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Saudade da monarquia? Peruanos se unem ao VOX no anseio de retroceder na história

“Hispanistas” de novo cunho não só desejam ser Ibéricos. Também conspiram para ver se conseguem derrubar do poder “estes índios” que chegaram ao governo no Peru
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

Na edição de Peru 21 da segunda-feira passada, o colunista Aldo Mariátegui mostra ter saudade do domínio do vice-reinado que concluiu formalmente após a batalha de Ayacucho em 1824.

Como não é poeta, nem letrado, seu texto pouco qualificado e melancólico e choroso, termina com uma frase que o retrata de corpo inteiro: “Seria melhor que tivesse ficado Lacerna!”

Sente saudades assim, com profunda tristeza, o fim do domínio da monarquia ibérica. Em sua opinião, ela não deveria ter acabado nunca. Ou, em todo caso, deve voltar agora.

À sua maneira o disse naqueles anos, e com maior expressividade literária, o clérigo e poeta conservador José Joaquín Larriva com sua já célebre estrofe: 

“Quando de Espanha as travas
em Ayacucho rompemos
outra cosa mais não fizemos
que trocar mocos por babas
Nossas províncias escravas
ficaram de outra nação
mudamos de condição
porém só foi passando
do Poder de dom Fernando
ao Poder de dom Simão
”.

Ainda que com suas diferenças, esses escritos refletem uma mesma vontade: a de aferrar-se a uma etapa da história na qual o Peru era um país vassalo. E é que foi, efetivamente, o aferro ao passado, o que fez que a alguns habitantes deste país, amamentados pelo úbere colonial, como Riva Agüero ou Torre Tagle, lhes tivesse sido duro aceitar a realidade. 

Não obstante, o fizeram; deitaram monárquicos e amanheceram republicanos. Foi esse seu modo de acomodar-se aos tempos. 

“Hispanistas” de novo cunho não só desejam ser Ibéricos. Também conspiram para ver se conseguem derrubar do poder “estes índios” que chegaram ao governo no Peru

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O colunista Aldo Mariátegui

VOX quer restaurar a Iberosfera

À distância, no entanto, alguns dos que pensam assim, não buscam “acomodar-se”. Sentem-se netos de conquistadores e filhos de vice-reis, e anseiam retroceder na história com a bucólica ideia de atrelar outra vez o Peru ao carro da dominação colonial. Sonham em andar com capa em busca de uma tapada e passear com ela à luz dos lampiões. 

Por isso se somam entusiasmado ao chamado de “VOX”, esse conglomerado neofranquista que busca restaurar a “Iberosfera” recrutando nostálgicos da colônia em diversos países. Defendem sua ideia cada vez que podem, justificam suas ações e proclamam sua alegria por juntar-se, embora à distância, à sombra dos Reis.  

Partido espanhol VOX é racista, xenófobo e negacionista

Em todas as partes – dizem – se “sente” a presença da “Mãe Pátria” – Inquisição incluída – como a luz que lhes iluminou o caminho; esse que estimulou os espanhóis de antanho a matar milhões de homens e mulheres das localidades incaicas, saquear as aldeias, roubar ostentosamente o ouro e a prata e consumar todo tipo de atropelos contra as populações originárias. 

Hoje queriam o mesmo: o retorno a essas épocas, nas quais exterminar índios era quase um passatempo favorito para os conquistadores e seus descendentes. 

Não é previsível que os espanhóis de agora sintam o mesmo por aqueles que os conquistaram: os mouros, que os escravizaram antanho. Os muçulmanos permaneceram na Espanha durante quase 8 séculos e executaram obras culturais caracterizadas por sua ornamentação e beleza; mas não há nas cidades ibéricas monumentos em homenagem à sua presença, ou às suas conquistas.

Os peninsulares preferem jogá-los na canasta da história porque não os consideram dignos de sua altura. Mas os vassalos daqui recordam aqueles que chegaram a estas terras em 1492 para “fazer sua América”, e a dos seus descendentes, claro. Pensam que são eles.

“Crioulos” adictos ao Império de Carlos V 

Aldo M. forma parte dessa trupe de “crioulos” adictos ao Império de Carlos V.  Fazendo honra a Willax TV, que o acolhe com presteza, chega cada noite como um paraquedista, para transmitir-nos suas “reflexões” mais hepáticas. E claro, se burla do Peru e dos peruanos. E nos diz a todos que não há nada melhor que a Espanha, onde transcorrem seus tranquilos dias. 

Para falar – talvez para dar-se autoridade e dignidade – coloca um retrato de Lenin atrás dele. E se protege com a foice e o martelo porque sabe que são instrumentos de paz. Mas igualmente, destrata a todos. E até dos símbolos que usa para dar-se alento. 

Assista na Tv Diálogos do Sul

Que compartilhe com Beto Ortiz, Milagros Leiva e Philippe Butter é compreensível. Desejam o mesmo. Sonham ser súditos de uma Coroa em decadência. E fazem “vibrações” para ver se conseguem recuperar algo, embora para isso tenham que fazer retroceder a história. 

No Peru, as coisas nunca estiveram bem, o que se traduz no racismo, informalidade, corrupção e desigualdade

Acontece, no entanto, que estes “hispanistas” de novo cunho não só desejam ser Ibéricos. Também conspiram para ver se conseguem derrubar do poder “estes índios” que chegaram ao governo no Peru só porque eles quase ficaram adormecidos. Por isso clamam por um Franco redivivo que lhes tire as castanhas do fogo. 

Enquanto se divertem e descansam nos café da Gran Vía, fazem planos pensando no que poderia ser seu “retorno”. Mas é pouco provável que se atrevam a voltar, mesmo que os seus recuperarem seu status. 

Já estão ambientados em Madri e se sentem ditoso de visitar as imediações do Palácio Real, ou olhar de longe o Salão do Trono, a Real Armaria, a Sala das Colunas, os Jardins do Campo del Moro ou, em última instância, pelo menos a Cozinha Real. 

Desprezam os peruanos, e especialmente os andinos. E se sentem depositários do legado da Coroa. Aldo M. não percebe, no entanto, que para os hispanos de hoje, e apesar de seus anseios, ele não será, definitivamente, mais que um “Monarquista” com sorte.

Gustavo Espinoza M., Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru. 

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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