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Revolta popular não partiu dos trabalhadores peruanos, mas dos jovens que se fizeram ouvir

A presença multitudinária de pessoas nas ruas demonstra que a cidadania vai aprendendo que ela é a titular do poder de mandar
Jorge Rendón Vásquez
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Na segunda-feira, 16 de novembro à tarde, a onda juvenil que havia tirado da presidência da República um espúrio político, imposto pela sua ambição e os votos de seus colegas parlamentares, não muito diferentes dele, se acalmou finalmente. 

Após conchavos inúteis, muitos dos parlamentares que haviam despertado a indignação da maior parte da cidadania por tirar o presidente da República, tiveram que votar por um presidente e uma vice-presidente do Congresso que se opuseram à vacância, elegendo-os por 95 votos contra 24 recalcitrantes. E assim a crise política terminou, posto que o presidente do Congresso eleito, um homem relativamente novo na política e sem as máculas da corrupção, se converteria no dia seguinte em um novo presidente da República. 

Por que esses congressistas tiveram que admitir tal solução? 

Porque eles e seus partidos haviam se queimado, por sua soberba e estultícia, e queriam salvar qualquer coisa que fosse diante das eleições de abril. É claro que não perderam as faculdades que a Constituição lhes confere como congressistas e poderiam voltar às andadas e tirar o novo presidente, já que legalmente têm os votos para fazê-lo. Ou seja, têm o poder político, mas com uma característica: é um poder vazio, como um tambor que pode fazer muito ruído. Acima deles está o poder real da cidadania e de seu palco de ação: as ruas, e proximamente seus votos nas eleições de abril. Alguma vez esses congressistas se darão conta de que seu trânsito pelo congresso da República não pode convertê-los em cidadãos especialistas em direito e, menos ainda, em ética? Na Constituição atual se declara: “A população civil tem o direito de insurgência em defesa da ordem constitucional” (art. 46º). A ação nas ruas é a antessala deste passo, caso a arbitrariedade insista em se aproveitar. 

A presença multitudinária de pessoas nas ruas demonstra que a cidadania vai aprendendo que ela é a titular do poder de mandar

La República
"Merino não é meu presidente", afirmaram manifestantes nas ruas de Lima.

O processo vivido por nosso país nas duas últimas semanas nos deixa as seguintes constatações e lições:

1.– Os jovens, em sua maior parte de vinte a trinta anos, estudantes e trabalhadores, conseguiram se impor como força social e política e obrigaram o Congresso a optar por um presidente da República não contaminado pelos partidos tradicionais e de aventureiros. Foi a mesma linha de conduta e protesto inaugurada pelos jovens contra a Lei Pulpín, que o ministro de Economia de Ollanta Humala, Alonso Segura, quis meter-lhes no final de 2014 e pela qual intercedeu o advogado Pedro Cateriano. Ambos foram vistos perambulando perto do Palácio de governo, tentando talvez ficar com alguma sobra. 

2.– Foi uma ação totalmente civil, de cidadãos indignados pela arbitrária vacância do presidente Martín Vizcarra, que apresentava mais de 70% da opinião a seu favor nas pesquisas.  Foi estimulada por alguns partidos e grupos que tinham se oposto à vacância, e despertou a condenação aos velhos partidos tradicionais que estiveram de acordo com ela, inclusive os da chamada esquerda, com a exceção de alguns de seus dirigentes e parlamentares que se opuseram a ela. Para esses partido, sua adesão à vacância e sua participação no efêmero gabinete de Merino foi outro passo em sua marcha inevitável para sua extinção histórica. 

3.– A presença multitudinária de pessoas nas ruas demonstra que a cidadania vai aprendendo que ela é a titular do poder de mandar. É o resultado da confluência da difusão da noção de democracia a partir de certas cátedras universitárias e por alguns ideólogos que comunicam suas lições e propostas utilizando as redes informáticas, e da reação contra as arbitrariedades, rompantes, despropósitos e atentados contra a vida das pessoas. Por mais simples e elementar que seja a teoria, é muito difícil que chegue a muitos cidadãos com a mente alienada por uma deficiente educação e pelos meios. Filtra-se de todas as maneiras, no entanto, pouco a pouco e, em particular, nas mentes jovens, ávidas de ensinamentos e experiências, convencidas de que a razão está do seu lado e predispostas à audácia. Um só fato arbitrário pode suscitar esta união da teoria e da prática e incendiar o prado, como um raio caído na obscuridade sobre um terreno não cultivado. Os dois jovens assassinados pelas balas da polícia repressora, Inti Sotelo e Bryan Pintado, intuíam possivelmente os riscos de sua luta contra a arbitrariedade, e caíram heroicamente. E, embora talvez não o soubessem, se converteram em exemplos de dignidade e resistência popular que nos honram a todos. 

4.– A reprovação popular à vacância não teve como palco a estrutura econômica. Não foi um episódio da luta de classes. Os trabalhadores não estiveram presentes nas ruas como tais, mas sim como cidadãos e jovens. Pelo contrário, é verossímil que os empresários não foram alheios à manipulação dos votos no Congresso e conseguiram colocar na presidência da República um homem do partido Ação Popular e, em seguida, conformar um gabinete adicto. A presidência do Conselho de Ministro foi entregue a um político disposto a fazer o que lhe dissessem e a quem, nas ruas, começaram a chamar de anterosáurio”. Não faltou nesse gabinete um delegado do partido Aprista, especialista nos meandros da corrupção. Mas quando as ondas de manifestantes nas ruas recusaram esse Poder Executivo, o poder empresarial teve que recuar para uma posição de expectativa.

É evidente que a descomunal corrupção, promovida pelo poder empresarial e executada pelos políticos tradicionais e aventureiros ao seu serviço, suscitou a condenação crescente dos cidadãos até se converter na indignação que começou a chiar como uma caldeira sobrecarregada de vapor. 

A pergunta seguinte é: o que sucederá depois? A resposta virá da ideologia e dos projetos de mudança econômica, social e política que ela inspire para que a compreensão que os cidadãos adquiriram não fique como um episódio do passado, como pretendem o poder empresarial, seus políticos de aluguel e seus meios. 

*Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru.

** Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jorge Rendón Vásquez Doutor em Direito pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos e Docteur en Droit pela Université de Paris I (Sorbonne). É conhecido como autor de livros sobre Direito do Trabalho e Previdência Social. Desde 2003, retomou a antiga vocação literária, tendo publicado os livros “La calle nueva” (2004, 2007), “El cuello de la serpiente y otros relatos” (2005) e “La celebración y otros relatos” (2006).

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