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Rússia julga Alexei Navalny, acusado de apologia ao nazismo e ligação com terrorismo

Crimes poderiam resultar em 30 anos de privação de liberdade se somadas as penas por cada uma das acusações
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

O opositor Alexei Navalny, que cumpre condenação de 9 anos de reclusão em um centro penitenciário da região de Vladimir, na Rússia, por “estafa” e “falta de respeito a um juiz”, recebeu nesta quarta-feira (26) dez dias de prazo para conhecer os 196 tomos preparados pela acusação no novo julgamento contra ele que logo começará na corte do distrito Basmanny desta capital.

Direto da prisão, o fundador do proscrito Fundo de Luta contra a Corrupção participou por vídeo conferência da sessão em que foi informado que a promotoria lhe imputa agora três delitos tipificados no Código Penal: exortar a cometer atentados terroristas e extremistas”, “financiamento do extremismo” e “reabilitação do nazismo”, que poderiam resultar em 30 anos de privação de liberdade se somadas as penas por cada uma das acusações.

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Antes de ser ordenado à imprensa e ao público abandonar a sala para continuar a sessão a portas fechadas, Navalny disse: “A acusação é absurda. Além disso, o promotor (Román) Vidiukov me comunicou ontem que foi tomada a decisão de separar o componente ‘terrorismo’ do ‘extremismo’, como se eu, a partir da prisão, pudesse cometer atentados terroristas. E haverá outro julgamento, desta vez em uma corte militar. Neste julgamento, eu enfrento 30 anos de prisão e, no segundo, tudo indica que será prisão perpétua”. 

Já em outubro anterior, quando se abriu o caso penal contra um “grupo criminoso” formado por ele e dois colaboradores, Leonid Volkov e Iván Zhdanov, ambos agora no exílio, o próprio Navalny declarou: “Segundo entendi da argumentação por escrito da promotoria, minha culpa na ‘reabilitação do nazismo’ consiste em que Volkov, no canal de notícias Política Popular na Internet, disse um dia que “foi bom que o coronel (Claus von) Stauffenberg tenha atentado contra Hitler, tinha que (tentar) matá-lo. E o resto pelo estilo. Todos os programas, segundo a promotoria, são ‘terrorismo’ e ‘extremismo’ sob minha direção”. 

Iván Zhdanov, perguntado pela BBC de Londres, crê que o novo caso de terrorismo guarda relação com o assassinato do blogueiro Vladlen Tatarsky em São Petersburgo, já que o FSB (Serviço Federal de Segurança) assevera que Daria Trepova, a principal acusada, “aceitou participar no crime depois de escutar os insistentes apelos dos diretores do Fundo criado por Navalny para cometer atos subversivos na Rússia”.

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Segundo Zhdanov, nada detém a promotoria: o canal Política Popular foi criado em 2022, depois que Navalny fora encarcerado em 2021. 

Nesta quarta-feira, também começou o julgamento contra outra figura da oposição, Yevgeni Roizman, ex-prefeito da cidade de Ekaterimburgo, a quem se acusa de “desacreditar o exército pela segunda vez” por fazer declarações não permitidas pela censura militar que podem ser castigadas com multa de 100 mil rublos ou até três anos de prisão.

E na capital de Bashkiria, Ufa, a promotoria solicitou 12 anos de prisão contra Lilia Chanisheva, que encabeçou de 2017 a 2021 o escritório de Navalny nessa cidade. Detida em novembro de 2021, é acusada de “fazer apelos de corte extremista” e de “criar uma organização que viola os direitos dos cidadãos”.


Grupos paramilitares russos atuam na guerra

O controvertido magnata Yevgueni Prigozhin, dono da companhia militar privada (CMP) Wagner, através da rede de meios de comunicação que pertencem a ele, queixou-se de que, neste momento na Ucrânia, “há cada vez mais CMPs (eufemismo para grupos de mercenários, proibidos pela Constituição da Rússia) e a situação na frente de combate não melhora”. 

Para Prigozhin “(…) Decidiram que criando uma infinidade da CMPs como Wagner vão salvar a pátria e por isso, no lugar de nos permitir recrutar mais gente, criam todo tipo de estranhos grupos paramilitares que em nada contribuem”, afirmou em um vídeo postado na internet pelo repórter Aleksandr Simonov, da Agência Federal de Notícias (FAN, na sigla em russo). 

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A entrevista é parte de uma reportagem em que o proprietário do grupo Wagner visita uma companhia militar privada – os blogueiros militares que acompanham Prigozhin asseguram que se trata de Potok (Fluxo) uma das três que foram criadas com dinheiro do consórcio público Gazprom – para reclamar aos mercenários competidores por que abandonaram suas posições e não apoiaram os combatentes do grupo Wagner que queriam se consolidar nesse lugar e finalmente tiveram que deixá-lo ao exército ucraniano. E se perguntou? “Como poderiam combater se carecem do mais elementar: logística, armamento, respaldo de artilharia?”

