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Traição e sangue naquele dia terrível

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Jorge Mansilla Torres*

golpe-1971A Óscar Prodencia e “Meche” Urriolagoitia,
combatentes antifascistas. In Memoriam.

De repente, a sorte do governo do general Juan José Torres ficou selada em torno das 18:30 horas do sábado 21 de agosto de 1971, quando, no fragor dos combates nas ruas entre a população de La Paz e a hidra reacionária, a Força Aérea Boliviana (FAB) se somou à assonada fascista rompendo um pacto de defesa que tinha acordado com a Central Operária Boliviana (COB).

A essa hora, todos os regimentos do país já tinham aderido à conjura contra o governo revolucionário de Torres. Todos, menos o regimento “Colorados de Bolívia” que, sob o comando do major Rubén Sánchez, movimentou suas tropas para unir-se ao povo nas ruas de La Paz.

Às 18:20, dois aviões Mustang irromperam sobre a cidade e no segundo de dois voos rasantes metralharam os civis localizados no cerro Laikaq’ota. Quando chegou a saraivada de balas esses combatentes estavam cantando o hino pátrio, celebrando, trágica e paradoxalmente, que a FAB tivesse saído para defender o regime de Torres em cumprimento do pacto “Aguilita Voladora” acertado em abril daquele ano com o líder operário Lechín Oquendo.

A embaixada dos Estados Unidos, a colônia alemã manejada pelos irmãos Gasser, o MNR de Paz Estenssoro e Cyro Humboldt, FSB de Gutiérrez e Valverde Barbery, o “Exercito Cristão Nacionalista”, os paramilitares às ordens do nazista Klaus Barbie e os meliantes do bando “Os Marqueses”, entre outros, segundaram raivosamente aos exército na repressão oportunista contra o povo inerme.

Sem partido político próprio, com a Assembleia Popular alheia a seu projeto progressista, com a força aérea ja do outro lado e, enfim, com todas as guarnições militares contra, Torres entendeu, por fim, e tarde, que o povo era seu primeiro e único bastião confiável. E que estava sendo arrasado.

Às 7:10 da noite, o presidente pronunciou seu último discurso por rádio Illimani, a emissora do Estado, cabeça de uma rede de 25 rádios sindicais do país que transmitiam em cadeia durante esse sangrento dia.

No limbo das coisas consumadas, Torres disse tudo e nada: “Aos operários, camponeses e estudantes que combatem denodadamente contra o golpe falanjo-gorila-movimentista, vai toda minha gratidão. A vocês eu digo … que como presidente dos bolivianos me sinto orgulhoso da valentia e decisões dos trabalhadores, universitários e soldados revolucionários. Avante em nome d pátria povo heroico, invencível e imortal. Viva Bolívia”.

Esse dia, até essa hora, tinham sido mortos por tiros nas ruas e praças de La Paz 97 cidadãos e outros 562 estavam feridos, segundo dados oficiais informados depois pela Cruz Vermelha.

Às 20:16 desse sábado, os locutores confirmaram, entre muitas baixas, a morte do sacerdote terceiro-mundista Maurício Lefebvre, dessangrando em uma esquina da rua Capitán Ravelo, depois de ter sido ferido no perito por franco-atiradores da Falange e do MNR.

Nos dias seguintes, já com a tirania fascista encima, faleceram outros 16 patriotas que não puderam ou não quiseram chegar aos hospitais vigiados pela milícia fascista triunfante. Os paramilitares comandados pelo falangista Andrés Ivanovich se colocaram nas portas dos centros de saúde e das embaixadas para impedir, metralhadora em mãos, o ingresso das pessoas em apuros de vida ou morte.

A Plaza Murillo, que está em frente do Palácio do Governo, foi ocupada as 8:10 da noite por tanques e carros de assalto do regimento “Tarapaca” de Viacha. Outras 42 patrulhas de infantaria colocaram suas metralhadoras nas principais esquinas de La Paz.

O presidente Torres abandonou o Palácio Quemado às 20:45, escoltado por três soldados “colorados” e dois civis. Não se sabe onde foi, mas o assassinaram na Argentina, depois de tê-lo torturado, dois anos depois.

Radio “Illimani”, a emissora oficial instalada em um edifício vizinho ao despacho presidencial, que iniciou essa transmissão de emergência as 10:00 da manhã, silenciou sua voz às 9 da noite, quando o povo e seu governo tinham sido derrotados.

Antes de sair da “Illimani” para aquele inferno de vingança e morte das ruas, aqueles radialistas se abraçaram e um deles assim se despediu da audiência: “Caiu a noite fascista sobre a Bolívia. Nós nos retrocedemos para nos reintegrar  às lutas pela libertação. Até a vitória”.

Lembro-me deles com emoção e gratidão: Gonzalo Otero (morreu no desterro em 1972 por causa das torturas que lhe infligiram no cárcere de Chonchocoro), Juan Carlos Gallardo (falecido há 12 anos), Andrés Soliz Rada, Washington “Pipo” Estellanos, Norma Sevillano e outros dois companheiros radialistas.

Naquela vez, eu tinha assumido como diretor emergente dessa radioemissora, chamada hoje “Patria Nueva”,  e durante todo o dia coordenei as transmissões com a palavra sublevada e na esperança da vitória popular e, no final, com a dor da derrota e a angustia de retornar à clandestinidade, aos extremos  do acuado, como já me havia ocorrido em julho e agosto de 1965, depois de um massacre de mineiros na chamada “Pampa Hilbo”, de Oruro, que gravei “in situ” e retransmiti, como denúncia anti-imperialista, por Radio “Vanguardia” de Colquiri, em que era diretor.

Em fevereiro de 2006, em um ato diante de jornalistas, Evo Morales – que um mês antes tinha assumido democraticamente a presidência da Bolívia – disse que naquele sábado 21 de agosto de 1971, ele estava pastoreando lhamas e ovelhas nas montanhas de Urinoca, Oruro, e “escutei toda aquela transmissão triste e valente em um radinho de transistores que tinha”. Diante da imprensa Evo confessou que “esse dia eu me disse que também seria locutor”.

A tirania fascista assim inaugurada se manteve sete anos no poder. Pobre república. Onde estão agora os canalhas desse tempo sinistro, há 42 anos?

*Poeta, jornalista e diplomata boliviano, colaborador de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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