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Sebastián Piñera falha em recuperar normalidade no Chile apesar de novo gabinete

O presidente concretizou na segunda-feira (28) um significativo ajuste ministerial que incluiu a saída dos ministros do Interior – chefe político – e da Fazenda
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

O governo do presidente Sebastián Piñera não consegue restabelecer a normalidade na vida cotidiana dos chilenos, doze dias depois de iniciadas os massivos protestos cidadãos contra o que avassaladoramente se percebe como abusos, maus tratos e iniquidades produzidas pelo modelo econômico ultra neoliberal.

Em Santiago, Valparaíso, Concepción, Antofagasta, Talca, Punta Arenas e dezenas de outras grandes e pequenas cidades do país, sucedem-se diariamente manifestações mais ou menos multitudinárias, da mesma forma que bloqueios de estrada que se multiplicam ao longo da Rota 5 que une o país de norte a sul. O transporte público, o deslocamento pelas estradas e a atividade comercial se encontram visivelmente afetados. 

Para a quarta-feira, a Central Unitária de Trabalhadores e diversas organizações sindicais, incluídos os professores, fizeram um chamado para uma paralisação nacional. 

O presidente concretizou na segunda-feira um significativo ajuste ministerial (oito de 24) que incluiu a saída dos poderosos ministro do Interior – chefe político – e da Fazenda, que foram substituídos por rostos jovens no que pareceu ser um sinal de troca geracional e maior flexibilidade para o diálogo.

Mas apesar de insistir em sua disposição de iniciar um diálogo social, o presidente falhou ao não dizer expressamente que está disponível para realizar ajustes estruturais ao modelo – que é o que reclama a cidadania -, assim como gerar condições para um processo constituinte insistentemente reclamado por setores de oposição. 

“A chamada ‘agenda social’ do governo tem um forte contrabando, é mais privatização e menos Estado, defendamos a educação pública”, publicou em sua conta do Twitter a senadora Yasna Provoste (Democracia Cristã).

O conjunto de senadores opositores (23 de 43) anunciaram que reativarão um projeto de reforma constitucional para estabelecer um plebiscito que permita iniciar um processo constituinte. Em geral, a oposição considerou insuficientes as mudanças e anúncios feitos por Piñera.

O presidente concretizou na segunda-feira (28) um significativo ajuste ministerial que incluiu a saída dos ministros do Interior – chefe político – e da Fazenda

Portal Vermelho
O presidente do Chile Sebastián Piñera

Batalha campal em Santiago

O centro de Santiago foi novamente nesta terça-feira cenário de uma batalha campal entre centenas de manifestantes que enfrentaram com paus, pedras, barricadas e fogueiras as forças especiais dos Carabineiros, que os reprimiram intensamente com jatos de água, gases lacrimogênios arrojados indiscriminadamente e disparos de balas de borracha. 

O frustrado objetivo dos manifestantes era chegar até o Palácio de La Moneda, sede do governo, que se encontrava protegido por um cerco de barreiras policiais e centenas de efetivos. A polícia atuou imediatamente, tão logo os manifestantes começaram a se aproximar. 

Um observador do Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), a cargo de verificar as atuações policiais, recebeu um impacto de chumbinhos que se incrustaram na sua perna esquerda.   

“Não conseguimos nada ainda, devemos seguir lutando”, disse brevemente uma jovem manifestante que escrevia consignas nas paredes de um edifício. Ela estimou que se avizinham uma luta longa e que lhe preocupa a capacidade de resistência do movimento. 

Outro jovem, mascarado, que se identificou como estudante do liceu Raimapu de La Tierra, respondeu algumas perguntas para La Jornada quando foi perguntado por que estava se manifestando. 

“Basicamente são 30 anos que a classe política do Chile está nos roubando as terras, nossos recursos, nossas vidas. Estamos aqui lutando para conseguir uma mudança constitucional, porque as pessoas já se deram conta de o que necessitamos não é um político de outro partido político, é uma nova Constituição”. 

O que opinas da violência que se produz? 

Eu posso dizer que violento é que uma instituição como o Sename (Serviço Nacional de Menores), que deve cuidar das crianças abandonadas, seja uma péssima instituição, onde as crianças terminam vendendo droga ou metidos na pasta base. Violento é a moradia que temos que alugar ou esperar 17 anos pagando. A violência física que mais se vê é a dos “pacos” (Carabineiros), nos disparam com chumbinhos; eu faço primeiros socorros e já tive que vendar caras e mobilizar braços. 

Até quando?

Até conseguir. 

O que é conseguir?

Uma nova Constituições, diretamente, uma assembleia constituinte onde o povo se sente com os políticos para fazer a constituição. 

Até quando alcançam as energias?

É super intenso o desgaste, eu mesmo comentava com minha mãe que estou muito cansado, mas lhe disse que isto é por ela e por todas as pessoas que podem sofrer. E isso me motiva embora esteja cansado de seguir me expondo. 

É apoiado em sua casa?

Minha mãe sim, me apoia, eu lhe digo tudo o que faço, ela sabe onde estou neste momento, sabe que me ponho à frente; contei a toda minha família que sou dos que está à frente. As pessoas que vieram à marcha da sexta-feira, que foi muito pacífica, se não fosse por pessoas como eu que estamos à frente, onde chegam as balas e comemos as lacrimogêneas, todas essas pessoas que estavam na Praça Itália teriam sofrido o mesmo que aconteceu conosco.

*Aldo Anfossi, especial para La Jornada desde Santiago do Chile

**Tradução: Beatriz Cannabrava

***La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Aldo Anfossi

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