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Sanções anti-russas afastam possibilidade de acordo de paz entre Tóquio e Moscou

Medidas "vão contra o espírito e a letra do acordo de 1998 sobre o fortalecimento e desenvolvimento da boa vizinhança", afirma o Kremlin
Germán Ferrás Álvarez
Prensa Latina
Moscou

Tradução:

A questão de discutir um tratado de paz com o Japão está encerrada, assegurou a porta-voz oficial do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, depois da decisão de Tóquio de aderir às sanções contra Moscou.

A razão para isso são os passos do governo de Fumio Kishida para impor condenações contra interesses russos e não um só pacote, mas 15, afirmou a diplomata.

Segundo a Chancelaria, desta maneira o Japão “põe a locomotiva adiante dos bois”, inclusive das iniciativas de sanções de seus aliados. Tais ações criam riscos para a Rússia e a distanciam da volta à mesa de negociações, afirmou.

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Entre outras coisas, Tóquio cancelou o regime de nação favorecida da Federação Russa, expulsou um grupo de diplomatas, impôs restrições ao comércio bilateral, ao Banco Central e a funcionários de alto nível.

A resposta de Moscou foi imediata; em março do ano passado, abandonou as negociações sobre um tratado de paz e o status das Kurilas do Sul.

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Os japoneses também perderam a possibilidade de viajar para estas ilhas, depois que a Rússia se retirou do diálogo sobre atividades econômicas conjuntas.

E, ainda, cessaram as consultas sobre a pesca para os japoneses na zona econômica russa.

O Ministério de Relações Exteriores da Rússia justificou isto pelas “medidas antirrussas de Tóquio que vão contra o espírito e a letra do acordo de 1998 sobre o fortalecimento e desenvolvimento da boa vizinhança”.

Medidas "vão contra o espírito e a letra do acordo de 1998 sobre o fortalecimento e desenvolvimento da boa vizinhança", afirma o Kremlin

Prensa Latina
A porta-voz oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova

Obstinação nipônica com as Kurilas do Sul?

Os líderes japoneses não abandonarão sua posição sobre questões territoriais das Kurilas, inclusive depois das declarações da porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, opinou o ex-embaixador russo em Tóquio e especialista em temas asiáticos, Aleksander Panov.

As autoridades do arquipélago japonês têm uma posição clara, expressa pelo primeiro-ministro Fumio Kishida: Tóquio ainda tem a intenção de buscar o retorno de Moscou para analisar a situação das quatro ilhas que reclama.

A posição da Rússia sobre a conclusão de um tratado de paz “no futuro próximo” não vai mudar. No entanto, na época soviética Moscou também negou a necessidade de assinar um tratado de paz com o Japão, mas ao longo do tempo, a atitude em relação a este tema mudou, lembrou Panov.

Talvez Tóquio apele à tradicional paciência asiática para ver materializado um diálogo durante o qual possa expor seus argumentos e reclamar como parte de um acordo o retorno dos chamados territórios do norte.

O Japão não renunciará a sua demanda. Assim que surgir a oportunidade de declará-lo novamente, os governos japoneses voltarão a manifestar o mesmo.

Enfrentamentos militares

Esse empenho levou a enfrentamentos militares e graças a sua vitória na guerra Russo-Japonesa de 1904-1905 e ao Tratado de Portsmouth, Tóquio conseguiu o reconhecimento russo quanto aos interesses nipônicos na Coreia.

Neste acordo ficou estabelecido que o vencedor poderia arrendar a península chinesa de Liaodong e sua importante base de Port Arthur, assim como a estrada de ferro meridional da Manchúria, as ilhas Kurilas em sua totalidade e a parte sul da ilha de Sajalin.

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Anos depois, no fim da Segunda Guerra Mundial, e tendo sido derrotado o militarismo japonês, a União Soviética recuperou o sul de Sajalin e todas as Ilhas Kurilas, inclusive as quatro que Tóquio reclama agora.

Na lógica atual de governo japonês, as partes sempre podem voltar à discussão de um tratado de paz sob certas condições. “Se hoje a discussão do tratado se encerra novamente, no futuro voltará à agenda”. Por isso é fundamental manter viva a polêmica, sentenciou Panov.

Um acordo quase obtido

O primeiro ministro japonês, Fumio Kishida, qualificou de lamentável a ausência de um tratado de paz com a Rússia.

Aliás, o governo japonês retomou o conceito de “ocupação ilegal” em relação à parte sul das ilhas Kurilas russas. Esta redação apareceu no comunicado final dos participantes do Rally Nacional pelo Retorno dos Territórios do Norte.

Terceira Guerra Mundial: se houver, certamente será a última

A manifestação em si ocorreu em 7 de fevereiro, quando Kishida declarou o seguinte: “É extremamente lamentável que 77 anos depois do final da guerra, a questão dos territórios do norte continue sem solução”.

No entanto, Tóquio está decidido a resolver o problema territorial e concluir um tratado de paz. Recordemos que o Japão reclama quatro ilhas da cadeia das Kurilas que, depois dos resultados da Segunda Guerra Mundial tornaram-se território da URSS.

A posição de Moscou é extremamente simples: sua soberania sobre as ilhas está fora de qualquer dúvida, ainda que no mandato de Shinzo Abe, ambas as partes tenham mantido um diálogo durante vários anos sobre uma solução pacífica para a disputa.

Em novembro de 2018 houve uma reunião histórica entre os líderes da Rússia e do Japão, Vladimir Putin e Shinzo Abe. Como resultado, Abe anunciou um acordo mútuo para acelerar o processo de negociação de um tratado de paz baseado na Declaração Conjunta de 1956.

Segundo o documento, a URSS concordou em considerar a possibilidade de transferir para Tóquio as ilhas de Habomai e Shikotan depois da conclusão de um tratado de paz; o destino de Kunashir e Iturup não foi afetado. Mas os Estados Unidos impediram o acordo.

O perigo da opção militar

Há cada vez mais informes de que o Japão aumenta seu potencial de mísseis com o apoio de Washington, para criar assim mais ameaças contra a Rússia.

Por sua vez, Oleg Kazakov, especialista do Centro de Estudos do Japão do Instituto da China e Ásia Moderna da Academia Russa de Ciências, opina que a tendência de fortalecer as forças armadas do Japão é óbvia e depois de algum tempo dará seus frutos.

Em 10 de fevereiro último, soube-se dos planos estadunidenses de deslocar mísseis hipersônicos de longo alcance LRHW e mísseis de cruzeiro terrestres Tomahawk (2,7 mil km e 1,6 mil km, respectivamente) para o Japão.

Em resposta, a Chancelaria russa advertiu que ações deste tipo pelos Estados Unidos e Japão significariam para Moscou “uma mudança qualitativa na situação de segurança regional, projetando-se também sobre a estabilidade estratégica global”.

Se teoricamente, a frota japonesa bloquear o estreito das Kurilas, significará uma declaração de guerra. Tóquio tem preocupações de política exterior mais urgentes, como são suas interações com China e Coreia, com as quais também tem problemas territoriais.

Os analistas mais otimistas consideram que a restauração do diálogo é possível dentro de cinco a 10 anos, ainda que as negociações sobre um tratado de paz estejam “geralmente além  dos limites do possível”, segundo Kazakov.

Germán Ferrás Álvarez | Correspondente-chefe da Prensa Latina na Rússia.
Tradução: Ana Corbisier.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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