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Sindicalismo e militarismo em crise nos EUA

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

David Brooks*

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Duas notícias que a primeira vista não parecem relacionadas foram destacadas nas páginas dos jornais destes dias: a taxa de sindicalização dos trabalhadores nos Estados Unidos caiu a seu nível mais baixo em quase um século e, no que alguns consideram um grande passo na equidade dos sexos, agora permitem que as mulheres militares participem nas primeiras linhas de combate.

As cifras sobre sindicalização são alarmantes para os sindicatos (e bem recebidas por empresários e forças ante-laborais), havendo quem sugira que se está chegando ao ponto de extinção como força social nos âmbitos políticos e econômico. O Departamento de Estatísticas Laborais dos Estados Unidos divulgou que a taxa de sindicalização total (setor público e privado) se reduziu em 400 mil sindicalizados durante 2012, mesmo quando a força laboral empregada se incrementou em 2 milhões e 400 mil. Com isso, a taxa de sindicalização se reduziu a só 11.3%. É o nível mais baixo em 97 anos.

Pior ainda a taxa de sindicalização no setor privado caiu a só 6,6% no ano passado (do já muito baixo 6.9% em 2011). Vale recordar que há meio século, 35% do setor privado estava sindicalizado.

A ofensiva empresarial (apoiada ocasionalmente pelo governo) travada contra os sindicatos desde os tempos de Ronald Reagan, junto com uma ofensiva mais recente contra os sindicatos públicos, impulsionadas por governos republicanos e multimilionários conservadores em vários estados (Wisconsin, Indiana, Ohio, Michigan, entre outros), alcançaram resultados.

O efeito desse enfraquecimento sindical, segundo analistas, ajuda a explicar não só o estancamento e até a redução dos ingressos para os trabalhadores no transcorrer das últimas décadas, como talvez o fenômeno que mais define a este país (e grande parte do mundo) nos dias de hoje: a dramática concentração de riqueza pelo um por cento mais rico (que agora acapara em torno de 25% do ingresso nacional e controla quase a metade da riqueza nacional). O economista e Prêmio Nobel Joseph Stiglitz indica que esta desigualdade está destruindo o sonho americano.

Enquanto se esfuma este sonho, um anuncio que foi apresentado como um grande avanço na equidade de gêneros, o governo de Barack Obama suspendeu a proibição a participação de mulheres militares nas primeiras linhas de combate nos campos de batalha. A partir de agora, as mulheres também terão oportunidade de enfrentar o “inimigo” e defender a “liberdade” em combate, inclusive em operações clandestinas. Alguns festejaram isto como um grande avanço dos “direitos civis” das mulheres. Outros diziam que é um  sonho feito realidade.

Tudo isso em fileiras armadas em que as mulheres sofreram crescentes ataques sexuais. O informe mais recente do Pentágono sobre o tema registra que cada três mulheres militares uma foi sexualmente assaltada dentro das fileiras uniformizadas. Nada menos que umas 52 mulheres por dia (obviamente isto não é um fenômeno dentro do mundo militar. A jornalista Rebeca Solnit reporta que nos Estados Unidos, em média, há uma violação sexual de uma mulher denunciada a cada 6,2 minutos e que uma de cada cinco mulheres sofrerá uma violação durante sua vida).

Estas duas notícias, que foram abordadas como temas sem qualquer relação, na verdade compartilham um vínculo profundo. As forças armadas do Estados Unidos (hoje com um milhão 388 mil integrantes, segunda em número no mundo, depois da China) foram proclamadas como uma força “totalmente voluntária” depois da guerra do Vietnam. O serviço militar obrigatório foi anulado. Agora a cidadania é convidada ao serviço militar em troca de todo tipo de benefícios: primeiro, um trabalho pago, capacitação e educação especializada grátis, serviços de saúde grátis, moradia grátis, acesso a créditos e, para alguns imigrantes, até a cidadania.

Os que se integram nas fileiras militares, homens e mulheres, são maiormente dessa classe média trabalhadora que não só é a maior vítima da crise econômica atual, como também das políticas econômicas e sociais das últimas três décadas, que geraram a maior desigualdade desde a grande depressão, o que foi acompanhado com a perda de empregos de alta remuneração, permanência de emprego, fundos de pensão, férias pagas e seguros de saúde, agora substituídos por empregos de salários mínimos com quase nenhum benefício, ou seja, sem tudo o que se conquistou, em grande parte pelos sindicatos, e que levou a criação desta ampla “classe média”, integrada por trabalhadores na era do pós guerra. É a isto que aqui chamam de “liberdade” pela qual foram combater?

 

*publicado originalmente no La Jornada de México.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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