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Tragédia climática nos EUA: Noroeste arde aos 50 graus, oeste enfrenta grave seca e Califórnia vê risco iminente de incêndio

Rascunho do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU adverte que milhões no mundo enfrentam um futuro de fome, seca e doença já que “a mudança climática mudará fundamentalmente a vida na Terra"
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O noroeste dos Estados Unidos é a notícia principal ao registrar temperaturas sem precedentes, enquanto uma seca põe cada vez mais em perigo uma das principais zonas agrárias do país; jovens ocupam as entradas à Casa Branca para insistir que o presidente cumpra com suas promessas e não desista de incluir fundos em massa para enfrentar e reduzir a crise climática.

Embora todos os políticos conscientes que acreditam na ciência, incluindo o presidente Joe Biden, reconhecem que a mudança climática é “uma ameaça existencial” que necessita ser enfrentada imediatamente, ambientalistas lembram que os políticos passaram os últimos anos declarando essas coisas, sem tomar as ações necessárias para reverter o futuro que se anuncia com cada notícia sobre catástrofes climáticas, e cada nova investigação não apenas confirma, como dispara alarmes mais urgentes sobre a crise planetária que se aproxima.

Durante os últimos dias, ao se registrarem extremos do clima no noroeste do país — com temperaturas chegando e superando os 46 graus centígrados em Portland, Oregon e Seattle e regiões do Canadá com 49,5 graus centígrados, zonas em que as temperaturas geralmente oscilam em torno dos 21 a 23 graus nestas épocas do ano — para os meios já é quase impossível não incluir a frase “mudanças climáticas” ao reportar a notícia. Isso é novidade nos últimos 4 ou 5 anos e isso levou o tema da mudança climática ou aquecimento global para o centro de debate nacional. 

“Este é o início de uma emergência permanente”, declarou o governador do estado de Washington, Jay Inslee, em entrevista à MSNBC, agregando que o centro do problema “é a mudança climática”.

Rascunho do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU adverte que milhões no mundo enfrentam um futuro de fome, seca e doença já que “a mudança climática mudará fundamentalmente a vida na Terra"

White House
Paradise, na Califórnia, ficou totalmente devastada após incêndio ocorrido em 2018

Os efeitos da onda de calor no noroeste incluíram um incremento de pacientes em emergências dos hospitais, apagões locais, o fechamento de algumas escolas e negócios para proteger os trabalhadores, e fenômenos como cabos derretidos no transporte público e rupturas em autopistas. Foi preciso até suspender as competições de atletismo para a equipe olímpica estadunidense, em Eugene, Oregon, por causa do calor. 

“Como não existe uma ocorrência do evento que estamos experimentando no registro climático local, é algo desconcertante não ter uma analogia com que trabalhar”, declarou o escritório de Seattle do Serviço Nacional do Clima.

Por sua vez, o oeste do país continua sob condições, algumas extremas, de seca. Mais de 58 milhões vivem na zona de seca, provocando temores de falta de água e incêndios na Califórnia, Arizona e outras partes do sudoeste. Especialistas temem que esse ano poderá ser pior que 2020, o pior já registrado em número e extensão de incêndios. 

Na Califórnia, onde são produzidos dois terços das frutas e nozes, e mais de um terço das verduras dos Estados Unidos, a seca prolongada e alimentada pela mudança climática poderia ter consequências dramáticas para o país. Produtores já estão vendendo água em lugar de cultivar no Vale Central, o coração da agroindústria do estado, reporta o New York Times.

Enquanto o oeste arde, o Congresso e a Casa Branca estão na sua costumeira dança em câmera lenta, onde um setor republicano conseguiu que Biden e os democratas reduzam os fundos propostos para combater a mudança climática em troca de apoio para a ambicioso projeto de lei do presidente sobre infraestrutura, provocando fúria entre setores progressistas dentro e fora de Washington, todos os quais agora estão mostrando o forno no noroeste como evidência de seu argumento de que o futuro é agora. 

Um crescente movimento ambientalista de jovens está impulsionando uma pressão massiva sobre a cúpula política e econômica para abordar o tema durante os últimos anos, gerando uma mudança dramática no debate político, nacional e internacional. 

Como parte disso, esta semana ambientalistas jovens de diversas partes do país convocados pelo Sunrise Movement, carregando faixas que proclamam “nosso futuro não é negociável”, ocuparam as entradas à Casa Branca declarando que é inaceitável qualquer acordo sem incorporar medidas extensas para enfrentar a mudança climática. “Biden, covarde — tens que lutar por nós”, advertiram.

O rascunho mais recente do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da Organização das Nações Unidas adverte que milhões no mundo enfrentam um futuro de fome, seca e doença já que “a mudança climática mudará fundamentalmente a vida na terra nas próximas décadas”.

Biólogos calculam que 35% das plantas e animais poderiam deixar de existir até 2050 como resultado da mudança climática. 

Bill McKibben, reconhecida figura ambientalista nacional, fundador da campanha 350.org e colaborador do The New Yorker sobre as alterações climáticas, afirma que pouco a pouco se reconhece por empresas, bancos e até a Agência Internacional de Energia que chegou o momento de travar qualquer novo investimento em hidrocarbonetos para atingir o objetivo de limitar o aumento do aquecimento global a 1,5 graus Celsius marcado nos acordos de Paris, sublinhando que “a velocidade [em fazer essa transição] é a única coisa que nos dá esperança de resolver a equação climática”.

David Brooks, Correspondente do La Jornada, Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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