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Ucrânia: Klitschko, o opositor treinado por Merkel

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Ralf Neukirch – Nicolaus Blome – Matthias Gebauer* 

angela merkel A chanceler alemã Angela Merkel

Desde o início das manifestações pró União Europeia, o ex boxeador Vitali Klitschko se impôs como um dos principais opositores ao presidente Viktor Yanukóvich. Formado pelos democrata-cristãos da chanceler alemã, poderia ser logo igualmente apoiado por outros dirigentes europeus.

Naquela quinta-feira de 5 de dezembro, ficou claro que qualquer tipo de amizade entre a chanceler alemã, Angela Merkel e o presidente da Ucrânia, Víktor Yanukóvich, havia terminado. Ambos estavam reunidos em uma cena festiva no que foi o palácio do gran duque da Lituânia, com a cidade de Vilna enfeitada para as festas de Natal, junto com os líderes da União Europeia e dos países da Europa Oriental. Ainda não tinha sido servida a torta de trufa quando o presidente ucraniano iniciou um chato monólogo sobre as difíceis relações de seu país com a Europa, por um lado, e com a Rússia por outro. Não obstante, no meio do discurso, Markel interrompeu a Yanukóvich e bruscamente lhe disse que não era necessário continuar falando. “Você não vai assinar, de toda maneira”, disse-lhe sem rodeios. O presidente da Armênia, que estava sentado ao lado de Merkel ficou perplexo.

“As portas ainda estão abertas para a Ucrânia”, enfatizou Merkel em repetidas ocasiões depois do debacle, ao observar que os europeus ainda estavam dispostos a dialogar. Além disso, antes de que começasse o seguinte assalto, a chanceler planeja introduzir um novo oponente no combate: Vitali Klitschko. O corpulento campeão dos pesos pesados vai ser treinado para se converter no adversário pró europeu do presidente pró russo Yanukóvich. E se espera que seja ele quem assine o tratado pró União Europeia que ainda confiam que poderá concretizar-se

Um trabalho por trás dos bastidores

o ex boxeador Vitali Klitschko o ex boxeador Vitali Klitschko

Ainda que uma “mudança de regime” seja um termo muito forte par o que a Alemanha esta buscando, não está de todo descartado. O Partido da União Democrática Cristã, de centro direita de Merkel (CDU), e o Partido Popular Europeu (PPE), uma família de partidos conservadores europeus, escolheu a Klitschko como seu representante de fato na Ucrânia. Seu trabalho consiste em unir e liderar a oposição nas ruas, e no Parlamento, e finalmente, nas eleições presidenciais de 2015. “Klitschko é nosso homem” , dizem os políticos mais importantes do PPE, “pois tem uma agenda claramente europeia”, e Merkel ainda tem uma conta a ser saldada com Putin.

Grande parte do trabalho se desenvolve atrás dos bastidores. O partido de Klitschko, a Aliança Democrática para a Reforma Ucraniana (UDAR), formado em 2010, converteu-se recentemente em um membro observador do PPE. As sedes do PPE em Bruxelas e Budapeste estão treinando o pessoal da UDAR para o trabalho parlamentar e estão proporcionando apoio no desenvolvimento de uma estrutura de partido de âmbito nacional. A Fundação Konrad Adenauer, alinhada estreitamente com o CDU, também desempenha um papel muito importante e, Klitschko solicitou expressamente a ajuda aos assessores de Merkel, desde a sua fundação.

Não obstante, Klitschko continua sendo o alvo central do esforço. Tem havido reuniões com Ronald Pofalla, chefe de pessoal de Merkel, que durante anos tem mantido vínculos com os membros da oposição na Europa Oriental, especialmente na autoritária Bielorrússia. Ele tem dado a Klitschko muita informação, e o boxeador dos pesos pesados e novato na política tem pedido conselhos a Pofalla. Por exemplo, Klitschko quer saber como deve responder aos rumores relacionados com suas “aventuras com mulheres” que o governo ucraniano está difundindo para liquidar com a possibilidade de converter-se em um líder político viável. Klitschko também necessitará de uma discreta ajuda de Pofalla e do governo alemão quando se aproxime as eleições de 2015. Sua candidatura está atualmente bloqueada por uma lei, redigida parece que pensando especificamente nele, pela qual um cidadão com visto de residência em outros países não seja considerado um residente em Ucrânia. Isso impede que Klitschko possa demonstrar que viveu na Ucrânia nos dez anos anteriores às eleições, uma exigência estipulada pela Constituição do país para que se constitua candidaturas. Não obstante, pode contar com Merkel para que apele ao presidente Yanukóvich para que tal lei não faça descarrilhar a candidatura de Klitschko.

Oposição dividida

Angela Merkel e Vitali Klitschko Angela Merkel e Vitali Klitschko

Para alcançar tal objetivo, o boxeador profissional terá que se preparar para se converter em um político sério, tanto para a ucrânia como para o exterior, e é justamente isso que está acontecendo.

Klitschko assistiu a uma reunião preliminar do PPE dos líderes conservadores europeus em Vilna há duas semanas, e passou muitas horas conversando com os membros chaves do Parlamento Europeu. Não obstante, não se reuniu diretamente com a Merkel.

Entretanto, Merkel assistirá à reunião preliminar do PPE antes da próxima cúpula da UE em mediados de dezembro e o plano atual é convidar de novo a Klitschko. Para essa ocasião já está na agenda a foto oficial com os líderes europeus já que será uma reunião com a chanceler. Isso realçará de maneira significativa as credenciais políticas de Klitschko, e se supõe um importante compromisso para Merkel.

Porém, poderá Klitschko unir a muito dividida oposição, formada principalmente por seu partido UDAR, o Partido da Pátria Querida da cativa primeira ministra Yulia Timoshenko, e o Partido da Liberdade? Os seguidos de Klitschko no PPE esperam que para as eleições presidenciais de 2015, a oposição conte com um candidato único capaz  de enfrentar e ganhar de Yanukóvich. Quando Merkel tenha alcançado sua meta interina de liderança pró europeia na Ucrânia começará o segundo round: o esforço por reestruturar as relações da UE com a Europa Oriental; um jogo em que se enfrentarão a UE contra Putin.

*Der Spiegel – Extratos 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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