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Sem López Obrador, Cúpula das Américas começa e submete Biden a risco vergonhoso

Sem mudança na postura de Washington, cúpula poderia ser percebida como “a tumba da influência estadunidense na região”, aponta especialista
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

A nova Cúpula das Américas começou nesta segunda-feira (6), em Los Angeles, por quatro dias de retórica oficial hemisférica cheia de frases grandiloquentes sobre os principais temas – migração, mudança climática, saúde, transformação digital e a palavra “democracia” em tudo – que será contrastada por reuniões paralelas de centenas de organizações sociais e de ONGs que oferecerão outra versão das realidades do hemisfério. 

O programa oficial que se desenvolve entre 6 e 10 de junho culmina com o encontro de líderes e outros representantes oficiais do hemisfério. Além disso, o programa oficial inclui um Foro da Sociedade Civil, um Foro de Jovens da América e a Cúpula de CEO das Américas. O enfoque oficial é: “Construindo um futuro sustentável, resiliente e equitativo”.

Como se tem feito em paralelo com várias cúpulas anteriores, foram programadas reuniões de diversos setores sociais, ONGs, grupos pensantes e centros universitários. Incluem uma “Cúpula dos Povos”, com três dias de atividades enfocadas em “imaginar um novo mundo que dê prioridade à democracia dos cidadãos”.

Tamper será realizado um encontro continental com representantes de povos indígenas, que começou no domingo (5) e vai até a sexta-feira (10).


A Cúpula das Américas entre América Latina e Miami

O anfitrião da Cúpula das Américas se encontra encurralado entre América Latina e Miami e, o que era apresentado pelo governo de Joe Biden como um festejo de sua “nova relação” com o hemisfério, agora está em risco de ser um possível fracasso vergonhoso para um presidente em urgente necessidade de triunfos. 

Quando o Presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, anunciou em 10 de maio que não participaria pessoalmente da Cúpula se fossem excluídos da lita de convidados países do hemisfério, em particular referência a Cuba, Venezuela e Nicarágua – posição depois endossada pela Bolívia, Honduras e vários dos 15 países da Comunidade do Caribe (Caricom) entre outros – obrigou o governo de Joe Biden a explicitar o que buscava deixar meio difuso: optar entre as Américas ou Miami. 

Esta primeira cúpula realizada nos Estados Unidos desde o evento inaugural em Miami em 1994 seguia ante a incerteza 24 horas antes de seu início, e são precisamente os fantasmas de Miami os que poderiam descarrilar o evento – os sectores conservadores poderosos desse epicentro de forças contrarrevolucionárias latino-americanas e seus aliados estadunidenses que se opõem à inclusão de Cuba e Venezuela nestes eventos.

Por ora, Biden e seus estrategistas estão optando por privilegiar a relação com o capital da direita latino-americana, inexplicavelmente ignorando o que o presidente Barack Obama – com Biden como seu vice-presidente – finalmente entendeu há poucos anos: a política estadunidense para Cuba prejudicava a relação de Washington com quase todo o hemisfério.  

O senador Marco Rubio, uma das principais vozes do poder de Miami, rechaçou que López Obrador ditasse o que os Estados Unidos deveriam fazer em sua festa hemisférica. Em uma audiência no Senado, em 26 de maio, declarou que “não creio que os Estados Unidos da América deveriam ser pressionados sobre quem convidar a uma cúpula da qual somos anfitriões. Se não quiser vir que não venha… e se gente que deseja que ditadores venham decide boicotar, então saberemos quais são os verdadeiros amigos na região…”

Segundo especialistas, diplomatas e alguns políticos, o problema maior não está em Havana, Caracas ou Manágua, senão em uma Washington que aparentemente não entendeu as mudanças na América Latina e que apesar da proclamação de Biden de que “America is back” – já não tem a mesma influência nem o poder que no século passado.

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De fato, a Casa Branca afirma que o objetivo da política estadunidense nesta cúpula é promover “uma visão de uma região segura, de classe média e democrática como algo que está fundamentalmente no interesse da segurança nacional dos Estados Unidos”. Mais ainda, afirmou-se que a agenda econômica que promoverá é uma que “se constrói sobre os acordos de livre comércio no hemisfério” e “abordar temas de equidade”. Ou seja, o mesmo roteiro, embora diluído, que foi estreado na primeira cúpula em Miami em 1994.

Sem mudança na postura de Washington, cúpula poderia ser percebida como “a tumba da influência estadunidense na região”, aponta especialista

Gage Skidmore – Flickr

O que era apresentado por Biden como um festejo de sua “nova relação” com o hemisfério, agora está em risco de ser um possível fracasso

Christopher Sabatini, um especialista na relação interamericana e por muito tempo promotor da importância destas cúpulas, escreveu em Foreign Policy que sem uma mudança na postura de Washington esta cúpula poderia ser percebida como “a tumba da influência estadunidense na região”. 

Dan Restrepo, que foi assistente do presidente Barack Obama para assuntos do hemisfério ocidental e encarregado de sua participação em duas cúpulas, escreveu em um artigo no Los Angeles Times, que a Cúpula das Américas fracassou em oferecer resultados desde seus inícios e embora tenha sido originalmente pensada como “um veículo para promover os interesses dos Estados Unidos nas Américas” agora é “um foro com uma decisão mortal que não serve ao seu propósito…”, e aconselha que esta deveria ser sua última sessão.

O historiador Miguel Tinker Salas, professor no Pomona College, e colaborador do La Jornada, assinalou em entrevista para o Los Angeles Times que a posição de López Obrador demonstrou uma fratura na hegemonia estadunidense que Washington gozava quando inaugurou as cúpulas em 1994, mas que “agora é outra América Latina, e os Estados Unidos não entendem isso. Estados Unidos já não são o império que faz ou desfaz” as coisas no hemisfério. 

Vale recordar que a Cúpula das Américas nasceu do chamado “consenso de Washington”, que propunha um hemisfério de “democracias de livre mercado” vinculadas por acordos de livre comércio que culminaria em um Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA). O México foi o modelo a seguir com o TLCAN. 

Uma década depois, se escutou “ALCA, ALCA, Al caralho”, a consigna famosa lançada pelo então presidente Hugo Chávez no foro social alternativo à cúpula em Mar del Plata, em 2005. Com a pá na mão, declarou que chegou à cúpula junto com organizações sociais hemisféricas e os governos sul-americanos “para enterrar a ALCA”. Isso marcou o fim desse sonho neoliberal expressado no Consenso de Washington.

Desde então, as mudanças em vários países do hemisfério – incluindo atentados de golpe de estado e conquistas direitistas tanto no sul, centro e inclusive nos Estados Unidos – as novas dinâmicas políticas progressistas anti neoliberais continuam transformando o continente. 

Muito disto se manifestará nos próximos dias em Los Angeles.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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