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Talibã que retorna ao poder não é o mesmo dos anos 1990. Realidade e China se impõem

Já estão sendo construídas ferrovias e rodovias, portos e terminais modais, infraestrutura que integra o Afeganistão à nova rota da seda
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Não há como deixar de regozijar-se com a vergonhosa derrota militar e moral dos Estados Unidos no Afeganistão. Saíram correndo, como há décadas, para alegria dos povos do mundo, saíram derrotados moral e militarmente do Vietnã. 

No Vietnã, saiu derrotada a França colonialista, entraram os Estados Unidos com a intenção de perpetuar a dominação colonial do povo anamita. Em 1975, os invasores derrotados ofereceram o vergonhoso espetáculo da fuga em massa. Convenhamos, era uma grande imoralidade. Tentar impor a um povo de cultura milenar, a 12 milhas de distância, outra cultura, fundada no consumo e na guerra.

Décadas depois, repete-se a mesma história no Afeganistão. Saíram os ingleses, entraram os russos, saíram estes, chegaram os estadunidenses e seus aliados europeus. Ao chegarem, puseram no poder o maior traficante de ópio da época, transformando o país num narco-estado e mergulhado-o numa guerra civil que se arrastou por 20 anos.

Os ianques fugiram de Cabul, queimaram documentos sob a proteção de três mil soldados. Uma multidão invadiu o aeroporto, com gente se pendurando no enorme Hércules da Usaf para fugir. Fugir do quê? Será o Talibã uma teocracia tão violenta e genocida como a de Israel?

Mawlawi Hibatullah Akhunadzad, o líder vitorioso, ocupou o Palácio Presidencial no dia 15 de agosto, depois da fuga do presidente Ashraf Ghani, uma marionete dos Estados Unidos. Tão pronto assumiu declarou que vigora agora  o Emirado Islâmico do Afeganistão. A Jihad (guerra santa) é contra os ocupantes, contra os exploradores imperialistas, não é contra o povo.

É justo estar preocupado com a ascensão do Talibã de novo ao poder. A primeira experiência foi desastrosa, impondo aos homens não fazer a barba e às mulheres usar a burca, vestimenta que as cobre da cabeça aos pés, além de proibir as meninas de frequentar as escolas. Triste recordação desse tempo em que destruíam obras de arte. Mas esse é um problema que terá que ser resolvido pelo povo afegão.

Assista na TV Diálogos do Sul:


O mundo mudou — Cinturão e rota se impõem 

Contudo, o mundo mudou e a Ásia Central tampouco é a mesma. Muita coisa aconteceu que alterou completamente a geopolítica da região. O futuro do Afeganistão, sua própria sobrevivência, está em ter como vizinhos o Paquistão e o Irã. Pode agora integrar-se ao projeto euro-asiático de desenvolvimento, levado a cabo sob a liderança da China, em aliança com a Rússia, e que já envolve mais de 70 países, inclusive a Índia.

Já estão sendo construídas ferrovias e rodovias, portos e terminais modais, infraestrutura que integra o Afeganistão à nova rota da seda

http://alaraby.co.uk
Sucessos que verificamos hoje são frutos diretos das ações dos EUA no páis

Aliás, já estão sendo construídas ferrovias e rodovias, portos e terminais modais, infraestrutura que integra o país à nova rota da seda, passando pelo vizinho Paquistão. O Talibã, na condução do Estado afegão, terá de se adaptar a essa nova realidade. Não vai poder conspirar com outros países e sim dedicar-se inteiramente à reconstrução país.

Os líderes estão reunidos em Doha, Qatar, com dirigentes políticos de vários partidos. Dizem que o objetivo é melhorar as condições de vida para o povo e servir a toda a nação. Dizem também que continuarão a pagar os salários dos servidores públicos.

Ashraf Ghani, o presidente responsável por deixar o povo na miséria, fiel aos EUA, fugiu igual o pessoal da embaixada ianque. O presidente do Alto Conselho de Conciliação Nacional, Abdullah Abdullah, declarou à TV Al Jazeera que o presidente entreguista deverá ser julgado e condenado por seus crimes.

Antes da chegada das tropas ianques e seus aliados colonialistas, o Talibã no poder havia minimizado, quase extinguido o consumo de ópio, sua produção e exportação. Bastou chegarem os invasores e o ópio passou a ser o principal motor da economia e de alienação do povo. Um de cada 10 jovens hoje é viciado. Noventa por cento da heroína consumida no mundo é produzida ali.

