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Tiros: sobre uma biografia de Getúlio Vargas

Fernanda Pompeu

Tradução:

Fernanda Pompeu*

Getúlio Vargas (1882-1954) gostava tanto do poder que ao saber de um golpe que o destituiria da presidência da República preferiu dar um tiro no peito. Deixou na sua carta-testamento a célebre frase: Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Foi o fim de um homem que passou, no total, dezoito anos no poder. Com a curiosidade de ter saído como ditador e voltado pelo voto popular. Coisas de Brasil. O enterro de Getúlio levou uma multidão às ruas cariocas. Massa compungida em lágrimas e suspiros.
O fato é que não dá para entender o Brasil do século XX sem conhecer a era Vargas. Ciente disso, estou me deliciando com a biografia Getúlio, escrita por Lira Neto. Ela é documentada e contextualizada. Mais importante ainda, não censurada e muito bem escrita.
TirosNo livro há episódios seminais da política brasileira e mais de uma centena de personagens que ditaram caminhos que nos impactam até hoje. Entre eles, está Luís Carlos Prestes (1898-1990), ora inimigo, ora simpatizante de Vargas.
Entre uma sucessão vertiginosa de lutas ideológicas visando o Palácio do Catete, me chamou a atenção o bombardeio das forças governistas contra o Quartel da Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Isso por ocasião do levante comunista-tenentista liderado por Prestes.
O ano era 1935. Os sublevados militares tinham como meta derrubar Getúlio Vargas. Acreditavam que o povo sairia às ruas contra o ditador e a favor de um governo popular. Só que não aconteceu nada disso.
A massa não saiu às ruas. O movimento foi rapidamente anulado. Getúlio pôs na cadeia mais de sete mil presos políticos, sendo que muitos seriam torturados e mortos.
Entre os mortos, passo a palavra para Lira Neto: “Dez cavalos de raça, incluídos alguns campeões nacionais, jaziam entre poças de sangue.” É que o Clube Hípico ficava colado ao Quartel bombardeado.
Ao ler essa passagem pensei nas tantas anônimas vítimas das revoltas armadas para tomar o poder. Vítimas que seguem em todo o mundo até hoje. Daí pergunto: O poder vale tanto a pena?
*Dedico este post ao meu pai, morto no 10 de novembro último. Entre as muitas coisas que me ensinou está o amor à História do Brasil.
*Fernanda Pompeu é colaboradora de Diálogos do Sul. Imagem: Régine Ferrandis.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Fernanda Pompeu

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