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Trump na Europa: críticas nos dois lados do Atlântico

Revista Diálogos do Sul

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O presidente estadunidense, Donald Trump, que parece ser um ímã para as polêmicas, gerou controvérsias e críticas dos dois lados do oceano Atlântico durante sua recente viagem à Europa.

Martha Andrés Román*

Sua primeira parada foi Bruxelas, Bélgica, onde entre 11 e 12 de julho participou na Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança militar contra a qual o chefe da Casa Branca carregou com frequência pelo que ele considera descumprimento nas despesas da defesa.

O segundo destino do governante republicano foi o Reino Unido, um aliado essencial de seu país que Trump ainda não tinha visitado devido a cancelamentos, conflitos de programação e confrontos políticos.

Trump participou na Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)

Por último, o chefe de Estado dirigiu-se à Finlândia para um encontro com o presidente russo, Vladimir Putin, um encontro que a oposição democrata quis que ele suspendesse devido as acusações sobre a suposta interferência da nação eurasiática nas eleições estadunidenses de 2016.

 

As arremetidas contra os aliados

 

Poucos minutos antes de viajar, Trump escreveu no Twitter: “Preparando-nos para partir para Europa. Primeira reunião-OTAN. Estados Unidos está gastando muitas vezes mais que qualquer outro país para protegê-lo. Não é justo para o contribuinte norte-americano”.

Tal mensagem permitiu prever o tom que prevaleceria em seu encontro com os países membros da aliança militar, aos quais Trump continuamente pressiona para que cumpram já com um compromisso fixado para 2024, o de elevar as despesas em defesa a dois por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

Depois, Trump qualificou a Alemanha de ‘cativa da Rússia’, em rejeição ao projeto do gasoduto Nord Stream 2 que ligará diretamente a ambas as nações.

Angela Merkel, manifestou que sua nação é livre e independente e decide sua política sem ingerências externa.

Estamos protegendo a Alemanha e a França contra a Rússia, e um número de países fecharam um acordo sobre o novo gasoduto do mar Báltico, pelo qual Berlim pagará milhões e milhões de dólares ao ano, questionou.

Como resposta, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, manifestou que sua nação é livre e independente e decide sua política sem ingerências externas.

Assim, em uma reunião a porta fechada com os membros da OTAN, o estadunidense exigiu que os aliados dupliquem suas despesas de defesa a quatro por cento do PIB, e ao concluir a cúpula disse que após suas pressões recebeu promessas de incrementos.

Mas os líderes das outras nações não respaldaram a afirmação de Trump, e o presidente francês, Emmanuel Macron, expressou que os integrantes do bloco militar tinham reafirmado em um comunicado sua intenção de atingir o objetivo de dois por cento para 2024, e nada mais.

 

Reino Unido e protestos

 

Um balão gigantesco representou Trump como um bebê de cor laranja.

Em 12 de julho Trump foi ao Reino Unido, onde se organizaram numerosos protestos para deixar evidente ao presidente estadunidense que sua presença não era desejada devido a sua postura em temas como a imigração, as relações raciais, a discriminação das mulheres e as mudanças climáticas.

Trump chegou a reconhecer que não se sentia bem-vindo em Londres, onde dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas e debocharam utilizando um balão gigantesco que o representou como um bebê de cor laranja.

Durante sua visita de trabalho o presidente evitou praticamente a capital do país, ao reunir-se com a primeira ministra, Theresa May, em Chequers, o sítio dos governantes britânicos, localizada no condado de Buckinghamshire.

Dialogou também com a rainha Isabel II no Castelo de Windsor, em Berkshire, e depois passou o fim de semana em um clube de golfe de sua propriedade na Escócia.

Mas os protestos seguiram-no a onde queira que se dirigiu, pois além das gigantescas mobilizações em Londres, ocorreram manifestações perto de Chequers, nas proximidades do Castelo de Windsor e em vários lugares da Escócia.

Junto com essas demonstrações de rejeição, a visita de Trump ao Reino Unido foi marcada por uma polêmica entrevista concedida ao jornal The Sun que recebeu críticas tanto de políticos e meios britânicos como estadunidenses.

