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Solidariedade com o jornalista Oswaldo Quispe

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

O jornalista Oswaldo Quispe encarcerado: “Se o governo e a justiça argentina me extraditarem, no Peru me desaparecem”. Entrevista com o comunicador social peruano e residente na Argentina, Oswaldo Quispe, ou a luta contra as perseguições políticas de Ollanta Humala.

 “Nunca te entregues ni te apartes

junto al camino, nunca digas
no puedo más y aquí me quedo”

José Agustín Goytisolo

Andrés Figueroa Cornejo 

Oswaldo Quispe Oswaldo Quispe

“Em outubro de 2013 o Consulado do Peru na Argentina organizou no Hotel Bauen uma atividade para a comunidade peruana residente. Nesse contexto, como jornalista em pleno trabalho fui encarregado de interpelar o cônsul do Peru, Marco Núñez-Melgar  Maguiña, devido à exclusão cometida por essa autoridade contra duas pessoas que estavam inscritas legítima e corretamente no encontro: uma da Rede de Imigrantes e Refugiados, e outra dirigente de Tierra y Libertad.

O diplomata negou a elas qualquer participação e intervenção na reunião. Nessa situação, entrevistei Lourdes Rivadeneira de um dos grupos excluídos. Assim, ficou claro para mim que o objetivo do cônsul para essa iniciativa era enquadrá-la politicamente e censurar e proibir qualquer tipo de dissenso.

Muitos ficaram fora das atividades, desvirtuando  a essência do diálogo e o livre exercício democrático do debate.”, me conta o peruano e comunicador social Oswaldo Quispe, mas já não conversando como fazíamos usualmente entre programas na Radio Sur da Capital Federal, mas sim desta vez amarga, estava eu visitando-o no Complexo Penitenciário Federal I de Ezeiza na província de Buenos Aires. Depois, o abraço, minha entrega oficial a Oswaldo  de uma sólida edição do Canto Geral de Neruda, e que as perguntas e suas respostas derretam as grades impotentes.

-Mas até aqui, tudo parece se reduzir a uma discrepância pessoal, quase esquecida.

“Depois do encontro organizado pela representação do governo peruano na Argentina, a publicação na qual trabalho, Revista Perspectiva Internacional (http://perspectivainternational.wordpress.com/), foi o único meio que registrou e difundiu publicamente o que havia acontecido. Nossa publicação tem mais de 4 anos de existência e seu objeto é dar conta dos principais fatos acontecidos na América Latina, e no Peru em particular. E sobre o Peru se tem gasto muita tinta a respeito da falta de liberdade de imprensa. No Peru, como lamentavelmente em muitas partes do mundo, a concentração monopolista dos meios de comunicação de massa é total. E, como ocorre invariavelmente, esses meios só promovem e tentam legitimar na sociedade peruana a visão das coisas de acordo com os interesses da minoria que controla o Estado e do empresariado. Pois bem, duas semanas antes da minha detenção, a Revista Perspectiva Internacional foi bloqueada na rede. E estamos falando de uma simples publicação na web, que representa uma voz crítica e reflexiva da realidade peruana.”

As leis sem comedimento

“Eu sou solicitante de refúgio argentino há muitos anos devido a que contra mim inventaram um conjunto de acusações falsas. Aqui é importante fazer um esclarecimento. No Peru existe a chamada Lei do Arrependimento que, segundo os relatórios da Comissão da Verdade, tem sido utilizada para prender cada vez mais pessoas sem necessitar de um indício, de um ilícito ou prova contra essas pessoas, que terminam sendo processadas e condenadas”.

– Essa lei encarcera pessoas de acordo com que critério, então?

“Para essa lei basta que uma pessoa indique outra como “terrorista” e isso já é causa suficiente para que seja objeto de processo e cárcere”.

– Quer dizer que se eu, individualmente, não gosto de um vizinho porque alguma vez lhe emprestei uma cortadora de grama e ele jamais me devolveu é suficiente que eu dê seu nome às autoridades assegurando que meu vizinho é “terrorista”, sem mais motivo que minha antipatia por ele, para que meu vizinho seja preso?

“Sim, enquanto seu vizinho não demonstrar sua inocência. No Peru as pessoas são sempre culpadas até que possam provar sua inocência. Desde os governos de Fernando Belaúnde Terry, Alan García, Alberto Fujimori, novamente Alan García, até o atual Ollanta Humala, todos eles têm contas a acertar com a justiça. No caso de Alan García, por exemplo, neste momento se está “limpando” sua responsabilidade nos genocídios cometidos em 1986, devido à obrigação imposta pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos de investigar. Até agora, Alan García aparece imaculado”

A República da Impunidade

-Por quê?

“Porque no Peru governa a razão da impunidade. O atual mandatário Ollanta Humala no primeiro turno das eleições nacionais empregava um discurso muito progressista e de acordo com os interessas populares e com o fim da corrupção (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=130367). No entanto, no segundo turno  Ollanta Humala se enquadrou até se converter em um meio a mais dos interesses norte-americanos no Peru. Na época em que Ollanta estava no exército, ele era o ‘capitão Carlos’ na denominada ‘luta contra-subversiva’. A fonte é um livro de sua própria autoria. Ali ele afirma que ‘combateu o terrorismo’”.

– E, no Peru, o que significa combater o terrorismo?

“Até matar, é claro. E por isso Ollanta não foi julgado. Veja, é bem conhecida a investigação de um conjunto de organizações de DDHH que descobriram as atrocidades cometidas pelo ‘capitão Carlos’ (ou Ollanta Humala) na Base Madre Mía na década dos 90. Agora todas essas provas e investigações foram caladas, com o teatral apoio midiático do escritor e jornalista Mario Vargas Llosa, um dos principais embaixadores culturais dos interesses dos Estados Unidos no mundo.”

