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Tráfico de fentanil nos EUA é controlado por crime local, não do México, aponta investigação

Distribuição é realizada por grupos locais, que são encarregados das redes de distribuição em cidades e regiões e ficam com a maioria dos lucros
David Brooks
La Jornada

Tradução:

Reduzir a epidemia da vício em fentanil nos Estados Unidos através de uma estratégia enfocada na interdição do tráfico de drogas a partir do México ignora o fato de que o negócio está controlado por agrupamentos criminosos estadunidenses dentro de seu próprio país, e a distribuição é realizada por grupos criminosos locais em diversas cidades, concluem especialistas e até investigações do governo federal em Washington.

A atual narrativa pública nutrida por vários meios, autoridades federais, legisladores e outros políticos é que o México é quase exclusivamente culpado das mais de 70 mil mortes por overdose de fentanil, mas os cartéis mexicanos são só uma parte de um comércio ilícito de fentanil que é controlado, em grande parte, por estadunidenses encarregados das redes de distribuição em cidades e regiões e aqueles que ficam com a maioria dos lucros.

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Ninguém duvida que reduzir a oferta de fentanil que cruza a fronteira do México aos Estados Unidos poderia ter algum impacto nos severos problemas que está provocando essa substância, mas especialistas concluem que isso não seria suficiente para enfrentar a crise. 

“Minhas investigações me levam a entender que isto [do fentanil] é ainda um sistema em transição”. explica Peter Reuter, professor distinguido da Faculdade de Criminologia da Universidade de Maryland, em entrevista ao La Jornada. Reuter, reconhecida autoridade que escreveu extensamente sobre os mercados ilícitos de droga, advertiu que ainda há muita coisa desconhecida sobre o comércio ilícito do fentanil. 

Distribuição é realizada por grupos locais, que são encarregados das redes de distribuição em cidades e regiões e ficam com a maioria dos lucros

wirestock/Freepik
Lei de drogas na era do fentanil precisa ser revisitada, apontam especialistas (Pílulas sobre notas de dólares, imagem ilustrativa)

“O que sei é que por alguns anos a heroína importada do México era distribuída nos Estados Unidos por organizações com laços próximos às organizações de narcotráfico mexicanas. O cartel de Sinaloa ganhava dinheiro da venda por atacado dentro dos Estados Unidos e às vezes se aproximava do mercado de varejo de algumas cidades”, comentou na entrevista. “Com o fentanil, creio que há mais distância, ou seja, eles [os cartéis mexicanos] vendem ao mercado estadunidense a partir do outro lado da fronteira e depois já não estão envolvidos”. 

Esta análise parece ter sido confirmada neste mês pelo próprio procurador geral dos Estados Unidos, Merrick Garland, quando anunciou as acusações formais contra 28 narcotraficantes (incluindo os chapitos), quase todos vinculados ao cartel de Sinaloa. “Os traficantes do cartel transportam fentanil do México aos Estados Unidos onde é vendido por atacado a outras organizações criminosas” dentro deste país, declarou. A Sentencing Commission, agência federal independente, reportou em 2022 que 86.2% dos presos por vendas ilegais de fentanil eram cidadãos estadunidenses.

Em suas investigações, Reuter descobriu que o tráfico de fentanil nos Estados Unidos varia muito em cada cidade. Em algumas cidades são quadrilhas criminosas locais que antes vendiam heroína, mas que agora se dedicam ao comércio de fentanil, enquanto em outras são traficantes novos. Além disso, há diferentes organizações criminosas neste mercado estadunidense, onde o fentanil substituiu a heroína no leste do país, mas muito menos no oeste.

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A Comissão para Combater o Tráfico de Opioides Sintéticos, entidade oficial federal presidida pelo senador republicano ultraconservador Tom Cotton e pelo deputado democrata David Trone, junto a representantes do Congresso, da DEA, do Pentágono, da comunidade de inteligência e muitas outras agências federais, concluiu em um informe em 2022 que grande parte dos lucros pela venda de fentanil nos Estados Unidos não regressa aos cartéis no México, mas fica em mãos das organizações criminais locais estadunidenses. “O ingresso total das exportações de fentanil aos Estados Unidos provavelmente é entre 700 milhões a um bilhão de dólares”, calculam os autores do informe da Comissão. Para pôr isso no contexto, o mercado de todas as drogas ilícitas nos Estados Unidos – incluindo o fentanil, heroína, cocaína e outras – é calculado em mais de 100 bilhões de dólares anuais. 

Por outro lado, é muito difícil monitorar o tráfico de fentanil. A Comissão calculou que só são requeridas de 3 a 5 toneladas métricas de fentanil puro para satisfazer o consumo de opióides ilícitos nos Estados Unidos – é um montante que cabe em um só contêiner de carga. Tal como aponta Reuter, os Estados Unidos importam mais de milhão de toneladas métricas de abacate do México a cada ano, portanto a Comissão “reconheceu a impossibilidade de reduzir a disponibilidade de opioides sintéticos ilegais através de esforços focados só na oferta”.

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Reuter e seu colega, o professor Jonathan Caulkins, da Universidade Carnegie-Mellon, escreveram um artigo na revista científica Scientific American onde concluem que “temos que reconsiderar as metas de cumprimento da lei na idade do fentanil”. Avaliam que a estratégia atual só deixa o “cumprimento da lei para o fracasso”. Agregam que “enquanto há apelos para intensificar condenações máximas pelo fornecimento de fentanil e o controle da fronteira, é difícil imaginar que estas medidas consigam reduzir a oferta no longo prazo”. 

No lugar disso, argumentam a favor de medidas para reduzir a corrupção gerada pelo tráfico de drogas, perseguir os vendedores na Internet, os quais costumam alcançar usuários com pouca experiência, e suprimir “os dealers e os mercados ao ar livre” que são responsáveis diretos por esta crise do fentanil. 

Os dois especialistas enfatizam que “revisitar a aplicação da lei de drogas na era do fentanil deve ser uma discussão coletiva conduzida com mentes abertas e poucas condições prévias”.

David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para a Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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