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Um adeus à fotógrafa e cineasta boliviana Julia Vargas

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Julia Vargas era minha amiga há mais de cinco décadas, dessas amizades que se herdam dos pais. O meu costumava me contar com admiração a história dos jovens socialistas, Jorge Bartos e Juan Barga, que chegaram à Bolívia para ficar e se converteram em empresários de sucesso.

Alfonso Gumucio*

A respeito do meu artigo sobre a situação da Catalunha, Julia Vargas me escreveu: “’Estou totalmente de acordo com o teu comentário’… O tema catalão é muito complexo e não começou há dois anos com um grupo de políticos que querem ‘dividir’ um país com uma sacrossanta, custosa, inoperante, corrupta e obsoleta monarquia.

Eu vivo na Catalunha o dia a dia e vejo manipulação midiática, uma justiça a serviço de um governo incapaz de afrontar e resolver politicamente conflitos políticos, a liberdade de expressão cerceada judicialmente. Consta-me que o referendo considerado ‘ilegal’ foi feito totalmente pacificamente, como todas as manifestações nas quais estive fotografando. Vi de perto um dos civis imputados por incitar a violência, no momento em que pedia calma à multidão, que se retirassem pacificamente, enquanto abria caminho para os policiais que registravam o local.

Entre Julia Vargas e Loida Rodríguez, em 1 de setembro de 2017

O tema catalão não é o resultado de uma rebelião recente de um grupo de políticos ‘sediciosos’. É um processo que tem raízes antigas e que ficou mais agudo com um estatuto autonômico aprovado pelo Congresso e depois impugnado por iniciativa pessoal do Sr. Rajoy. Se for tão importante manter a ‘unidade’ da Espanha, é tarefa do governo iniciar um diálogo ao qual já se negou 18 vezes, e encontrar os caminhos. Mas isso não parece estar dentro dos interesses do partido governante…”.

 

A parca a surpreendeu…

 

Isso foi em 26 de março. Cinco dias depois estava morta. A parca a surpreendeu no computador, escrevendo talvez a outros amigos ou anotando ideias para um novo projeto cinematográfico. Em 19 de março me havia escrito: “Que bonito ver-te com tua família. Desfruta esta magnífica cidade…” Estávamos ambos em Barcelona no fim de março, mas não pudemos nos ver.

Julia Vargas era minha amiga há mais de cinco décadas, dessas amizades que se herdam dos pais. O meu costumava me contar com admiração a história dos jovens socialistas, Jorge Bartos e Juan Barga, que chegaram à Bolívia para ficar e se converteram em empresários de sucesso.

Eu visitei várias vezes Dom Juan Barga em Cochabamba, mas a minha amizade com a sua filha Julia Vargas cresceu posteriormente pela afinidade com a fotografia e com o cinema. Julia Vargas começou como fotógrafa, com belíssimas imagens em preto e branco de paisagens e gentes do altiplano e dos vales da Bolívia. Cerca de 30 exposições de fotografia, individuais e coletivas permitiram que sua obra fosse conhecida dentro e fora da Bolívia. 

Gumucio pela lente de Julia Vargas

Nos anos 1970, ela me deu uma série de retratos que fez do meu pai, com uma barba patriarcal, no Chapare onde ele trabalhava como empreiteiro de drenagem nas estradas 1 e 4 que ele mesmo tinha desenhado antes em um mapa da Bolívia quando era Ministro de Economia no segundo governo de Víctor Paz Estenssoro (1985-1989).  Dom Jorge Bartos, para ajudá-lo, deu-lhe esse trabalho de campo. Foi a única vez que meu pai ganhou algo de dinheiro em sua vida, pois durante sua passagem pelo governo não teve sequer casa própria. 

