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"Se eu não gritar fica difícil": Uma vida no Rio de Janeiro vale menos que uma bala de fuzil

Um ano e meio após Benjamin, de um ano e 7 meses, ser morto, o pai dele, Fábio Antonio da Silva, fala de saudade e de como a morte de Ágatha Felix o fez reviver a dor

Leonardo Coelho
Ponte Jornalismo
Rio de Janeiro (RJ)

Tradução:

“Morar no Brasil, no Rio de Janeiro, é você ver filho de pobre sendo esquecido todo dia. Por isso que a demanda de matar pobre aqui é fácil, porque nunca dá em nada. Pessoal vive de mímica. Essa é a grande verdade. Para a família resta a dor, saudade e continuar a vida. Juntar os cacos.

Eu estou tentando voltar ao trabalho. Eu fui gesseiro e estou tentando voltar, continuar a vida. O que eu posso é entrar com um processo contra o Estado que ainda não andou. Ninguém fala mais nada sobre o caso, sinto que caiu no esquecimento. Hoje quem cuida do caso é a Defensoria Pública. É o que tem pra resolver. Vamos ver se em 20 anos sai alguma coisa, porque é assim que funciona.

Se eu não gritar fica difícil. Alguém me faz um mal e eu que tenho que buscar meus direitos. Em um país que você paga imposto como um miserável, você que tem que correr atrás desse tipo de prejuízo, quando deveria ser o contrário: quem te faz mal é que deveria estar preocupado em te reparar.

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Minha esposa nunca mais voltou ao que era antes da morte do Benjamin. Convivo com a saudade do que ela foi e com a ausência do meu filho. Em um segundo ela está rindo e de repente se acaba em lágrimas. Eu, como homem, me sinto na obrigação de proteger a família, mas é um pesar muito grande, uma saudade imensa. 

Entendo o sofrimento da família da Ágatha [Félix, morta durante operação policial na sexta-feira (20/9), no Complexo do Alemão, no Rio], porque só entende é quem perde. Desejo que Deus conforte o coração da família dela como tem tentado fazer com a gente. A vida nunca mais é a mesma. Toda festa alguém faz falta. Não tem dinheiro no mundo que traga isso de volta. A Ágatha tinha 8 anos e ela podia ser o que ela quiser: uma advogada, uma desembargadora, qualquer coisa. A violência arrancou ela da gente. E eles acham que a violência que vai funcionar.

Só pessoas que estudaram, fizeram faculdade, são doutores, é que são presas por corrupção e têm algum julgamento. Enquanto isso, pobre leva tiro na favela. No quintal que se tem para brincar se leva tiro. Como confortar o coração de uma mãe que perde o filho, de alguém que perdeu uma parte de si? Só o tempo.

Um cara como o Witzel [Wilson Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro] que vê uma vida sendo ceifada no sequestro do ônibus e desce comemorando como se fosse um gol. Vergonha, né? Não tem nada de positivo. A vida não tem preço. Se a lei diz que você tem que ser preso caso cometa um crime, essa lei está escondida, né? Porque a lei real é matar, seja criança, adulto, velho… Como você conversa com alguém assim? Isso não é mudança”.

Um ano e meio após Benjamin, de um ano e 7 meses, ser morto, o pai dele, Fábio Antonio da Silva, fala de saudade e de como a morte de Ágatha Felix o fez reviver a dor

Ponte Jornalismo / Foto: arquivo pessoal
Grafite em homenagem ao pequeno Benjamin no Complexo do Alemão

O que me dá força? Eu não posso pensar em tristeza porque eu tenho um filho muito alegre. Você não teve o prazer de conhecer o Benjamin. Ele era uma criança que acordava sorrindo. Você tem noção disso? O que me faz continuar é isso. Saber que meu filho me deixou um legado muito rico de felicidade. Se eu pensar em tristeza, eu vou meter a mão no revólver e fazer merda. Até no enterro dele eu tive que pedir esmola pra poder pagar, porque eu estava sem emprego e até agora ninguém do estado chegou pra trocar ideia. Eu vi todo mundo ir embora, até as ONGs que me ajudaram no começo.

fd0aada6 c52f 458f a272 f6c885cd67bbBenjamin tinha um ano e sete meses quando foi morto | Foto: arquivo pessoal 

Se eu ficar lembrando o que houve no dia 16 de março eu surto e viro um criminoso. Aí a mídia vai ter o que ela quer pra fazer matéria: Pai do Benjamin, traficante, foi morto. É muito triste você conhecer as pessoas em um contexto de morte e hoje as coisas estão cada vez mais difíceis no Rio.

Para a família eu rezo que eles tirem força de onde eles não têm mais, porque sua autoestima vai lá embaixo. Que Deus conforte o coração dela e o legado de 8 anos da Ágatha fique no coração dela. Que a família consiga lembrar das coisas boas. 

Matar inocente não dá nada. Se você pegar uma sala com 6 por 6 metros quadrados ela entope de processo e não cabe mais nada. Tem muita gente que morreu, tá morrendo e vai morrer ainda. Você sabe quanto custa uma bala? Sete reais é o projétil do fuzil. Pode pesquisar. É isso que vale uma vida no Rio de Janeiro. E depois de um ano e meio, você ouve falar em Benjamin?

Eu fico chateado porque até no ativismo é difícil de lembrarem. Você só é divulgado se você tiver junto. Se tu não puder participar, seu caso não é divulgado. O Benjamin nunca é lembrado. Isso dói. Ele era um bebê. Tá morrendo criança. Isso mostra o pouco respeito pela vida de quem atira. Eu não tenho muito pra onde correr, então se eu quiser que ele tenha um pouco de justiça, alguém tem que ouvir”.

(*) O gesseiro Fábio Antonio da Silva, pai de Benjamin, que, em março do ano passado, foi morto no Complexo do Alemão, no Rio, mesma comunidade onde Ágatha Felix, 8 anos, foi morta em operação policial na sexta-feira, deu o depoimento ao repórter Leonardo Coelho.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Leonardo Coelho

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