Interessante que os Estados Unidos, durante a ocupação, recrutou 300 mil afegãos para formar um exército que armou, treinou e financiou para defender seus interesses. O tiro saiu pela culatra. Os soldados, que também são povo, se negaram a combater seus iguais, facilitando muito a vitória do também povo talibã.

Vinte anos, custaram para os EUA quase três mil soldados mortos e aproximadamente 20 mil feridos…

O Washington Post de segunda (16) comenta esse fracasso em nota editorial com o título “da arrogância à humilhação: a classe guerreira dos Estados Unidos se enfrenta ao abjeto fracasso de seu projeto no Afeganistão”. 

Citando especialistas, coincidem que a lição para a Casa Branca, a partir dessa experiência, deverá fazer com que no futuro pondere bem o uso do poder militar, traçar objetivos mais definidos e ter maior humildade ao tentar “mudar sociedades”.

O poder imperial estadunidense — hoje poder notadamente bélico — se demonstra a cada dia mais inútil. De que servem seis frotas navais com seus porta-aviões e milhares de aeronaves de combate? Servia para manter o poder do dólar, hoje, já nem para isso.

Empregaram na escalada no Afeganistão 775 mil homens, levaram 2.500 mortos para serem enterrados em casa e mais de 20 mil feridos ao custo, em dólares, de um trilhão. Tudo isso por satisfazer os senhores da guerra que habitam o Pentágono.

Vingança pelo 11 de setembro

O Talibã surgiu no início dos anos 1990 entre o povo pashtun, que habita o norte do Paquistão e do Afeganistão, separados por uma fronteira artificial criada pelo colonialismo britânico. Povo que lutou contra os ingleses, contra a ocupação soviética e continua lutando contra as tropas imperialistas lideradas pelos Estados Unidos. 

Surgiu patrocinado pela Arábia Saudita para levar a linha fundamentalista sunita para o islamismo na região; tomaram o poder em torno de 1995 e permaneceram até 2001, quando foram depostos pelas tropas da OTAN, lideradas pelos Estados Unidos.

O analista Tariq Ali, em matéria publicada na Diálogos do Sul, relata que quando o governo tinha como aliado os russos, o Estado era laico, a universidade comparável às melhores do mundo e as mulheres desfrutavam de plena liberdade. 

Leia também: Tariq Ali | 20º aniversário da “Guerra ao Terror” terminou com derrota previsível para os EUA

Com a chegada dos talibãs ao poder, passaram a ter três inimigos: o fundamentalismo do Talibã e da Al-Qaeda e das tropas da OTAN, lideradas pelos Estados Unidos. Difícil para elas identificar o pior. Agora estão felizes por ter um só. Este não as estupra, são seus próprios filhos e poderão ser domesticados.

O Talibã abrigou a Al-Qaeda e seu fundador e líder, Osama Bin Laden. A organização cresceu impulsionada pelos Estados Unidos, financiando, treinando e armando essa gente para atuar desestabilizando a Síria, como fizeram antes com a Líbia.

Após o 11 de setembro de 2001, ataque às torres gêmeas de Nova York, os Estados Unidos acusaram o grupo de serem os autores do atentado e promoveram a invasão. Não esqueçam que a Al-Qaeda foi uma criação dos serviços de inteligência da Arábia Saudita e dos Estados Unidos.

Na verdade, o milionário saudita nunca lá esteve. Foi capturado dia 2 de maio de 2011, numa casa de segurança na localidade de Abbottabad, no Paquistão, onde vivia desde, pelo menos, 2005, quando ficou pronta essa casa. 

Em seguida, informaram que seu corpo foi atirado ao mar. Queima de arquivo ou protegendo um velho amigo e cúmplice? Como ninguém viu o corpo, vale especular. Queima de arquivo, com certeza, pois levaram farto material. Documentos, discos rígidos, pendrives, livros…

Resumo disso tudo nos leva a uma única conclusão: a construção da paz e do desenvolvimento agora é possível. Somente livres das tropas de ocupação dos Estados Unidos é que poderá haver paz no mundo. A agressividade do expansionismo imperialista obriga os demais países a ingentes esforços em defesa. Mas essa é a índole do Império. É como o escorpião na história com o sapo.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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