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Sem capa e sem superpoder, no Chile, um herói usou 15 horas de oratória para derrotar Piñera

Julgamento ganhou força devido aos “Pandora Papers”, nos quais Piñera aparece combinando a venda de um projeto mineiro no Chile
Diálogos do Sul (*)
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Jundiaí (SP)

Tradução:

A Câmara de Deputados do Chile aprovou, nesta terça-feira (9), o impeachment do presidente Sebastián Piñera, acusado de “infringir abertamente a Constituição e as leis” em matéria de probidade por “comprometer gravemente a honra da Nação”. 

O curioso do fato foi que tal feito só foi possível pela ação heroica de um deputado: o socialista Jaime Naranjo, como explicaremos abaixo.

Vale explicar, desde já que a aprovação na Câmara não garante a saída do mandatário. A ação passará para o Senado, que deverá atuar como júri, requerendo o voto de 2/3 ou 29 dos 43 senadores. Algo difícil, pois a oposição só tem 24. 

É a segunda vez que Piñera enfrenta algo similar e o segundo presidente na história do Chile.

Um presidenciável com Covid

Tudo começa com o candidato presidencial esquerdista, Gabriel Boric. O caso era apoiado por toda a oposição e até a semana passada avançava sem contratempos, mas ficou em suspenso quando na terça-feira (2), o deputado Boric anunciou ter testado positivo para a Covid-19.

Imediatamente, além de iniciar uma quarentena por dez dias, ficou impedido de participar da votação, pois o voto à distância só opera em estado de exceção constitucional. 

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Outro parlamentar, seu chefe de campanha, Giorgio Jackson como era um “contato próximo” também teve que ficar em quarentena. Como seu teste PCR deu negativo, após sete dias de isolamento, ele poderia votar.

Começa então a maratona 

O fato anterior tirou dois votos favoráveis à acusação, imprescindíveis para conseguir o mínimo de 78 dos 155 legisladores requeridos. 

O oficialismo entrou em estado de euforia, a oposição de desespero. Parecia que outra vez Piñera estava salvo. 

Julgamento ganhou força devido aos “Pandora Papers”, nos quais Piñera aparece combinando a venda de um projeto mineiro no Chile

Reprodução
Naranjo falou por 15 horas até que seu companheiro pudesse chegar ao Congresso para votar

Mas um deputado, o socialista Jaime Naranjo, planejou uma estratégia de urgência: a “lei Lázaro”. 

Esta consiste em que ele falaria no Plenário continuamente desde as 10 da manhã de segunda-feira até cerca das duas da madrugada de terça. Com que propósito? Possibilitar que Jackson, o “contato próximo” de Boric, mas negativo à Covid, completasse, à meia-noite de segunda-feira, os sete dias de isolamento exigidos, e de imediato viajasse de Santiago a Valparaíso, sede da Câmara, a uns 100 quilômetro, para votar afirmativamente. 

Vai, Naranjo!

Às 10 de noite, hora local, o deputado Naranjo, de 70 anos de idade, havia completado 15 horas de uso ininterrupto da palavras, avançando na leitura de seu discurso de 1.300 páginas. 

Apenas duas vezes se havia permitido que ele tivesse uma pausa de 20 minutos para descansar e ir ao banheiro e, na segunda, ser checado por um médico. Mas ele se declarou em boas condições e não duvidou de continuar falando. 

“Isso é um jejum pela justiça, pelas pessoas às quais violaram os direitos humanos e que ficaram na impunidade na acusação anterior. É um gesto para que nosso país não aceite um Presidente que falta à probidade e estou disposto a qualquer sacrifício para que se viva em plena democracia; isso quero deixar hoje, um testemunho de que se pode lutar”, disse.

O julgamento ganhou força por causa dos “Pandora Papers”, nos quais Piñera e sua família aparecem, durante seu primeiro governo, em 2010, acordando a venda nas Ilhas Virgens, de 33% de um projeto mineiro com a condição de que a zona onde se instalaria a mina não tivesse protegido o seu meio ambiente. 

Mas também é o corolário da eterna história de conflitos de interesses e de negócios ocultos de Piñera, um multimilionário que costuma realizar “negociatas” na bolsa e financeiras com ganhos de curto prazo, até convertê-lo na quarta fortuna do país com uma riqueza de dois bilhões e 900 milhões de dólares. 

* Com informações de Aldo Anfossi, do la Jornada e tradução de Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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