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Trump quer mudar o sentido e abrangência dos direitos humanos: o que isso significa?

Com apoio do Brasil, EUA querem redefinir os direitos humanos; para Conectas, proposta pode vir a ameaçar minorias, como grupos LGBTQI+

Maria Teresa Cruz
Ponte Jornalismo
São Paulo (SP)

Tradução:

Uma articulação iniciada em meados do ano passado envolvendo o Brasil, a Hungria e encabeçada pelos Estados Unidos parece ganhar corpo e pretende, agora, apresentar uma redefinição dos direitos humanos no mundo.

A notícia, divulgada na coluna do jornalista Jamil Chade, do UOL, é vista com muita preocupação pela ONG Conectas, que acompanha as movimentações dessa articulação desde o seu surgimento. Para Camila Asano, coordenadora de programas da entidade, essa redefinição irá atacar diretamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. “É muito preocupante a informação de que os Estados Unidos estejam fazendo essa discussão de forma unilateral e mais preocupante que o Brasil esteja participando desse processo”, afirma.

“Se você faz uma reformulação, você pode minar uma base mínima de grupos que tradicionalmente são excluídos ou discriminados”, continua.

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Camila se refere ao direito à liberdade sexual e reprodutiva, e o debate de gênero, que impacta a população LGBT+ e as mulheres. Os temas ganharam contornos fortes com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Silva, que, desde que tomou posse, reforça o discuso da “tradição e família”, que dialoga com a articulação comandada pelo governo de Donald Trump.

Com apoio do Brasil, EUA querem redefinir os direitos humanos; para Conectas, proposta pode vir a ameaçar minorias, como grupos LGBTQI+

Foto: Alan Santos/Agência Brasil
Donald Trump em encontro bilateral com governo brasileiro, em junho do ano passado

“A gente já viu a diplomacia brasileira retirar o conceito de gênero [em junho de 2019, o Itamaraty orientou diplomatas a considerar apenas o sexo biológico]. A  ministra Damares, no ano passado, falou na ONU sobre o direito à vida desde a concepção, retomando um debate que já deveria ter sido superado, e criminalizando o aborto e, principalmente, as mulheres que interrompem a gravidez”, lembrou Camila.

Em outro episódio, nos primeiros dias do governo Bolsonaro, o ataque foi com relação à liberdade de gênero. A ministra declarou que “meninas usam rosa e meninos usam azul“, desprezando o debate sobre identidade de gênero e liberdade de expressão da sexualidade e atacando a população LGBT+.

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Outro ponto que Camila considera importante ser analisado é a questão da liberdade religiosa. Reportagem do jornal O Globo desta segunda-feira (17/2), mostra que o governo Bolsonaro priorizou lideranças evangélicas em sua agenda. “O Brasil tem reforçado em vários discursos uma visão parcial dos direitos humanos em muitos aspectos. A religião é um direito humano, sim. Nesse caso, nos preocupa muito as religiões de matriz africana. Os terreiros têm sofrido ataques constantes e vemos um silêncio das autoridades”, afirma.

Camila Asano pontua que a redefinição que está sendo construída pelos EUA com o apoio do Brasil, como aponta a coluna, precisa ser melhor explicada: em que consiste, quais as mudanças propostas, quem está participando disso. “Essa discussão deveria estar acontecendo no âmbito da Organização das Nações Unidas, que é a responsável por tratar da discussão dos direitos humanos de maneira global”, aponta.

O presidente Donald Trump, logo que assumiu, retirou o país do Conselho de Direitos Humanos da ONU. “Os EUA sob a administração Trump tem adotado uma postura de unilateralismo e de desprezo com acordos que foram costurados com muito trabalho de diplomacia. Um exemplo recente é o plano de paz de Israel e Palestina apresentado pelos EUA recentemente que não envolveu a Palestina em sua construção. É um modus operandi que fica mais uma vez evidente, que não aponta para soluções, mas para destruições de consensos”, pontua.

Ao contrário de Trump, o governo Bolsonaro manteve o assento no Conselho. Na próxima segunda-feira (24/2), a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos fará um pronunciamento na abertura da reunião do Conselho e a expectativa é que essa articulação fique mais clara. “Na reeleição para o conselho, o governo brasileiro apresentou um compromisso com as discussões multilaterais de direitos humanos. Estar prestigiando e até participando pessoalmente, como noticiado, evidencia uma ambiguidade de ação e de posição”, explica Camila.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Maria Teresa Cruz

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