“Jamais participei em nenhuma atividade que pudesse ser rotulada de terrorista”

– Por que você veio para a Argentina em 2004?

“Porque já era objeto de fustigação e perseguição no Peru. Era um período em que estavam “sendo armadas” muitas causas. No meu caso, é absolutamente relevante que se saiba que eu, Osvaldo Quispe, jamais participei em nenhuma atividade que pudesse ser rotulada de ‘terrorista’. Assim afirmo e posso demonstrá-lo.  E durante todo o tempo em que a Argentina me acolheu, eu jamais deixei de ser o que sou. Tenho meus documentos e meu passaporte em ordem. Desde 2004 até outubro de 2013 nunca havia tido qualquer problema na Argentina. Tudo começou com a interpelação que fiz ao cônsul do Peru por uma conduta que considerei totalmente excludente”.

Como se explicam politicamente as montagens, o uso de meios ridículos e  fracos para prender inocentes, a perseguição de pessoas que não existem, o abuso jurídico e linguístico da expressão ‘terrorista’ para varrer com qualquer opinião que não seja caninamente obediente ao governo do Peru? 

“No meu caso, o consulado manifestou que comigo tem ‘seu troféu’. O atual cônsul teve a  desfaçatez de dizer que “Já agarramos este, agora vamos atrás de outro”. A destruição da Revista Perspectiva Internacional que dirijo é um objetivo para eles porque ali a linha editorial não é determinada pelo governo, é muito mais ampla, da Nossa América e é escrita a partir da visão dos povos”.

Quase um sequestro

-Quer dizer que vocês são vítimas de uma espécie de macartismo à peruana

“Efetivamente. Sobretudo considerando minha condição de jornalista que publica em diferentes meios (Resumen Latinoamericano) e participa de emissoras como OllaTV e Radio Sur, entre outras.”

– Qual é o peso no seu cativeiro da interpelação que você fez ao cônsul peruano em outubro do ano passado?

“Demasiado. É só ver que o cônsul disse textualmente à senhora Rivadeneira referindo-se a mim: “já vamos prender esse senhor”.  Dois meses depois do incidente com o diplomata, em 16 de dezembro de 2013, eu ia saindo depois de ter denunciado na rádio La OllaTV a bravata do cônsul, quando fui interceptado por dois sujeitos sem identificação em plena Calle Independencia. Quando apareceram meus captores não se identificaram. Não estavam fardados e enquanto me prendiam balbuciavam  palavras sem sentido. Eu pensei que se tratava do clássico modo de seqüestrar pessoas que há no Peru. Então comecei a gritar pedindo às pessoas que estavam na rua e nos apartamentos que chamassem a polícia. Assim gritei meu nome completo, o número de telefone da minha mulher e do meu documento várias vezes. Quando a polícia chegou fiquei mais tranquilo. Foi nesse instante que os meus seqüestradores mostraram suas credenciais da Interpol”.

“Mas o terrorismo não existe no Peru. O que existe é um Estado que usa a palavra ‘terrorismo’ para reprimir”. 

– Quais são as acusações contra você depois de 4 meses de cativeiro no Complexo Carcerário Ezeiza?

“Extradição por “terrorismo”, uma vez que não tenho nenhuma detenção de nenhum tipo em toda a minha vida, nem no Peru, nem na Argentina. No entanto, minha situação apareceu profusamente nos meios de comunicação do Peru. Veja bem, o meu caso, como o de tantos, é usado pelo governo como forma de distração midiática diante, por exemplo, da delicada situação dos docentes peruanos que havendo sido condenados por ‘terrorismo’ e que cumpriram a pena, agora o governo não quer que possam dar aulas. Nesse contexto de luta docente contra uma arbitrariedade, fazem saltar meu caso para fortalecer a idéia de que o ‘terrorismo’ peruano é cosa mundial e que é preciso eliminar qualquer vestígio dele, sempre de acordo com seus interesses e segundo o rumo das contingências políticas.  Mas o terrorismo não existe no Peru. O que existe é um Estado que usa a palavra ‘terrorismo’ para reprimir qualquer assomo de protesto social”.

Que a presidenta Cristina Fernández não aceite a extradição pedida pelo Peru 

– O que é que você, Oswaldo, está solicitando na Argentina a partir desta sala de aula que dificulta recordar que estamos em uma prisão?

“Hoje estão me acusando de um ‘delito’ de1989, que segundo a lei Argentina e inclusive a Peruana deveria ter caducado. Na verdade, minha situação é ilógica. Conversando com os agentes da Interpol, eles mesmos me disseram ‘para que você fez tanto barulho se o seu caso já feneceu?’ Não quero acreditar que exista uma coordenação entre as polícias peruanas e argentinas cujo amparo jurídico sejam suas respectivas leis antiterroristas, que podem ser usadas à vontade com interpretações de conveniência. Historicamente, a Argentina tem gozado de enorme prestígio internacional em matéria de DDHH, refúgio e imigração. É uma tradição humanista do Estado argentino.

O que eu creio é que no fundo de tudo, a decisão que se espera sobre o meu caso é absolutamente política. Por isso, já desatados os nós sobre alguma acusação contra mim que existisse no Peru, meus advogados disseram que é coisa caducada. Então a solução é principalmente política. Por isso solicito à Presidenta da Nação, Cristina Fernández, que não tramite a extradição pedida pelo governo do Peru. Da mesma forma, considerando os requisitos e antecedentes do meu caso, os juízes podem e têm também a capacidade de ditar justiça sobre o mais alto direito humano que é a preservação da vida. Porque se me extraditarem para o Peru, me desaparecem”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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