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Uganda: Regresso do Rei Leão

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Roberto Correa Wilson*

Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV fez 18 anos quando subiu ao trono do reino de Toro, em abril de 2010
Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV fez 18 anos quando subiu ao trono do reino de Toro, em abril de 2010

A imensa maioria dos países africanos alcançou a independência das antigas potências europeias a partir de 1960, depois de uma prolongada guerra de libertação ou luta política que deixaram um alto saldo de mortes e enormes sofrimentos nas nações liberadas.

Obtida a libertação, a quase totalidade das nações adotou a estrutura política de República, com um presidente como chefe de Estado. Somente três países permaneceram como reinos reconhecidos internacionalmente: Marrocos, Lesoto e Swazilândia.

Outros reinos foram absorvidos pelas novas repúblicas quando se constituiram, como ocorreu com Uganda. O país fora invadido nos séculos XIII e XIV por migrações bantus, que na época tinham constituido reinados razoavelmente desenvolvidos.

Esses reinos com características feudais foram abolidos pouco depois de obtida a independência da Grã Bretanha, em 1963, onde o colonialismo se implantou em meados do século XIX. A Constituição incluiu entre seus preceitos o desaparecimento, como entidade oficial independente, dos reinos de Buganda, Anikole, Bunyoro e Toro.

Na nova etapa, alguns dignatários exercem um poder simbólico sobre seu grupo étnico, ainda que seus povos os adorem como autênticos reis e estes se comportem como tal.

O governo e a Constituição consideram legítima a autoridade sobre seus súditos, mas seus poderes estão restritos a um papel cultural e tribal, sem competências executivas, incluindo suas cortes.

O Reino do Toro, um dos quatro reinos abolidos oficialmente, está situado no oeste de Uganda. Seu rei Patrick morreu em 1995 quando seu  filho Oyo tinha apenas três anos de idade, e era o legítimo herdeiro do monarca desaparecido.

A leucemia levou pouco depois a irmã mais velha, Célia, depois de um longo período hospitalizada. “Onde estão meu pai e minha irmã?”, perguntava o pequeno Oyo no hospital de Londres onde esta última esteve internada.

O jovem monarca realizou seus primeiros estudos no colégio Poitiers, na capital britânica. Na ficha de inscrição lia-se seu nome completo, Oyo Nyimba Kabanda Igunu Rukidi IV.

Contava o diretor do exclusivo colégio londrino que Oyo era um menino normal quando ia para as aulas, vestido com o uniforme azul e verde ou quando saia  correndo da classe e se escondia  para comer  guloseimas, enquanto esperava que o automóvel oficial fosse buscá-lo.

Um menino como tantos outros quando compartilhava com seus companheiros brinquedos de plástico ou sonhos infantis: um verdadeiro rei, mas um verdadeiro menino. Seus companheiros não o chamavam de Majestade, e sim de Oyo. “Nossos alunos não se impressionavam com esse tipo de coisas, afirmava o professor.

Não tratavam Oyo com o respeito com que, segundo certas pessoas, devia tratar-se um rei – em suas canelas eram visíveis as marcas das botas do time contrário de futebol. Era um menino mais, absolutamente normal e perfeitamente bem adaptado.

Regresso triunfal

Quatro dias e suas respectivas noites foram necessários para celebrar por todo o reino o esperado retorno daquele que era seu legítimo líder.

Dezenas de milhares de cidadãos de Toro se reuniram no Kuruzika, palacio, em língua local, Lutaro, no alto de uma montanha para dar as boas vindas ao mais jovem monarca da África e do mundo, com apenas 13 anos.

Bateram sem cessar tambores de pele de cabra e trombetas de cabaça. O povo cantou e dançou até destruir suas gargantas e pés. Todos se esforçavam por ver Oyo, que festejava sua primeira década de cidadão de Toro, que tem uma população aproximada de um milhão de pessoas.

Sentado diante dos presentes em um trono coberto de pele de leão, sob um arco de presas de elefantes, Oyo assistia a sua festa de assunção de epango (de lua). Um ancião se levantou e caminhando até ele, colocou na  mão do Rei menino um tambor ritual.

Os golpes que o monarca deu no coro ressoaram por todo o reino. Oyo, surpreendido com o entusiasmo de seus súditos, pôs-se de pé, olhou para todos os lados e deu alguns tímidos passos de dança. A multidão enlouqueceu: “O Rei Leão estava de volta”.

Oyo se transformou quando pisou na África, vestido com suas grandes roupas rituais, de cores negra e ouro e a cabeça coberta com um gorro de pele.

De menino a adolescente

A transição da infância à adolescência foi guiada pela Rainha Mãe, Bert Kemigisa, enquanto que os assuntos do reino foram administrados por regentes. De seus deveres oficiais disse uma vez “Me aborreço principalmente durante as funções. Estar sentado com gente adulta”.

Não sei o que acontece no reino: é muito para mim, acrescentou. Era lógico que um menino não entendesse as obrigações derivadas de seu cargo. Quem o olhava de perto e entendia a turbulência  política de Toro era a Rainha Mãe.

O maior desafio da família real foi manter afastados cortesões sedentos de poder, que tentavam aproveitar-se da juventude de seu filho, diria em uma ocasião Bert Kemigisa.

Em seu colégio de Kampala, capital de Uganda, Oyo teve como matérias favoritas a arte, a música, a matemática e a natação. Também mostrou inclinação por estudos de turismo. Quando não estava em aula, jogava futebol, videogames ou ia ao cinema, como qualquer outro adolescente.

Os anos passaram e Oyo, o rei menino, depois de fazer 18 anos de idade, assumiu a responsabilidade de conduzir seu povo, como o fez seu pai, o rei Patrick.

Esta é a história de um menino rei africano adorado por seus súditos.

* Prensa Latina, de Havana para Diálogos do Sul

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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