chile era “um verdadeiro oásis” dentro da América Latina convulsionada.

Quando o protesto social começou com centenas de milhares de pessoas nas ruas e ocorreram atos de vandalismo com destruição de propriedades públicas e privadas e saques massivos, Piñera declarou que o país estava “em guerra contra um inimigo poderoso e implacável que não respeita nada nem ninguém”, atribuindo o levante até mesmo a uma conspiração estrangeira.

A revolta terminou com pelo menos 35 mortes em mãos do exército e da polícia, milhares de feridos, muitos dos quais com mutilações em seus rostos e perda de um ou dois olhos pelos disparos de espingarda, e com centenas de denúncias por abusos sexuais. 

No momento de sua morte, Piñera enfrentava uma investigação penal como réu por aqueles acontecimentos.

Anteriormente, em fevereiro de 2019, Piñera foi a Cúcuta, na Colômbia, até a fronteira com a Venezuela, a convite do governante colombiano Iván Duque, que o convidou, para promover um claro ato intervencionista, com Juan Guaidó, o autoproclamado presidente venezuelano, uma revolta contra Nicolás Maduro.


Três dias de luto

Após a confirmação da morte, o presidente Gabriel Boric decretou três dias de luto nacional e garantiu que “contribuiu a partir de sua visão para a construção de grandes acordos para o bem do país. Ele foi um democrata desde o primeiro momento e buscou genuinamente o que acreditava ser o melhor para o país.”

Acrescentou que expressou suas condolências à família e “a todos os chilenos que recebem esta notícia com pesar e dor”, acrescentando que instruiu que Piñera “seja demitido com honras fúnebres de Estado”.

De fato, ao assumir a presidência, Boric garantiu que as violações dos direitos humanos cometidas durante o surto não ficariam impunes e que Piñera seria levado a tribunais internacionais por isso.

Aldo Anfossi | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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