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Sociedade brasileira precisa se posicionar diante do racismo e carnificina policial

O Brasil tem um dos maiores índices de homicídios do mundo e a polícia mata seis vezes mais que a estadunidense, sendo que os negros somam 75,4%
Nélio Palheta
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Engana-se quem pensa estar isento da questão do racismo. Se não estiver envolvido por raça e família, estará pela origem do povo brasileiro. E isso – hoje tão real quanto ontem – impõe uma pergunta: quando os protestos contra o racismo chegarão Brasil? 

Essa onda deveria estimular o país rever como a questão histórica perpassa a vida de 53,63% dos brasileiros. Apesar da violência contra negros e minorias, o Brasil parece envergonhado e se cala; a segregação racial está escancarada pelo próprio governo.

O que Vigia de Nazaré tem que ver com essa história? O antirracismo encontra links na história local, também. O ícone publicado no Facebook, posicionando Associação Literária Cinco de Agosto, fundada em 1871, contra o fascismo, é o mínimo neste momento de esgarçadura social que realimenta o chamado “racismo estruturado”, eco da excrescência que se pensava abolida no mundo: a escravidão. O racismo é filho (ou irmão?) direto. Ambos devem ser combatidos por quem preza o humanismo e uma sociedade civilista, justa, igual.

Os protestos, tirando o vandalismo, são expressões grandiosas emparedando governos, exigindo um novo olhar sobre histórias indesejadas. Segundo o jornal Washington Post, a polícia dos EUA matou 1.014 pessoas naquele país em 2019. A maioria de negros. A ONG Mapping Police Violence aponta que, em relação aos brancos, é três vezes maior a chance de negros serem mortos pela polícia. O movimento #BlackLivesMatter (“Vidas Negras Importam”), surgido em 2013, não é gratuito.

O Brasil tem um dos maiores índices de homicídios do mundo e a polícia mata seis vezes mais que a estadunidense, sendo que os negros somam 75,4%

Sul21
A memória precisa estar viva neste momento da história contemporânea

O Brasil tem um dos maiores índices de homicídios do mundo e a polícia mata seis vezes mais que a estadunidense. Segundo o site www.almapreta.com, do total de 7952 pessoas mortas pelas polícias, entre 2017 e 2018, os negros eram 75,4%, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública extraídos do 13ª Anuário da Violência.

A sociedade brasileira precisa se posicionar consequentemente diante não só da carnificina policial. E, ainda mais, contra um governo desavergonhado das suas políticas contra minorias, incluídos os índios. É inquietante o silêncio oficial sobre a fala do presidente da Fundação Palmares (um negro), órgão federal encarregado da política nacional de defesa da população negra; Sérgio Camargo, no dia 2, disse que os negros brasileiros são “escória maldita”. A “maldita e fascista” fala exige um posicionamento veemente contra o fascismo que sustenta a segregação racial no Brasil.

A escravidão de africanos, endossada pela Igreja, fez parte do modelo econômico mundial em séculos. A Sociedade Literária Cinco de Agosto foi fundada no calor da libertação dos escravos norte-americanos, declarada em 1863, e sete anos antes da Lei Áurea, que neste dia 13 de maio completa 132 anos. Em Vigia de Nazaré, o tema não aparece no imaginário local da atualidade, mas está presente no arquivo da Sociedade Literária, sobretudo nos acervos dos Cartórios Raiol e Vilhena, que estão sob sua guarda, e na biografia de seus fundadores. Num tempo em que a elite agrária vigiense tinha seus cativos, a questão da libertação dos escravos não pautou de imediato as sessões da agremiação; entre seus sócios, um diminuto número de proprietários possuía um ou dois escravos, e até comercializava negros a pedido de terceiros. Entre os documentos cartoriais há registro contábil de escravos da fazenda “Raiol & Irmãos”, na “Ilha do Sol (Colares), de propriedade de Domingos Antônio Raiol, o Barão de Guajará, membro da associação; com 34 escravos, a empresa operava o Engenho Santo Antônio da Campina (hoje região do Tauá Pará). O barão não foi o único proprietário de escravos em Vigia, do inventário de Raimundo Antônio de Sousa Álvares, datado em 1842, consta que ele possuía 62 cativos – talvez o maior proprietário local de negros, no século XIX.

