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Seguindo linha intervencionista, EUA demonstram desconforto com governo da Nicarágua ao interferir nas eleições

A subida ao poder do senhor Joe Biden não significou uma mudança na política exterior ditada pela Casa Branca
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

A subida ao poder do senhor Joe Biden, nos Estados Unidos, não significou uma mudança na política exterior ditada pela Casa Branca, pelo menos no cenário latino-americano.

Inclusive, embora o recente encontro celebrado em Genebra, e que marcou o primeiro encontro entre o mandatário ianque e o presidente russo, Vladimir Putin, pudesse augurar um sinal de distensão nas relações Leste-Oeste, não se pode incubar a ideia de que ele se projetará em nosso continente, pelo menos à luz do que acontece hoje nas relações entre Washington e Manágua.

Em outro cenário, o Departamento de Estado dos Estados Unidos tem mantido uma atitude de aberta hostilidade com Cuba e Venezuela. E com relação ao governo de Daniel Ortega, tem expressado sua absoluta incomodidade de que sobreviva após as eleições de novembro próximo.

A subida ao poder do senhor Joe Biden não significou uma mudança na política exterior ditada pela Casa Branca

Reprodução: Pixabay
Washington amarga possibilidade de que Nicarágua confirme vontade do povo nas urnas em novembro.

No entanto, ocorre que, há pouco tempo uma enquete encarregada pela administração norte-americana, e destinada a sondar as preferências da cidadania nicaraguense, revelou que 65% dos entrevistados apoiavam a continuação da Frente Sandinista de Libertação Nacional no governo de seu país, e respaldavam a postulação do Comandante Daniel Ortega para um novo período de gestão. Outras pesquisas demonstram a mesma tendência, embora lhe outorguem outras porcentagens. 

É bom precisar que a vontade assim expressada tem uma dupla conotação. Implica a conformidade pública com o governo atual, mas mostra uma decisão que só compete aos cidadãos nicaraguenses. Só eles estão em capacidade de decidir qual governo querem em Manágua. Nem a Casa Branca nem qualquer outro poder de fora podem participar da festa.

Não é algo da competência de Washington o que decida a povo da Nicarágua, certamente, embora os mandatários ianques estejam acostumados a tomar em suas mãos decisões que não lhes incumbem, como impor um governo, ou outro, aos cidadãos de qualquer país. 

Fizeram isso sempre, e não apenas em processos eleitorais. Também têm agido fazendo uso das armas, e usando os serviços de sua infantaria da marinha para desembarcar no México, em Honduras, em Porto Rico, na República Dominicana, no Haiti, em Granada ou no Panamá. 

Em outros confins do planeta se viveu a mesma experiência: Afeganistão, Líbano, Iraque, Palestina ou Síria sentiram os mesmos efeitos da ingerência estrangeira em uma decisão certamente “pedagógica”: ensinar como se aplica a democracia estadunidense em diferentes confins do planeta. 

Mas não tem sido apenas soldados o que enviou a Casa Branca a trotar pelo mundo exportando “o modo de vida” norte-americano. Também tem se valido de outras práticas. Recentemente, por exemplo, decidiu “sancionar” determinados funcionários do governo da Venezuela; e outros do governo de Cuba. E há pouco tempo tomou atitude similar com referência a funcionários do Governo da Nicarágua, incluindo a filha de Daniel Ortega.

A Casa Branca tem o direito de agir desse modo? O que aconteceria se de repente alguns governos da América Latina resolvessem, porventura, “sancionar” funcionários do Governo dos Estados Unidos? Como se transtornaria a ordem mundial se os governos de um país optassem por sancionar indistintamente funcionários do governo de outro país? Algum organismo internacional sentiria ter capacidade de convalidar essa conduta? 

No entanto, ocorre que o assédio norte-americano tem também propósitos eleitorais. Washington está mortificado pela possibilidade de que Nicarágua confirme seu governo em novembro. Quer outro governo, um que lhe seja “atraente”, embora não conte com o respaldo de seu próprio povo.

Não fala, por certo, em respeitar a vontade da cidadania nicaraguense. Isso não forma parte de seus afãs imperiais. E por isso expressa sua decisão de “condenar” a detenção disposta pelas autoridades judiciais da Nicarágua e que afeta algumas pessoas da muito fragmentada “oposição” ao governo da FSLN, por terem cometidos delitos. 

Recentemente, efetivamente, o sistema judicial dar Nicarágua – e não o governo sandinista – resolveu deter e processar algumas pessoas envolvidas em diversos delitos. Essas pessoas foram acusadas de organizar ações sediciosas financiadas pelos órgãos de Segurança e Inteligência dos Estados Unidos, na Nicarágua. 

Trata-se de Cristina Chamorro, Antonio Cruz, Félix Madariaga e outros. Alguns deles se autoproclamaram “candidatos presidenciais”, como uma forma de adquirir uma espécie de “imunidade” que não possuem; e todos se consideraram “perseguidos políticos” para obter apoio a OEA e do governo dos Estados Unidos. E todos também pretenderam negar a evidência de que estão financiados por Washington e formam parte da estratégia imperial para deslegitimar o governo sandinista com o ulterior propósito de derrocá-lo. 

Embora não tenha sido o governo de Daniel Ortega que dispôs essas detenções, é bom que nos perguntemos sempre se um governo revolucionário tem, ou não, o direito de se defender quando se enfrenta ao assédio da oligarquia tradicional e à perseguição incessante do império; ou se deve permanecer impávido e com as mãos atadas, para não ser “desacreditado” no exterior sob o argumento de que “viola os direitos humanos”.

Em outros países. El Salvador, por exemplo – foi preso o ex-presidente Antonio Sacasa, sua esposa Ana Ligia Mixco Sal de Sacasa e seu irmão, além de outros políticos e empresários. Disse algo sobre o tema o governo dos Estados Unidos, ou a OEA? E a propósito da OEA, essa raridade burocrática não disse uma só palavras quando foram perseguidos e encarcerados altos funcionários do governo de Evo Morales, após o golpe fascista de novembro de 2019. 

Tampouco disse qualquer coisa a respeito da brutal repressão fascista na Colômbia ou no Chile. Para seu chefe, o Almagro do nosso tempo, essas ações são consubstanciais à “defesa da democracia”. 

Constitui já quase um fato natural reconhecer que a atitude diante de Cuba serve como referência para diferenciar o comportamento de pessoas e governos na América Latina. Bem se poderia dizer que ante a Nicarágua hoje ocorre o mesmo: não se pode ser realmente democrático, nem progressista, e muito menos revolucionário, quando convalida, se justifica ou cala, quando se trata de enfrentar o assédio norte-americano contra a pátria de Sandino.  

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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