Pesquisar
Pesquisar

Triunfo conquistado nos EUA não se chama Biden, mas sim a derrota do projeto neofascista

Óbvio que Biden não é a resposta ou solução, mas não “é igual”. Hitler, Franco, Pinochet, e toda a lista de fascistas não eram iguais a outros políticos
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

É correto, como argumentaram vários da esquerda no México e em outros países latino-americanos, que Joe Biden não é um político progressista e também que sua chegada à Casa Branca não vai modificar os objetivos básicos da política imperial dos Estados Unidos. Todo progressista crítico (ou seja, não liberal) nos Estados Unidos está de acordo. Mas esse não é o ponto. 

É uma pena que algumas partes importantes (com notáveis exceções) das forças de esquerda ou progressistas no México e de outros países latino-americanos simplesmente não tenham reconhecido e felicitado a luta de suas contrapartes nos Estados Unidos. Ainda pior, em alguns casos, declararam que, afinal de contas o ocorrido politicamente no norte “é igual” visto do sul (Advertência: aqui se repetem pontos da coluna da semana passada para argumentar algo muito simples: a luta dos povos pela justiça, pela dignidade e pela autodeterminação na conjuntura binacional e hemisférica requer a solidariedade em seu sentido mais amplo).

O que acaba de ocorrer política e socialmente nos Estados Unidos não pode ser entendido sem pôr no centro a luta contra o projeto neoliberal durante 4 décadas (igual em todo o hemisfério) e em particular o projeto neofacista encabeçado por Trump e seus cúmplices durante os últimos 4 anos. O triunfo conseguido não se chama Biden, mas sim a derrota de um projeto neofascista, e com isso se abre outra etapa da luta contra o neoliberalismo. Para as forças progressistas estadunidenses o triunfo eleitoral é apenas um passo necessário para continuar a luta pela democratização fundamental deste superpoder, que vem de longe e que ainda tem um longo caminho pela frente. 

Óbvio que Biden não é a resposta ou solução, mas não “é igual”. Hitler, Franco, Pinochet, e toda a lista de fascistas não eram iguais a outros políticos

Twitter / Reprodução
Biden representa algo diferente a Trump

Este triunfo se deve, em grande medida, a um mosaico de movimentos sociais progressistas em sua essência antifascistas e anti-neoliberais, incluindo o de “Black Lives Matter” – o maior movimento de protesto social da história do país – diversas organizações latinas e de imigrantes, ambientalistas, sindicalistas progressistas e toda uma gama de outras expressões, sobretudo as de novas gerações. A derrota de Trump em Georgia, Arizona, Nevada e outros estados chaves é fruto dessas alianças, e são a vanguarda na batalha contra o projeto neoliberal. Portanto, são os aliados objetivos de toda luta contra a direita neoliberal em qualquer parte do mundo. Ou seja, são todos nós.

Mais ainda, uma parte dinâmica desse movimento está encabeçado por mexicanos, centro-americanos, porto-riquenhos e outros caribenhos e sul-americanos entre outros imigrantes (como sempre ao longo da história deste país).  Ou seja, desta maneira, literalmente, somos todos nós. 

Os que insistiram que “dá na mesma”, perguntaram a um imigrante mexicano ou latino-americano se “dá na mesma” – entre o que os estava caçando e outro que está propondo legalizar a quase todos – ou aos que foram enfrentados por neonazistas e outros supremacistas com a benção do governo anterior, ou os trabalhadores que foram esmagados pela ofensiva contra eles?

Óbvio que Biden não é a resposta ou solução, mas não “é igual”. Hitler, Franco, Pinochet, e toda a lista de fascistas não eram iguais a outros políticos que colaboram em sistemas capitalistas. 

Biden representa algo diferente a Trump em múltiplas dimensões, mas em torno ao tema da migração, do meio ambiente, da justiça racial ou dos direitos dos trabalhadores é diferente, não porque é “boa onda”, mas sim porque os movimentos o estão obrigando a propor e promover essas mudanças em política como parte da luta que vem de baixo pela democratização a fundo do país. 

A história dos Estados Unidos, inclusive a de sua relação com o México e a América Latina, não é escrita só nas cúpulas, mas sim pelos que lutam em diferentes realidades pelos mesmos princípios de justiça, liberdade e dignidade. 

Isso era entendido por Ricardo Flores Magón junto com incontáveis outros mais; existe uma longa história dessa solidariedade, do “nós” aqui e lá. Como é que nos esquecemos disso? 

Playing for Change. The Times They Are a Changing:

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Veja também

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

LEIA tAMBÉM

milei-argentina-espanha
Ataques de Milei deixam relação diplomática Espanha-Argentina na corda bamba
Ebrahim Raisi (1)
Ebrahim Raisi, Robert Fico, Prigozhin e Gaza: dois pesos e duas medidas na imprensa internacional
Paris
Da Porte de la Villette à Bastille: uma jornada pela cultura e modernidade de Paris
Prancheta 55
Reino Unido decide expulsar mais de 50 mil pessoas solicitantes de asilo para Ruanda