Trump acusou a primeira ministra Theresa May de destroçar o BREXIT.

Em suas declarações, Trump acusou a primeira ministra Theresa May de destroçar o BREXIT, e disse que a sua anfitriã ignorou seus conselhos sobre como endurecer o processo.

Acrescentou que o plano sobre o BREXIT poderia ter matado qualquer oportunidade de um acordo comercial com Estados Unidos, e chegou a apontar que o ex-titular de Relações Exteriores Boris Johnson, demitido por May nessa semana, ‘seria um grande premiê’.

No entanto, como já tem feito em outras ocasiões, uma vez que esteve em frente a frente com May na coletiva de imprensa sobre seu encontro bilateral elogiou à chefe de Governo e qualificou de especiais as relações entre os dois países.

Faça o que faça está bem comigo, manifestou a sua anfitriã em 13 de julho, menos de 24 horas após questionar suas políticas.

 

A tormenta em torno da Rússia

 

Nossa relação nunca foi pior que agora, mas isso mudou há umas quatro horas, indicou o chefe da Casa Branca

Em 16 de julho, entretanto, teve lugar sua reunião com Putin em Helsinki, Finlândia, onde os interlocutores abordaram temas como a proliferação nuclear, o confronto ao terrorismo radical islâmico e a crise na Síria.

Nossa relação nunca foi pior que agora, mas isso mudou há umas quatro horas, indicou o chefe da Casa Branca em uma coletiva de imprensa conjunta.

Os desacordos entre ambos os países são muito conhecidos e os discutimos amplamente, mas se vamos resolver os grandes problemas do mundo, devemos encontrar formas de cooperação, acrescentou.

Mas nenhum desses temas ou pronunciamentos foram os que se levaram os titulares do evento, mas o assunto da suposta interferência eleitoral russa e uma suposta cumplicidade com a campanha de Trump.

Na coletiva, ao ser perguntado se acreditava na comunidade de inteligência norte-americana quando falava de intromissão russa ou se confiava no chefe do Kremlin quando este negava a acusação, o estadunidense pareceu pôr em dúvida as descobertas das agências de seu país.

Uma pesquisa à que ele qualifica de ‘caçada de bruxas’, continua como uma tormenta que não dá mostras de aplacar-se.

‘Minha gente veio para mim, Dan Coats (diretor de Inteligência Nacional) veio a me ver e a outros, disseram que acham que é Rússia. Tenho o presidente Putin, ele só disse que não é Rússia. Direi isto: não vejo nenhuma razão pela que seria (…) Tenho confiança em ambas as partes’.

O senador republicano John McCain qualificou a coletiva de imprensa como ‘uma das atuações mais vergonhosas de um presidente estadunidense na memória’ e a líder da minoria democrata na Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, sugeriu que a Rússia tinha algo sobre Trump ‘pessoal, financeira ou politicamente’. Uma só e ominosa pergunta agora se cerne sobre a Casa Branca: que poderia fazer que o presidente colocasse os interesses da Rússia sobre os dos Estados Unidos?, manifestou o homólogo de Pelosi na Câmara Alta, Charles Schumer.

Ante a avalanche de condenações provenientes de todas partes do espectro político, o presidente achacou em 17 de julho suas criticadas declarações a uma equivocada mudança de palavras.

Em uma oração essencial disse ‘seria’ em lugar de ‘não seria’, a oração deveria ter sido: não vejo nenhuma razão pela qual não seria a Rússia (o país que interferiu nas eleições), expressou o governante, mas essa rara retificação não aplacou o debate.

Dois dias após a reunião com seu par russo, e em desafio aos questionamentos recebidos, Trump escreveu no Twitter que muitas coisas positivas sairão desse encontro.

Putin e eu discutimos muitos temas importantes. Levamos-nos bem, o que realmente molestou a muitos inimigos que queriam ver um combate de boxe. Grandes resultados virão!, destacou o chefe de Estado.

No entanto, o assunto das eleições de 2016, que marcou sua administração desde o início e é objeto de uma pesquisa à que ele qualifica de ‘caçada de bruxas’, continua como uma tormenta que não dá mostras de aplacar-se.

*Correspondente Chefe da Prensa Latina nos EUA


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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