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Um clamor pela refundação do Estado

Beatriz Bissio

Tradução:

Beatriz Bissio*

Ontem acompanhei a manifestação na Avenida Presidente Vargas. Já desde a viagem de Metro era possível sentir que o ato de protesto seria multitudinário. Um clamor pela refundação do Estado. Em cada estação, grupos de jovens – e alguns nem tão jovens – preparavam-se para participar, com predominância de camisetas brancas, muitas também verdes e amarelas, bandeiras do Brasil, cartazes caseiros com frases espirituosas, mas de claro conteúdo reivindicatório de mudanças nas práticas políticas e investimentos em serviços básicos. 

Ao chegar ao centro da cidade, um mar de gente nas ruas laterais da Presidente Vargas, anunciava um ato de grande envergadura; a própria avenida, já estava lotada e tinha começado a caminhada no rumo da Prefeitura. Encontrei muitos alunos, constatei logo a predominância de jovens, sem dúvida a maioria deles estreando no exercício da democracia direta, na apropriação do espaço público para exprimir as suas demandas…

Vieram rapidamente à memória as imagens daqueles momentos inesquecíveis do Comício das Diretas Já, logo aí, na Candelária! Curiosamente hoje, 21 de junho de 2013, é o nono aniversário da morte de Leonel Brizola, uma das figuras mais importantes da luta pela democracia e pela justiça social na história recente do Brasil.

Fiz a longa caminhada, entre a multidão, pela majestuosa avenida. Uma caminhada pacífica, que reuniu um formigueiro de gente impossível de calcular com exatidão, mas que intuitivamente sinto que era bem maior que as 300 mil pessoas das estimativas divulgadas pela polícia. (Com a facilidade do acesso ao “Google-sabe-tudo”, posso informar que a Avenida Presidente Vargas tem quatro pistas, três canteiros centrais e 16 faixas de rolamentos para a circulação de veículos, com uma largura que varia de 80 a 90 metros e conta com 4,13 Kms de extensão… e estava completamente tomada pela multidão.)

Grande parte do trajeto transcorreu em silencio, parcialmente interrompido por grupos que cantavam o hino nacional ou ecoavam o grito “o povo acordou!”; aos poucos fui constatando o quanto este movimento é diferente de tantos outros dos que participei, no Uruguai, nos tempos de estudante, no Brasil, já adulta. A primeira grande diferença era a multiplicidade de reivindicações que convergiam no protesto, expressas em grandes faixas, como a que defendia a Aldeia Maracanã, em bandeiras, como as do MST, em cartazes improvisados, pequenos, grandes, médios, com dizeres pitorescos como aquele já comentado pela mídia – “desculpe o transtorno, estamos mudando o

país”, outros igualmente criativos como “a geração coca-cola decidiu deixar de ver TV e sair para a rua”, ou “largue a novela da Globo, junte-se a nós”, ou mais diretos como ”não queremos a Copa, queremos educação e saúde de qualidade” e “não à corrupção”. Mas a maior diferença, sem dúvida, era a ausência de  “responsáveis pela organização”, ou utilizando um vocabulário que hoje parece fora de uso, a ausência de uma “vanguarda”, de um grupo de sindicatos ou de partidos políticos ou de ambos juntos, que definiria as palavras de ordem a serem entoadas, o formato do próprio protesto, a ordem dos oradores no comício que teria lugar no local de destino da passeata e não menos importante, que teria tido o cuidado de instruir a um grupo de militantes mais experientes e treinados nesses afazeres a manter a ordem e detectar possíveis infiltrados para evitar atos de violência provocados com o objetivo de desmoralizar o movimento e de tirar o foco da mensagem central para um vandalismo prefabricado (em geral, no passado, de responsabilidade dos órgãos de inteligência).

Quando chegamos à Prefeitura, a falta de outra orientação e sem objetivo especificado previamente para lá permanecer, voltei para casa, com o meu companheiro, da mesma forma como o fizeram a maioria das pessoas que acompanhava a caminhada. Novamente a estação de Metro estava cheia; mas, desta vez, de gente satisfeita da missão cumprida, orgulhosa de ter participado num momento

ímpar da vida brasileira, sentido que nesse povo que finalmente tinha acordado podiam ser depositadas as esperanças do surgimento de um novo Brasil. Comentários em voz baixa e não tão baixa, conversas com outros passageiros, o povo nas ruas foi o tema predominante em todo o trajeto.

Quando cheguei em casa e comecei a ver na televisão que o mesmo local – as proximidades da Prefeitura do Rio de Janeiro – que tinha deixado pouco mais de meia hora antes tinha se transformado numa praça de guerra, retomei o pensamento que me acompanhou durante toda a passeata: é maravilhoso ver o povo na rua, mas também é um risco não ter definições mais precisas de o que fazer nas ruas e para onde canalizar todas essas energias. Lembrei que durante a caminhada tinha visto muitos homens – em geral não tão jovens quanto a média dos presentes no protesto – com mochilas nas costas e muitos deles com os rostos cobertos, no meio da multidão.

Destoavam de todos nós, que tínhamos ido livres de bolsas, bolsos e qualquer coisa que dificultasse uma caminhada;tinha tido a intuição de que se estavam ali era para forçar atos de violência e vandalismo com materiais que carregavam dentro dessas mochilas. Mas a quem alertar? Quem iria ter a autoridade de exigir que mostrassem o conteúdo dessas mochilas e, se for o caso, expulsá-los da passeata?

A experiência me deixou um sentimento ambíguo, de satisfação e de angústia: o povo acordou, decidiu ocupar as ruas, mas perdeu as referências políticas; não sente que nenhum partido o represente, está descrente nas lideranças conhecidas; mas não está descrente na possibilidade de o Estado acolher as suas reivindicações (já que nenhuma delas estava dirigida à “mão invisível do mercado”!). Mais saúde, melhores meios de transporte, mais verbas para a educação e melhores condições de ensino, não à corrupção e um freio na permanente alienação promovida pela mídia! Todas essas bandeiras formam uma bela plataforma política!! Mas, que Estado, que arranjo institucional poderá atendê-las?

Creio que o Brasil está numa encruzilhada que vai exigir muita coragem da classe política, em particular dos segmentos que ainda têm compromissos honestos com a antiga bandeira da esquerda, de justiça social. A situação é um caldo de cultura propício para oportunismos autoritários e para o plano sempre acariciado por alguns segmentos nostálgicos dos governos cívico-militares de voltar a 1964. Somente uma proposta radical poderá atender as demandas legítimas das ruas: a refundação do Estado. Uma Assembleia Constituinte que retome os temas em debate desde o âmago e refaça o pacto social. Uma Constituinte exclusiva, como a que não foi possível conquistar nos anos 80, quando a correlação de forças de uma democracia ainda tambaleante não foi favorável a uma iniciativa como essa: 2014, o ano da nova Constituinte!

Eis uma bela bandeira para dar rumo às demandas das ruas e reinstaurar a confiança nas instituições.

*Beatriz Bissio – Professora do Departamento de Ciência Política Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – Presidenta do Espaço Cultural Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Beatriz Bissio

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