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Situação eleitoral no Peru exige unidade capaz de derrotar as máfias e recuperar país

A vontade política pressupõe renúncias ao individualismo e ao caudilhismo, às deformações eleitorais e às ambições pessoais e de grupo
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

O convulso processo peruano está chegando a extremos não previstos. Por encima, e além das manobras golpistas de provocadores e aventureiros, a situação exige do movimento popular, da esquerda política e dos trabalhadores uma conduta responsável que tem um só caminho: o da Unidade, capaz de enfrentar os desafios e salvar o nosso país, derrotando as Máfias e recuperando a vida nacional.

Um governo eficiente e honrado, é a única coisa que hoje reclama a cidadania. E esse deve ser o passo que temos à frente todos os que lutamos, em uma ou outra etapa da vida peruana, pelos interesses do nosso povo.

A só 8 meses das eleições presidenciais e parlamentares que terão lugar em abril do próximo anos, o cenário resulta preocupante não tanto pelas chispas que lançam aqueles que estão empenhados em virar a mesa para dar rédea  solta a afãs subalternos, mas sim pelo quadro geral marcado pelo desalento, pela dispersão e pela ausência de lideranças qualificadas.

Que a direita política e suas distintas vertentes não encontrem uma alternativa que os una, não devia nos surpreender. Eles têm feito da política uma chantagem cotidiana e têm procurado, finalmente, impor-se pela força do dinheiro e do Poder usurpado.

Hoje transitam bisbilhotando em busca de fortuna política. Jogam com propostas desprezíveis como Roque Benavides ou Hernando de Soto e até Keiko Fujimori, mas não têm programa de governo a não ser estimular o investimento estrangeiro e proteger os interesses do capital. Não obstante, não se põem de acordo, porque assomam devorados pela ambição e a cobiça.

A vontade política pressupõe renúncias ao individualismo e ao caudilhismo, às deformações eleitorais e às ambições pessoais e de grupo

PCP
A esquerda não tem compromisso real com a "herança" recebida

Há também o que comumente se chama de “forças intermediárias” que buscam um protagonismo próprio, sem assumir compromissos de fundo. Distanciam-se da direita mais reacionária porque sabem que cheira a peixe podre; mas não se aproximam da esquerda porque não se sentem capazes de dar o salto definitivo que a realidade exige. 

Buscam “melhorar” a vida dos peruanos mantendo, no entanto, a Constituição da Ditadura, que a degradou; e prometem “mudanças” sem abandonar os clássicos limites do neoliberalismo sob o espúrio argumento de que ele nos proporciona “estabilidade econômica” e “solvência financeira”. 

Essas forças poderiam marchar mais positivamente se percebessem realmente a profundidade da crise nacional e tomassem o pulso aos peruanos que viveram as iniquidades do “Modelo Econômico” legado pelo fujimorismo, e docilmente aplicado pelas administrações que o sucederam. Inclusive a pandemia que perturba hoje os peruanas, poderia servir-lhes de transparente lição.

A esquerda não tem realmente compromisso com a “herança” recebida. Pode, então, assumir a causa do Peru e oferecer uma alternativa viável capaz de interessar realmente às grande maiorias nacionais. Mas sua pregação só poderia se fazer tangível, se for capaz de concretizar o que o Peru lhe exige a gritos: a unidade. 

Para que haja unidade se requer realmente pouco. Em primeiro lugar, uma vontade unitária que se afirme em ações. E em segundo lugar, um programa básico que recolha as mais elementares demandas cidadãs. 

A vontade política pressupõe renunciar ao individualismo e ao caudilhismo, às deformações eleitorais e às ambições pessoais e de grupo. A unidade exige renunciar inclusive a expectativas legítimas se elas obstruem o caminho do entendimento entre forças naturalmente confluentes. 

A Unidade tem que ser forjada sobre a base das coincidências, e não das diferenças. Por isso o programa que a sustente deve ser flexível e amplo. Sustentar-se nos requerimentos básicos da população: pleno emprego, atenção à saúde e educação solvente; respeito à vida e às liberdades básicas dos trabalhadores e da população, integração e inclusão nacional e social, e uma política exterior independente e soberana.

Há vários candidatos nas fileiras da esquerda? Não é mau que surjam opções diversas. Seria problema se elas gerarem a divisão, porque deve ser exigida a unidade. Seria problema se elas diminuírem ou dividirem quando se impõe a soma e a multiplicação de vontades e esforços. 

É imperioso que os candidatos já conhecidos e os que apareçam na etapa que se inicia, concordem com o básico: eleições primárias com votação universal e aceitação de seus resultados; Quem ganhar essas eleições deverá ser o candidato da esquerda com o apoio de todos. Assim se concretizará a unidade. 

E é que, como disse recentemente o Centro de Estados “Democracia, Independência e Soberania” (CEDIS), o fundamental é a Unidade. E o programa que a normatize. Não o candidato, que pode ser, finalmente, um ou outro. 

As localizações pessoais, os interesses individuais ou a supremacia de um grupo, ou outro, serão aspectos subalternos diante do objetivo principal. 

Gustavo Espinoza M*, Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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