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Thatcherismo põe a Europa em risco de desmembrar-se

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

thatcherRoberto Sávio*

Agora somos todos thatcheristas. A avalanche de artigos elogiosos sobre a ex primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, publicados depois de sua morte dia 8 de abril, e um bom indicador de como todos nos convertemos em thatcheristas sem perceber.

Somente aqueles que já não desfrutam de seus anos jovens advertem o quanto sua obra de governo mudou o mundo e a política a tal ponto que seria mais correto chama-la de “uma grande revolucionária”.

Para apreciar a dimensão da mudança, recordemos que imediatamente depois da Segunda Gerra Mundial, outros dois grandes acontecimentos ocorreram:  o fim do colonialismo e a emergência do Terceiro Mundo, e a formação de um poderoso bloco socialista, encabeçado pela União Soviética, mas com brotos na África, América Latina e Ásia; por exemplo, Angola, Cuba e China.

Ambos acontecimentos tiveram um efeito aliciador nos setores políticos e filosóficos identificados com o capitalismo, conduziram à era da socialdemocracia, e inspiraram o desígnio de estabelecer uma ordem internacional com base na cooperação e a justiça social.

Isso levou a que em 1974 a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse por unanimidade um plano de ação para um novo sistema de relações internacionais que permitiria aos países subdesenvolvidos regular e controlar as atividades das corporações multinacionais, medidas para reduzir a brecha entre o Norte e o Sul e outras disposições que hoje seriam consideradas como fantasiosas.

Propiciava-se a cooperação internacional como fundamento das relações entre os Estados e se convocou a cúpula Norte-Sul que se celebrou em Cancún em 1981.

Tatcher assumiu o poder em 1979, e em Cancún conheceu a Ronald Reagan, eleito presidente dos Estados Unidos uns meses antes da cúpula. Foi a primeira parova internacional para Reagan, que eludiu com desagrado qualquer diálogo sobre cooperação internacional.

Instigado e respaldado por Thacher, simplesmente disse que Estados Unidos tinham se convertido em um grande país não graças a ajuda, mas através do esforço de milhares de indivíduos que construíram suas ferrovias, fábricas e oficinas. Sustentou que Washington não estabeleceria acordos internacionais por considera-los contrários a seus interesses e abraçou a fórmula de “comercio em vez de ajuda”.

A partir desse momento, a “revolução de Reagan” mudou o mundo. A ONU foi marginalizada e se travou uma implacável campanha contra o conceito de sociedade e de Estado.

Tacher declarou gloriosamente: “A chamada sociedade não existe. Existem homens e mulheres de forma individual, e existem as famílias”.

Reagan se especializou em dará respostas simples a questões complexas. A contaminação? “As árvores contaminam, não as fábricas”. Thatcher proclamou: “vangloriemo-nos de nossa desigualdade”. Catalogava Nelson Mandela como “terrorista”, e mais adiante elogiaria ao ditador Augusto Pinochet como “defensor da democracia”.

Pouco a pouco, os dois partidos conservadores, o Republicano estadunidense e o Conservador britânico, sofreram uma metamorfose antropológica. Deixaram atrás o “conservadorismo compassivo”, e se embelezaram com uma ideologia que exaltava a riqueza, a aceitação da injustiça como um fato da vida, a demonização do Estado e a divinização do mercado, e a convicção de  que a existência social, os sindicatos e os demais instrumentos de equidade eram improdutivos e desnecessários.

Reagan despediu os controladores aéreos. Thatcher desmantelou os sindicatos dos mineiros do carvão e proclamou: “Marks e Spencer (a cadeia de supermercados) derrotaram a Marx e Engels”. Reagan deixou os Estados Unidos com um pesado déficit e uma crescente desigualdade. Quando Thatcher ascendeu ao governo o nível de pobreza registrava nove por cento, quando o deixou tinha aumentado a 24 por cento.

Thatcher e Reagan abriram o caminho para a legitimação dos aspectos menos sociais dos indivíduos e da política: o egoísmo, a ostentação do poder e o status, e a crença de que os que mais ganham são os melhores. O diretor executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, fechou a boca de um acionista em um debate dizendo-lhe: “tenho razão por sou mais rico que você”.

Este tipo de cultura, desconhecida antes de Thatcher e Reagan, engendrou os Madoff, os Berlusconi e os Murdoch de nossos dias.

Com o passar do tempo, a maré cresceu até causar a perda de identidade da esquerda, neutralizada pela prolongada campanha para um capitalismo desenfreado como a única solução.

Thatcher lutou eficazmente para que a Grã Bretanha obtivesse privilégios especiais na Comunidade Econômica Europeia, semeando as sementes que colheram os céticos do euro que agora condicional o governo de Davd Cameron.

Seus predecessores John Major e Tony Blair, e o próprio Cameron, empreenderam ações – desde a guerra no Iraque até a extrema austeridade atual -, que não seriam imagináveis sem o legado de Thatcher.

O sonho de uma Europa unida está em sério perigo. Não há solidariedade entre Europa do Norte e Europa do Sul. Os interesses nacionais se estão impondo sobre os comunitários, tal como está ocorrendo no plano mundial. O fato é que não há valores comuns capazes de consolidar a cooperação internacional.

Na atualidade não dispomos de governo internacional, no sentido real da palavra. A ONU foi confinada aos temas do desenvolvimento. O mundo não é capaz sequer de tomar medidas concretas para  neutralizar a mudança climática, que constitui uma ameaça real para a humanidade.

Ao contrário, muitas companhias esperam com entusiasmo o degelo do Ártico, pelas perspectivas que se abririam para o trânsito e a exploração de minerais e hidrocarbonetos.

As finanças estão fora de controle e a desigualdade é escandalosa. Em 2012, o capital apropriado pelos 100 indivíduos mais ricos do mundo cresceu em 240.000 milhões de dólares, uma soma que bastaria para resolver os problemas da pobreza global.

Não obstante, não se escuta nem uma só voz que peça a redistribuição desse lucro descomunal. Dado que essas 100 pessoas são já enormemente ricas, não sofreriam demasiado si pagassem um imposta sobre os lucros de 75 por cento.

O presidente François Hollande, ao tentar aplicar esta ideia equitativa na França, converteu-se em objeto de escarnio.

O desastre financeiro a submergido a mais de 100 milhões na pobreza e, segundo Eurostat, o desemprego entre os jovens europeus chegou em 2012 a 22,4 por cento.

Por que se tolera tudo isso? Por que não há uma reação verdadeira? Por que todos nos tornamos thatcheristas.

*Roberto Sávio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS e publischer de Other News, para Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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