Julia Vargas estava decidida a publicar sua obra fotográfica mais representativa.  A última vez que veio à Bolívia, em setembro de 2017, nós nos reunimos em um café de San Miguel e ela me mostrou as provas de página desse livro, grande, lindo. Pediu-me que escrevesse o prólogo e eu aceitei encantado, mas lhe disse que preferia fazê-lo quando já tivesse a versão definitiva. Ela queria publicar um segundo livro de menos páginas com as paisagens, mas eu sugeri que publicasse um livro só, com toda a obra reunida, com seções que fossem agrupando as fotografias por temas, com títulos poéticos e abertos para incluir em uma mesma seção fotos de gente ou de paisagens. 

 

O surgimento da AVE

 

Sua inclinação social a levou a criar e dirigir desde 1980 a AVE (Audiovisuais Educativos) e aí coincidimos em atividades similares, pois eu dirigia nessa mesma década o Centro de Integração de Meios de Comunicação Alternativa (CIMCA). 

O cinema foi uma paixão relativamente tardia, mas que ela empreendeu com a mesma paixão e dedicação que a fotografia ou o trabalho de comunicação social. Em seu primeiro longa-metragem, Esito sería (2004) aborda a festa do carnaval de Oruro. Em seguida Patricia, una basta (2005) a história de uma jovem com HIV positivo, um drama com intenção educativa.

Sua obra maior é sem dúvida Carga sellada (2016), com a qual obteve reconhecimento da crítica e em vários festivais. Eu dediquei uma página comentando o que me havia parecido bom e fraco no filme. Ele me mandou logo uma mensagem de Barcelona, onde residia, para comentar meus apontamentos sem desestimar as críticas.

Durante alguns anos fixou sua residência em Buenos Aires, embora sem deixar sua casa em Cochabamba. Na Capital Federal da Argentina, preparava seus projetos com paciência e persistência, talvez porque tivesse certa folga econômica que o permitia. Dalí, “Juliska” (como rezava o seu endereço de e-mail), me contava seus avanços nos passos de tango, que chegou a dominar e que desfrutava verdadeiramente. 

Julia Vargas nos surpreendeu a todos com sua morte em 1º de abril de 2018. Não era uma morte anunciada, mas totalmente inesperada. Quando recebi em Paris a notícia, pensei que era uma brincadeira inocente, porque nesse dia se celebra na França o poisson d’avril, o Dia dos Inocentes. Eu teria gostado que fosse uma “inocentada”, mas não era. Depois fiquei sabendo que um aneurisma fulminante havia terminado com seus dias. Havia nascido em 1942, era poucos anos mais velha que eu, mas com o passar do tempo fomos nos igualando. 

Agora já não poderei escrever-lhe a vargasjuliska@gmail.com nem ler seus comentários no Facebook. Não haverá quem responda. 

Milton Guzmán colaborou com ela durante quase três décadas: “Foram quase 29 anos de haver transitado junto a Julia Vargas um mesmo caminho, imaginar, sonhar e plasmar em imagens esses sonhos. Ela era uma visionária que nos contagiava sua ansiedade de mostrar nosso país, nossa gente, suas histórias, seus dramas. Assim nasceram El hombre símbolo, A los pies del Tatala, Solo Pancho, El fragor del silencio, Para Elisa, Esito Seria, Carga Sellada, Shirley La Milagreira…  e outras histórias.

Era uma mulher com muita paixão pelo que fazia, metódica e muito ordenada, nossas sessões de trabalho ou de viagem eram extensas, sem claudicação até chegar a cumprir o objetivo planejado, sem importar as noites sem dormir ou a quantidade de quilômetros que íamos viajar, mas a melhor recordação que guardo é a semelhança na nossa forma de olhar, de ver, e isso creio que fez crescer essa amizade e cumplicidade que tivemos para realizar os trabalhos que fizemos…  Juliska,  até a próxima claquete”. 

 

A memória deveria ter uns óculos suplementares 

capazes de sobrepor, com capa sobre capa de pele, 

os rostos anteriores ao rosto atual, 

até desvelar o rosto final da morte. 

—Carlos Fuentes

*Colaborador de Diálogos do Sul, desde La Paz, Bolívia

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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