Prigozhin lamentou que as autoridades queiram restar força ao grupo Wagner, em sua opinião, diante do temor de que pudesse desempenhar um papel importante na luta pelo poder dentro da Rússia, estimulando a Gazprom a fundir três companhias militares privadas – os batalhões Potok (Fluxo), Fakel (Tocha) e Plamia (Chama) – e outros magnatas façam o mesmo com os grupos de mercenários Bokariova (financiado pelo empresário Andrei Bokariov) e Redut (Reduto, dependente agora da inteligência militar russa).

De acordo com os repórteres que publicam no setor russo das redes sociais, há outros grupos ou batalhões sem que se saiba de fato se obedecem diretamente ao exército russo ou atuam por conta própria, assim como tampouco não é possível assegurar se seus combatentes viajaram à Ucrânia como voluntários ou por dinheiro. Entre esses grupos, cabe mencionar o BARS (sigla em russo das reservas combativas do exército do país), o batalhão de Alejandro Nevsky (príncipe e santo da Igreja Ortodoxa Russa) ou os destacamentos de dois grupos ultranacionalistas como a Legião Imperial e o grupo de inteligência e assalto Rusich, que se identificam com um discurso de corte neonazista, mas contra a Ucrânia.

Crimes poderiam resultar em 30 anos de privação de liberdade se somadas as penas por cada uma das acusações

Foto: Prachatai
Alexei Navalny

Clube de Patriotas Indignados

Igor Guirkin, conhecido por seu pseudônimo Strelkov, ex-oficial do GRU (Inteligência Militar Russa) e ex-chefe de segurança do magnata Konstantin Malofeyev, com fortes interesses econômicos na Ucrânia, onde em 2014 ingressou a partir da Rússia para iniciar com seu destacamento armado a “revolta” da população no Donbass e depois atuou como “ministro de Defesa da República Popular de Donetsk”, fez no domingo (23) um anúncio surpreendente. 

Antecipou que brevemente o Clube de Patriotas Indignados, criado por ele, se converterá em “movimento político” que “as autoridades terão que escutar, incluído o chefe do executivo (o presidente Vladimir Putin)”, e que “o labor informativo” que levam a cabo seus membros (a maioria são militares) “é insuficiente para evitar a derrota da Rússia na Ucrânia”.

Os segredos sobre a Guerra na Ucrânia que os EUA não queriam que o mundo soubesse

Strelkov sustenta que “só pretende estimular as autoridades para que se ponham em marcha processos que podem salvar nosso Estado em caso de uma derrota na guerra”.

A modo de declaração programática para atrair seguidores ao seu Clube de Patriotas Indignados, sem temer represálias para saltar-se à censura, Strelkov publicou na internet 29 aspectos sobre o conflito na Ucrânia com perguntas demolidoras para o Kremlin. Estas são algumas: 

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“Quem é o responsável pelas decisões estratégicas falidas pelas quais agora a Rússia paga com milhares de mortes e dezenas de milhares de inválidos? Por que à frente das repúblicas populares do Donbass puseram (e continuam ali) abertos ladrões e medíocres, que com sua presença só desacreditam a ideia da Primavera Russa? Como é possível que a Operação Militar Especial (OME) tenha sido elaborada com base em dados totalmente divorciados da realidade? 

“A quem ocorreu que, em caso de resultar exitosa a OME, deveriam governar a Ucrânia ladrões e estafadores como o miserável (Viktor) Medvedchuk (compadre do presidente Putin), completamente impopular neste país? Como explicar a monstruosa contradição de que milhares de militares com ampla experiência preferem ‘trabalhar’ em companhias militares privadas na Síria, na República Centro-africana, Mali, Burkina Faso, etc., enquanto civis de recente recrutamento e escassa preparação chegam à frente e participam em duros combates? 

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“A que se deve a ‘estratégia’ de atacar durante meses as posições mais fortificadas do inimigo em Donbass, sabendo que ainda tomando-as não se causará com isso um dano irreparável ao exército ucraniano nem capitulará seu regime? Onde estão as inovadoras armas que tanto presumíamos antes da guerra? Porque estão chegando à frente tanques e canhões da época de Stalin? Quem tomou a decisão de desperdiçar o ‘desnecessário’ armamento soviético mais moderno e projéteis na Síria, Líbia, Sudão e outros países? Onde estão as dezenas de milhares de voluntários árabes que o ministro da Defesa (Serguei Shoigu) prometeu ao presidente? Como é possível que os familiares de altos funcionários e membros da cúpula militar passem suas férias e gastem seu dinheiro em países que são hostis à Federação Russa, aplicam sanções contra nós e fornecem armas modernas à Ucrânia? Chegará o dia que o presidente tome medidas contra esses funcionários?”.

Até o momento não se conhece nenhuma reação pública do Kremlin para o desafio de Strelkov, o qual de alguma maneira atua como porta-voz oficioso do setor duro das forças armadas e está descontente com o plano maior castrense.

Juan Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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