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SP: "Não tem como policial confundir marmita com arma”: revolta e dor no enterro de jovem negro morto enquanto almoçava

"O Gabriel estava com um marmitex na mão e o policial atirou na cara dele. Nós escutamos um policial falar para o outro: ‘não era para você atirar nele’”, relatou um morador

Jeniffer Mendonça
Ponte Jornalismo
São Paulo (SP)

Tradução:

“Como é possível mais uma mãe chorar pela morte do filho?”, gritava chorando Fabiana Hoytil da Silva, 41, a beira do túmulo de Gabriel Augusto Hoytil de Araújo, morto aos 19 anos por um policial civil quando almoçava na última quarta-feira (20/10). “Eu vi meu filho sendo chamado na televisão de traficante, mas não sabem a dor que eu carrego pela perda de um inocente. Como eu vou cuidar de duas crianças agora?”.

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O enterro do jovem na manhã deste sábado (23/10) aconteceu no Cemitério Municipal do Campo Grande, na zona sul da capital paulista, e foi coberto por diversos gritos por justiça e cantos de músicas como “Partidas Recentes”, do MC Rodolfinho. Os amigos e familiares de Daniel lançaram sinalizadores e estenderam uma faixa pedindo justiça e paz. Com lágrimas nos olhos, cantavam:

Eu vi coroa de flores, partidas recentes
Futuros promissores acabarem de repente
Deixando a tristeza que paira entre a gente
Uns de maior idade e outros adolescente

"O Gabriel estava com um marmitex na mão e o policial atirou na cara dele. Nós escutamos um policial falar para o outro: ‘não era para você atirar nele’”, relatou um morador

Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo
Amigos se despedem de Gabriel na manhã deste sábado (23), no Cemitério Campo Grande, zona sul de São Paulo

Pelo menos um ônibus levou parentes ao local. A cerimônia foi custeada por uma vaquinha feita por amigos e conhecidos. Operador de rastreamento e primo do rapaz, Felipe Rodrigues dos Santos, 23, não conseguia esconder a revolta que sentia ao perder um parente com o qual cresceu junto de uma forma tão violenta. 

“A gente mora na favela e, por sermos pretos, qualquer pessoa negra é discriminada pela polícia. Não tem como um policial confundir uma marmita com uma arma, então, ele foi lá para matar porque meu primo estava em frente à casa dele comendo uma marmita”, declarou. “Eu não sou contra a polícia, a polícia tem o trabalho de prender e não de fazer uma chacina, nós negros estamos cansados de toda a hora que saímos na rua ter que ficar levantando a mão, sendo a abordado toda a hora com pistola na cara”. 

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

Moradora da comunidade do Piolho e amiga de infância de Gabriel, Ingrid Maria Santos Raimundo, 19, conta que eram inseparáveis. “Estudei com ele desde o prézinho, frequentava a casa dele, nossas famílias sempre foram próximas, era como se fosse meu primo, todo o passo que ele dava, a gente estava junto”, conta. 

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

Assim como a maioria dos presentes, ela usava uma camiseta com fotos do jovem e de momentos que passaram juntos. Uma delas de uma festa quatro dias antes da morte. “Quando eu soube [da morte], meu mundo desmoronou, eu não acreditava”, lamentou. “Fui até o local, os policiais foram agressivos porque não deixavam a gente saber quem tinha sido baleado, mas aí quando eu vi os pezinhos dele, eu confirmei que era verdade”, prosseguiu. “Não sei como vai ser daqui para frente porque tiraram uma parte de mim”.

A versão dos policiais civis dos Gilmar Guilon Silva, Thiago de Almeida Fonseca Albuquerque, Sergio Augusto Tolomei Teixeira de Monteiro Palmei e André Ricardo Hernandes é de que Gabriel estava traficando drogas e estava armado, mas testemunhas negam. Segundo os moradores, Gabriel não vendia drogas e estava apenas com seu almoço nas mãos. “Entraram dois policiais disfarçados no beco gritando ‘perdeu!’, só que o pessoal do tráfico não estava nesse local. Só tinha gente que não tinha nada a ver e correram assustados. O Gabriel estava com um marmitex na mão e o policial atirou na cara dele. Nós escutamos um policial falar para o outro: ‘não era para você atirar nele’”, relatou um morador que não quis ser identificado. Até o momento, a família afirma que não conseguiu acesso ao boletim de ocorrência.

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 Fabiana Hoytil da Silva, mãe de Gabriel, durante o enterro do filho | Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

Os presentes no enterro rezaram um Pai Nosso e uma Ave Maria, bateram palmas e os próprios adolescentes e jovens que estavam ali começaram a jogar terra e flores no túmulo. Abraçaram-se e gritaram pelo nome de Gabriel. Moradores da comunidade Morro do Piolho pretendem realizar um segundo protesto nesta semana em repúdio à morte do rapaz e por justiça.

GCM tenta barrar reportagem

Antes do enterro acontecer, estavam no local as equipes da Ponte e da TV Record. Ao tentarmos acessar o cemitério, o subinspetor Balencuela disse que a imprensa não poderia fazer a cobertura dentro do cemitério. Primeiro, argumentou sobre aglomeração por ser um velório coletivo. Ao informarmos que a reportagem não entraria no espaço de velório e sim acompanharia o enterro, disse que não podia. A emissora também não foi autorizada a entrar.

Questionamos qual a base legal para impedir o acesso ao cemitério, que é administrado pela Prefeitura, e o guarda justificou que foi uma “ordem de cima”, do superintendente. Tentamos questionar os motivos, mas reiterou ser uma ordem da Superintendência do Serviço Funerário. Consultado por telefone, um funcionário do Cemitério Campo Grande também confirmou que a ordem veio da Superintedência do Serviço Funerário de São Paulo. Havia ao menos quatro viaturas das GCM no local e o subinspetor disse que chegariam mais.

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

A tia de Gabriel Fátima Hoytil da Silva também questionou a guarda. “Isso só pode ser para abafar o caso porque na televisão chamam meu sobrinho de traficante e quando vem gente até aqui para nos ouvir barram”, criticou. 

Após cerca de uma hora, enquanto a Ponte tentava questionar a assessoria da Prefeitura sobre a censura, amigos e familiares iniciavam a caminhada de saída do velório para o enterro e a reportagem passou tentar registrar pela porta do cemitério. Minutos depois, o subinspetor reapareceu ao lado de um funcionário do local perguntando se a reportagem queria mesmo entrar e se tinha sido autorizada pela família. Dissemos que sim e a entrada foi liberada. Após o final do enterro e saída de todos os presentes, três das quatro viaturas deixaram o cemitério.

O que diz a prefeitura

Questionada sobre o impedimento de acesso da imprensa, a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) enviou a seguinte nota:

A Prefeitura de São Paulo, por meio do Serviço Funerário do Município de São Paulo, informa que a entrada da imprensa nos cemitérios municipais é autorizada mediante solicitação, respeitando o direito dos familiares quanto à filmagem e cobertura jornalística do enterro. No caso em questão, os familiares não autorizaram a filmagem da imprensa e acionaram a GCM para garantir o direito à privacidade em um momento de dor em função da perda de um ente querido, portanto a acusação de censura é totalmente infundada e improcedente. 

A Prefeitura reafirma o seu compromisso com a liberdade de expressão e os direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal e com a transparência pública. Mesmo durante a pandemia, todos os pedidos para acompanhamento de sepultamento foram autorizados, mediante consentimento das famílias e o estrito cumprimento dos protocolos sanitários vigentes à época.

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

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Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jeniffer Mendonça

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