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Repressor fujimorista, Vladimiro Montesinos atuou da cadeia para subornar juízes e ajudar Keiko a assumir presidência

O ex-militar aparece em ligações orientando sobre como comprar votos dos membros da Justiça Eleitoral a favor da candidata Fujimori, de direita, que perdeu as eleições para Pedro Castillo por 50 mil votos
Victor Farinelli
Carta Maior
Santiago

Tradução:

Quem é da geração Z talvez nunca tenha ouvido falar de Vladimiro Montesinos, mas aqueles que lembram dos esquecíveis Anos 90 certamente lembrarão desse nome. No final daquela década, e também no início dos Anos 2000, os escândalos de corrupção de Alberto Fujimori derrubaram a última ditadura peruana e tiveram aquele ex-militar como figura central dos acontecimentos – apesar de que, além de ser o operador das propinas, Montesinos se destacou, talvez até mais, por ser uma espécie de chefe oculto do SIN, o Serviço Nacional de Inteligência, que era como o DOI-CODI fujimorista.

Esta sexta-feira (25/06) marcou o retorno de Montesinos ao noticiário político, e novamente por uma de suas especialidades: servir de operador político para a família Fujimori.

Meios de imprensa peruanos revelaram uma série de áudios onde se escuta a voz de Vladimiro Montesinos, em conversa nas quais ele orienta outro ex-militar ligado ao fujimorismo (mas que diferente dele, não está preso) sobre como subornar juízes do JNE (Júri Nacional Eleitoral do Peru), para que votem a favor de Keiko Fujimori na ação que a candidata de direita tenta declarar que houve fraude por parte de Pedro Castillo no segundo turno das eleições peruanas.

O ex-militar aparece em ligações orientando sobre como comprar votos dos membros da Justiça Eleitoral a favor da candidata Fujimori, de direita, que perdeu as eleições para Pedro Castillo por 50 mil votos

Montagem Diálogos do Sul
Vladimiro Montesinos foi assessor do Pai de Keiko Fujimori na década de 1990

O escândalo – batizado pela imprensa de “Vladigrampos”, em referência aos “Vladivídeos” dos Anos 90, que determinaram a condenação do mesmo personagem em 2001 – foi revelado por Fernando Olivera, ex-chanceler do governo de Alejandro Toledo (2001- 2006) e dirigente do partido de centro Frente Independiente Moralizador, que apresentou os grampos nos quais Montesinos explica quais representantes do JNE poderiam ser “comprados”, ou seja, que votariam a favor de Keiko Fujimori mediante pagamento de propina e a declarariam vencedora do o segundo turno das eleições presidenciais.

É preciso lembrar que a apuração no Peru registrou uma vitória do candidato progressista Pedro Castillo por pouco mais de 50 mil votos, mas a candidata da direita apresentou um pedido no JNE, principal órgão da Justiça Eleitoral peruana, para contestar o resultado de algumas urnas favoráveis ao seu adversário, e assim reverter esse resultado.

Rejas Tataje e Guillermo Sendón

A pessoa que aparece nos áudios falando com Montesinos teria sido identificada como coronel aposentado Pedro Rejas Tataje. Na conversa, Montesinos diz a ele que “você tem que colocar um pouco de gasolina, você me entende, não é?”, E então pede que o interlocutor organize um encontro com alguém chamado “Guillermo” – e que, segundo Olivera, seria seja o político Guillermo Sendón, de forte ligação com Fujimori.

“Ele (Guillermo) vai te falar: ‘tem tantos (votos no JNE) e vai custar tanto’. Você lida com essa questão diretamente com ele (…) ele pode ajudar muito e se isso for alcançado, a gente já ganhou”, explica Montesinos a Rejas Tataje, explicando que Sendón seria responsável por subornar os juízes do JNE.

