Pesquisar
Pesquisar

Trump: O fascismo continua sendo o fascismo

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Por conta de uma análise nossa que circulou dia 23 de janeiro pela Internet, com título “Donald Trump e Adolf Hitler”, alguém comentou que isso era um anacronismo, uma comparação um tanto quanto arbitrária. Pois bem, vamos aprofundar um pouco no tema, inspirados nos primeiros decretos do novo Manda-Chuva gringo.

Néstor Francia*
03-trumpNaquela análise advertimos: “o discurso de posse de Trump recorda os inícios da liderança de Hitler na Alemanha de início da década de 1930, que logo receberia o qualificativo de “nazi”. Tal discurso se fundamenta em dois pilares básicos, o populismo e o patriotismo: Também dissemos que “Estamos afirmando que Trump reeditará Hitler? Claro que não. Mas a raiz de seu pensamento e de suas ações é a mesma”. Hoje examinaremos o tema de outras perspectivas, a das condições em que a Alemanha pré nazi tornou possível a estruturação definitiva do fascismo e sua comparação com as que acompanharam a eleição de Trump.
Já em junho de 2009, o então tesoureiro do estado de Indiana, Richard Murdock, assegurava que Estados Unidas se encaminha para a bancarrota e que o calibre do endividamento do país se assemelhava ao da Alemanha pré nazi e poderia conduzir a um destino similar. Murdock afirmou que “o povo da Alemanha em uma eleição livre elegeu o partido nazi porque fizeram grandes promessas de seu agrado, uma vez que estavam desesperados e na miséria. E porque isso? porque a Alemanha estava em bancarrota”. Não se pode dizer que Estados Unidos esteja em bancarrota, mas sim que sua economia tem já suficiente tempo em crise, para que os temores sobre o futuro tenham se incrementado.
Naquele momento, Murdock afirmou que ‘O partido do senhor Hitler era muito, muito bom na divisão apontando a um outro grupo” (Trump é também muito bom nisso: acusa os meios de comunicação, as pessoas de esquerda, artistas, fabricantes de produtos eletrônicos e de automóveis, imigrantes). Além disso: “Primeiro foram atrás de seus opositores políticos. Logo foram atrás dos aristocratas. Logo foram atrás dos sindicalistas. E, em última instância, claro, foram atrás dos judeus. Estes foram privados de seus bens, seus direitos, sua cidadania” (troque judeus por muçulmanos e tire suas próprias conclusões)
Por outro lado, o teórico dos ciclos econômicos, Harry Dent, declarou em 2014 que, de acordo com a teoria de “ondas Kondrátiev”, os anos 2015 a 2020 seriam um autêntico inferno para Estados Unidos. Dent previu uma forte queda na economia estadunidense para inícios de 2015 e 2017 e que o país se defrontaria com quatro desafios globais: a dívida privada e pública, os direitos à saúde, os métodos autoritários de governo e a contaminação ambiental. Segundo as pesquisas do economista, a crise econômica ocorreria entre os anos 2014 e 2023. E a crise já está ocorrendo. De maneira que não é aventureiro comparar a gravidade da situação com a que se vivia na Alemanha pré-nazi.
Hitler, no início dos anos 1930, já alinhado com o antissemitismo e o racismo, chegou a afirmar: “Compreendi que com o judeu não se pode transigir. Tudo ou nada. Decidi converter-me em político”. De novo, troque judeu por imigrante muçulmano, verá uma das principais razões pela que Trump se aventurou na política. Mais tarde, nas eleições de 1932, este discurso funcionou na depauperada sociedade alemã e Hitler obteve uma primeira grande vitória eleitoral, ante sala da ditadura que estava por chegar e da tragédia que se aproximava para toda a Europa. Os resultados das eleições de 1933 reforçaram os nazistas e consolidaram o papel de Hitler como líder do movimento. Logo o país inteiro, empresários, sacerdotes e militares incluídos, rendeu-se a seus pés.
Embora não pretendamos estabelecer um paralelo entre Hitler e Trump, porque realmente não há – são épocas e condições diferentes – sim, podemos afirmar que muitos elementos presentes na origem do nazismo estão também nesta etapa dos Estados Unidos a que alguns já chamam de “a era Trump”. Vejamos.

  • Busca do controle dos mercados internos (nacionalismo econômico) e expansão exterior (imperialismo);
  • Aumento do desemprego e da vulnerabilidade da classe operária e da pequena burguesia;
  • Acirramento das tensões sociais que fomenta o rechaço ao capitalismo e gera um clima de ameaça para os interesses da elite;
  • Ameaça de auge revolucionário e radicalização;
  • Fortalecimento do pensamento conservador reacionário, crítica a princípios do liberalismo e apoio a versões autoritárias de governo;
  • Criação de um passado “tradicional” idealizado;
  • Racismo e darwinismo social desenvolvido como justificativa da dominação colonial;
  • Nacionalismo exaltado, e criação e solidificação de uma identidade comum metafísica: geografia + biologia + caráter + tradição + história + repúdio ao estrangeiro;
  • Necessidade da força para garantir a ordem;
  • Questionamento das bases intelectuais do século XIX;
  • Forças que apoiam a ascensão nazista: atração da classe média (pequena burguesia) e outros setores desclassados;
  • Ideia de povo como unidade de história e destino;
  • Consagração da visão de povo como um “todo orgânico” ;
  • Fusão do indivíduo em um todo “nacional”;
  • Ciência e cultura “ária”, “italiana”, etc., diante da judia, bolchevique, etc. (muçulmana no caso de hoje);
  • Imposição de um subjetivismo ético e moral;
  • Progresso nacional como único critério de valoração;
  • Distinção racista;
  • Belicismo e projeto conservador;
  • Desprezo aos grupos “tarados”, enfermos, inválidos, anciãos, dementes (hoje: muçulmanos, mexicanos, mulheres);
  • Militarismo imperialista;
  • Forte intervenção na política econômica;
  • Política de intervencionismo na política econômica;
  • Política de intervenção em obras públicas + indústria militar;
  • Política de “pleno emprego”.

O discurso que encerra na frase de campanha de Trump, “Façamos a América grande outra vez”,  e seu mote  populista (fala frequentemente de “governo do povo”) é o mesmo que utilizava Benito Mussolini em 1932: “Hoje afirmo a vocês, multidão imensa, que o século XX será o século do fascismo; o século da potência italiana; o século em que a Itália será por terceira vez reitora da civilização humana, pois fora de nossos princípios não há salvação para os indivíduos nem para os povos”.
Trump não é Hitler nem Mussolini, mas o fascismo continua sendo fascismo.
*Poeta e ensaísta venezuelano.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Revista Diálogos do Sul

LEIA tAMBÉM

Cuba
EUA tiram Cuba de lista sobre terrorismo: decisão é positiva, mas não anula sanções
ONU
Palestina como membro pleno da ONU: entenda os reflexos da resolução aprovada
Crise-drogas-EUA
EUA culpam cartéis do México por crise de drogas entre estadunidenses
Cartão Vermelho para Donald Trump...