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Tia Maria: A linguagem das balas (ou a paz dos cemitérios)

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M (*)

G_EspinozaFinalmente, o governo peruano optou por enfrentar os conflitos sociais com as armas na mão. Deu assim, desse jeito, curso a um processo incerto. Todos sabem quando e como começou, mas ninguém sabe quando, nem como acabará.

Grave erro, sem dúvida, que transtorna todos os valores da análise política e leva a confusão a muitíssima gente.

As declarações de Keiko Fujimori advogando pelo diálogo e a suspensão indefinida do projeto Tia Maria: ou as de García condenando “o uso da violência armada contra o povo, parecem extraídas de uma série de ficção.

El lenguaje de las balas (o la paz de los cementerios)1Agora as expressões mais turvas da reação se dão ao luxo de dar lições de civismo, ponderação, equanimidade e bom senso.

Que isso aconteça não constitui nenhuma lição de proveito para os cidadãos. Pelo contrário. Só serve para que a desorientação se propague e as pessoas não saibam quem realmente representa os verdadeiros interesses do país.

O tema de fundo é certamente complicado. Tratasse de definir a execução, ou a morte, do projeto minerário “Tia Maria”, que – implantado no Vale de Tambo, na região de Arequipa – despertou a ira da população.

Está claro que a responsabilidade pelo assunto é do governo de García, que entregou a concessão à Southern apesar de os estudos ambientais desaconselharem severamente qualquer atividade minerária na região.

Mas isso já não importa a ninguém. O conflito se desenvolveu e amadureceu de tal modo, que não tem sentido saber quem deu o pontapé inicial neste obscuro partido. O que importa é o que está acontecendo agora, e o que poderá acontecer no futuro imediato e depois mais para a frente.

Está prevista para os dias 27 e 28 de maio uma Greve Regional em todo o sul peruano. Sete grandes cidades somaram-se em massa à ação, convencidas de que a causa dos moradores é justa. Mas ela ganhou ainda mais adesões.

Em diversas cidades do norte e do oriente houve manifestações e outras demostrações de ativa solidariedade com aqueles que – ao recusar o investimento minerário –  questionam a contaminação das águas e da atmosfera, assim como a destruição da flora e da fauna silvestre.

E ninguém precisa analisar sérios estudos ambientais para entender isso. As pessoas têm a seu lado a expressão viva do que vai acontecer: em 1953 o vale contíguo – Moquegua – era um prodígio da natureza: plantios, colheitas, pastagens, gado, produção leiteira, agricultura boyante e biodiversidade eram o denominador comum em uma zona na verdade paradisíaca que tive a oportunidade de conhecer ainda menino.

Depois, veio a Southern – a mesma empresa de “Tia Maria” – e destruiu tudo. Do vale, só restaram valas e estradas em espiral. Foi extraído o cobre de Toquepala em “vala aberta” e desapareceu todo cultivo. O vale se extinguiu, ao mesmo tempo em que o valioso mineral saiu do país para nunca mais voltar.

Os “extrativistas” – unidos aos exportadores de um ou outro tipo – bateram palmas, mas foi a empresa que levou as jóias da coroa, enquanto para o Peru ficou apenas o valor dos impostos e o cheiro da pobreza transformada em desolação.

Também naquele episódio houve mortos. Os agricultores do vale de Moquegua opuseram corajosa resistência. E, a partir dali, os operários mineiros de Toquepala uniram-se à luta contra o poder financeiro do consórcio, beneficiado naquela época pela ditadura de Odría.

Quem poderá pedir aos agricultores de Tambo que confiem, agora? Quem poderia lhes garantir que seu vale permanecerá intocado enquanto eles mesmos poderão acumular fortunas graças ao mineral obtido mediante uma “exploração limpa”? Quem, enfim, poderá desempenhar o papel de “fiador” para avalizar essa mentira?

O Presidente Humala diz que o Estado Peruano não pode “denunciar” e “descumprir” o contrato assinado com a Southern, e que, por isso, está “obrigado” a cumpri-lo. Mas não fundamenta nada nem deslinda as responsabilidades. Não explica às pessoas as possibilidades e alternativas. Não mostra a cara para responder às inquietações de milhões de peruanos que se mobilizam em torno do assunto.

Prefere esconder-se atrás da tela da tevê, ou falar segurando um microfone, ou ditar disposições que falam no uso da força, contra quem protesta ou reclama.

A paz dos cemitérios parece ser a opção do regime.

Esta opção bem poderia ter sido extraída dos planos de gestão de Alan García, ou dos arquivos e canteras do fujimorismo, cujas mãos manchadas de sangue agitam-se hoje pedindo tranquilidade e paz.

Mas esta paz é incompatível com a demanda dos povos, porque aparece desligada de um conceito que a complementa de modo natural: justiça.

Justiça para o povo, para o vale, para a agricultura, os cultivos e a biodiversidade. Justiça para os de baixo, aqueles que apenas têm a força de suas mãos para semear e arar a terra, e não poderosas máquinas de aço que levam o ouro, a prata e o cobre.

Em torno do tema de “Tia Maria” falou-se de uma trégua de 60 dias. Esta foi superada pela realidade. O próprio governo esqueceu-se dela porque não fez nada para debater com os moradores, e sim muito para reprimir sua vontade de luta.

Criou-se, sob a tela da violência, um cenário próprio para todo tipo de provocações. Qualquer interessado em fomentar o caos, e atrair as mais variadas expressões do terror pode ativar um cartucho de dinamite em Tarata ou em qualquer lugar, em Lima ou em qualquer outra cidade. E qualquer aventureiro pode pedir o que saia de suas entranhas em um acúmulo de ódio contido, ou de raiva alimentada.

As paixões, no entanto, não são boas conselheiras. Há muitos anos – não se esqueçam – um ativo lutador caucásico nos disse: “é preciso ter sempre a cabeça fria e o coração ardente”. Lembram-se?

(*) Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru, maio de 2015

Tradução de Ana Corbisier


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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