Além dos áudios, há um vídeo em que Guillermo Sendón aparece em um encontro com Pedro Rejas Tataje, dizendo que conversou com Luis Carlos Arce Córdova, ex-membro do JNE. A curiosidade desse vídeo é que Arce Córdova renunciou ao seu cargo na corte eleitoral há poucos dias atrás, de forma inesperada, em um fato que gerou uma crise institucional no órgão em meio ao processo que vai definir o vencedor das recentes eleições presidenciais.

Nas imagens, Sendón é visto conversando com Rejas Tataje, e garantindo ao seu interlocutor que três dos quatro membros do JNE estariam dispostos a votar a favor de Keiko Fujimori em troca de um milhão de dólares para cada um. Além disso, ele esclarece que Luis Carlos Arce Córdova seria o operador dentro do órgão – ou seja, foi ele quem convenceu dois de seus colegas a decidirem a favor de Keiko em troca da propina.

O próprio Sendón gravou um vídeo, nesta mesma sexta-feira, pouco depois da revelação do escândalo, reconhecendo que é ele quem aparece na gravação e que realmente disse o que se escuta no vídeo. Contudo, segundo sua versão, ele estava mentindo para Rejas Tataje, porque queria “buscar evidências de que ele queria mesmo fazer uma fraude, para mostrar como o JNE não é um órgão confiável”. 

Embaixada dos Estados Unidos

Em outro momento das ligações de Montesinos, ele fez comentários sobre a campanha de Keiko Fujimori, alegando que “o trabalho planejado não foi feito” e que as pessoas do círculo mais próximo da candidata “são uns imbecis (…) vamos perder tudo por causa desses idiotas”.

Em seguida, Montesinos faz um apelo a Rejas Tataje, considerando que o JNE está demorando para se pronunciar a favor de Fujimori. Ele chega, inclusive, a mencionar a possibilidade de pedir ajuda à Embaixada dos Estados Unidos.

“Você ainda pode fazer aquela coisa da embaixada (dos Estados Unidos), como estou te explicando, mas você tem que falar com o pai (Alberto Fujimori) ou com a menina (Keiko), entendeu? Não sei bem qual dos dois você consegue falar, mas eu não quero me contaminar. Estamos tentando ajudar para chegar a um objetivo comum. O que eu ganho com isso? Nada. Não estou interessado e nunca vou pedir nada a eles, só tento ajudar porque se não fizerem, eles é que se ferram, e a menina (Keiko) vai acabar na cadeia (…) essa é a situação”, alerta Montesinos.

Vladivídeos

Como já foi dito em parágrafos anteriores, as “Vladigrampos” desta sexta-feira são uma nova versão dos “Vladivídeos” do final dos Anos 90, quando surgiram centenas de vídeos gravados por Vladimiro Montesinos revelando propinas a políticos e empresários peruanos bem conhecidos na época.

A estratégia do fujimorismo era gravar esses vídeos e depois usá-los para chantagear essas figuras e tê-los sempre ao seu lado nas disputas políticas.

Um dos responsáveis por revelar esse escândalo, em setembro de 2000, foi o mesmo Fernando Olivera que agora revela os “Vladigrampos”. Na época, o operador de Fujimori conseguiu fugir do país, mas acabou sendo preso em junho de 2001, em uma fazenda no interior da Venezuela.

Aliás, o então presidente venezuelano Hugo Chávez, anunciou a captura de Montesinos como uma das primeiras grandes façanhas como governante – havia assumido o poder em 1998. No entanto, alguns anos depois, o anti-chavismo tentou impor a narrativa de que o repressor estava na Venezuela devido a uma suposta ligação entre Chávez e Alberto Fujimori – tese que não faz muito sentido se considerarmos o histórico discurso de ódio à esquerda do fujimorismo, que aliás foi reforçado este ano, com Keiko Fujimori acusando seu adversário Pedro Castillo de querer instalar o “castrochavismo” no Peru.

Para completar o conjunto de anedotas do caso, é preciso lembrar que o apoio da família Vargas Llosa a Keiko Fujimori no segundo turno eleitoral foi selado quando a candidata prometeu que se fosse eleita presidenta não daria um indulto a Vladimiro Montesinos.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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