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Um sonho infeliz de cidade: São Paulo simboliza mazelas da sociedade brasileira

O dilúvio paulistano desta segunda, nos lembra que, mesmo a contragosto, ricos e pobres estarão cada vez mais no mesmo barco do cataclisma mundial
Wagner Iglecias
Diálogos do Sul
São Paulo

Tradução:

São Paulo amanheceu caótica, debaixo d’água, com grande parte de suas principais vias interditadas. Não é a primeira vez e provavelmente não será a última. 

São décadas, mais de século de desleixo, irresponsabilidade, incompetência, desvios, marginalização. De uma cidade que asfixiou seus rios e córregos. Que derrubou suas matas. 

O dilúvio paulistano desta segunda, nos lembra que, mesmo a contragosto, ricos e pobres estarão cada vez mais no mesmo barco do cataclisma mundial

Jorge Araujo / Fotos Públicas
Uma cidade que priorizou o automóvel, a gasolina, a fumaça

Que jogou pras periferias milhões de pobres coitados, favelados, trafegando em trens e ônibus lotados em troca de salários de fome. 

Que investiu na (in)sociabilidade cinza do cimento e do asfalto. 

Que sempre definiu a destinação dos recursos públicos através de planos diretores desenhados pelo setor privado. 

Que priorizou o automóvel, a gasolina, a fumaça.

Que enalteceu os enclaves fortificados, os espaços exclusivos, com seus nomes em francês, inglês e italiano, com toda a segurança e sofisticação que “você e sua família merecem”.

De uma cidade, enfim, que simboliza como poucas a sociedade brasileira e todas as suas mazelas.

Difícil, horas depois da cerimônia do Oscar, não relacionar a tempestade cenográfica de “Parasita” com o dilúvio paulistano desta segunda-feira: ambos a nos lembrar que, mesmo a contragosto, ricos, pobres e remediados estarão cada vez mais no mesmo barco do cataclisma mundial.

* Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da EACH e do PROLAM USP.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Wagner Iglecias

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