Um dos expoentes do movimento abolicionista em Vigia foi o professor, político, escritor e jornalista Bertoldo Nunes, desde quando secretariou os trabalhos da Cinco de Agosto, na década de 1870, e editou O Liberal da Vigia. Combativo, Bertoldo Nunes comemorou, em 1878, a vitória dos liberais nas eleições daquele ano registrando em cartório a “Carta de Liberdade” do escravo de nome Basílio, de propriedade de Joaquim Manoel de Carvalho. Em Belém, Bertoldo Nunes continuou sua luta pela abolição, ao lado do irmão Gemino Seabra Nunes. Em 1881, ele atuou na Associação Filantrópica de Emancipação de Escravos e, ainda com o irmão, na Comissão Central de Emancipação de Belém.

Vilhena Alves, outro vigiense de renome da cultura, foi o principal responsável, em 1883, pela organização da festa da recém-fundada “Sociedade Emancipadora Vigiense 28 de Setembro”, que contava, inclusive, com um periódico – o nome da instituição foi simbólica alusão à data da publicação da Lei do Ventre Livre, que libertou os nascidos de escravos.

Antes de os negros serem libertados em Vigia, Antônio José Landi projetou um pelourinho – o “tronco” – para o Paço local. Não chegou a ser construído. O debuxo está no Arquivo Público do Estado. Quem teria contratado o arquiteto italiano?

O ex-presidente da Cinco de Agosto, Francisco Soeiro, recolheu dezenas de “letras de carimbó, e uma sãs canções chega a ser plangente ao chamar atenção para a vida de negros em Vigia – diz algo assim: “O negro estava no campo / (…) / O negro não vai apanhar / O negro não apanha / Não apanha, não apanha.” / O negro não vai apanhar (…)”.  A memória remanesce na antiga “Ilha do Sol”.

Quando o abolicionismo se consolidou, os negros de Vigia foram alforriados. A memória da Família Monteiro Athayde registra que o patriarca, Francisco Abrahão Furtado Athayde (inscrito na associação literária já em meados do século XX), foi também um dos primeiros vigienses a registrar em cartório a libertação de seus escravos.

O Brasil imperial via o combate à escravatura crescer e o impacto das leituras libertárias alterou a postura da entidade que, na década de 1880, passou a “libertar escravos” em sessões comemorativas, como na data de sua fundação. Isto é, a oficialização das alforrias davam-se em solenidade da “Cinco”. 

Se, em Vigia, a escravidão foi uma verdade, diga-se que a Sociedade Cinco de Agosto – nascida mais sob as luzes do catolicismo e menos da política – abrigou humanistas inspirados pela educação, artes, ciências – enfim, de princípios de uma sociedade edificada no conhecimento. Isso foi dignificante ao se somar à abolição da escravidão. E não é crível que, havendo em seus quadros abolicionistas autênticos, não tenha a entidade literária se inclinado ao movimento defendido por juristas, políticos e escritores nacionais como Machado de Assis, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Castro Alves – entre outros.

Estes registros têm o propósito, ao tempo em que resgatam parte do passado local na questão da escravidão, de chamar atenção para racismo do presente. Deseja-se sejam subsídios que difundem uma história pouco digna do Brasil, e como africanos escravizados  participaram formação também da sociedade local e, por isso, os acontecimentos de hoje não podem significar simples história.

Embora em meados do século XX o jornal da associação vigiense tenha defendido Getúlio Vargas (o presidente que liderou a Revolução de 1930 e que instalou uma ditadura no Brasil), a entidade deve ser considerada uma plataforma histórica de humanidades que formatam as liberdades transcendentais. Então, é natural que, agora, a Cinco de Agosto seja contra o fascismo paradoxalmente combatido pelo ditador, Getúlio Vargas, que sob o peso de circunstâncias geopolíticas, levou o Brasil à II Guerra Mundial contra Adolf Hitler e Benito Mussolini, a mais famosa dupla de fascistas dos novecentos.

A memória precisa estar viva neste momento da história contemporânea. A questão racial e a diversidade cultural precisam estar presentes no debate nacional sob as luzes da educação e da ciência – incluída a História. Nos últimos cinquenta anos, as contribuições da Cinco de Agosto reforçam essa assertiva civilizatória, materializada na luta pela criação do então Ginásio Bertoldo Nunes (hoje escola pública), fundado em 1953 dentro da sede da entidade, homenageando um dos fundadores.

Com a criação do arquivo e a revitalização da biblioteca, a Cinco de Agosto reafirma sua postura democrática mediante a geração de subsídios para pesquisas, cursos, exposições de arte, lançando de livros, exibição de filmes e parcerias com a Universidade do Estado do Pará (UEPA) e do Instituto Federal do Pará (IFPA). 

Nélio Palheta é jornalista e escritor; ex-presidente da Associação Cinco de Agosto, é jornalista e escritor.

Igor Palheta Soeiro historiador, doutorando da Universidade Federal do Pará, é o atual presidente da Associação.

Fontes


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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