Pesquisar
Pesquisar

Uma derrota, 2 trilhões de dólares e 200 mil mortos: o curioso fim da guerra do Afeganistão, a mais longa dos Estados Unidos

Questionado se a guerra de 20 anos valeu a pena, Biden respondeu que ele nunca apoiou uma presença permanente de forças estadunidenses nesse país. “Nenhuma nação jamais unificou o Afeganistão", disse
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

A guerra mais longa da história dos Estados Unidos está sendo enterrada no “cemitério de impérios”, com o comandante em chefe Joe Biden declarando que “nossa missão militar no Afeganistão” será concluída em 31 de agosto, justamente 20 anos depois da invasão da primeira frente da chamada “guerra contra o terror”, proclamada por Washington imediatamente depois do 11 de setembro de 2001.

“Não enviarei outra geração de estadunidenses à guerra no Afeganistão sem uma expectativa razoável de conseguir um resultado diferente”, declarou em um discurso breve em uma sessão com jornalistas na Casa Branca na última quinta-feira (8). 

Recordou que 2 mil 448 estadunidenses morreram e outros 20 mil 722 foram feridos na guerra no Afeganistão, na qual os Estados Unidos gastaram, segundo ele, um trilhão de dólares.

Em Washington se fazem malabarismos para caracterizar o fim desta guerra, assegurando que os Estados Unidos não perderam, mas, ao mesmo tempo, ninguém se atreve a proclamar uma vitória da força militar mais poderosa do mundo.

90% das tropas estadunidenses já abandonou o Afeganistão e o presidente não pretendeu reconhecer que é uma saída triunfal. De fato, pareceu reconhecer que os Estados Unidos são mais um império (depois da União Soviética nos anos 80 e o britânico no século 19) derrotado no Afeganistão.

Leia também

EUA enviou 775 mil soldados para guerra que já matou 100 mil pessoas no Afeganistão

Perguntado se a guerra de 20 anos valeu a pena, primeiro respondeu que ele nunca apoiou uma presença permanente de forças estadunidenses nesse país.  “Nenhuma nação jamais unificou o Afeganistão… impérios têm ido ali e não conseguiram”. 

Justificou de novo a missão bélica: fomos por duas razões. Uma foi para levar Osama bin Laden às grades do inferno, tal como disse nessa ocasião. A segunda razão foi para eliminar a capacidade da Al-Queda de propiciar mais ataques aos Estados Unidos a partir desse território, conseguimos ambos os objetivos. Ponto”. Agregou que esses objetivos já foram cumpridos faz tempo, por isso estava tomando a decisão de pôr fim à presença militar estadunidense nesse país. 

Rechaçou totalmente toda a comparação com o Vietnã, “não há nenhuma, zero”. 

Questionado se a guerra de 20 anos valeu a pena, Biden respondeu que ele nunca apoiou uma presença permanente de forças estadunidenses nesse país.  “Nenhuma nação jamais unificou o Afeganistão", disse

Wikipedia
2 mil 448 estadunidenses morreram e outros 20 mil 722 foram feridos na guerra no Afeganistão

Futuro do Afeganistão

Sobre o futuro do Afeganistão, Biden não descartou a possibilidade de uma guerra civil, e afirmou que as forças armadas desse país, capacitadas pelos Estados Unidos, têm a capacidade de frear o Talibã se é que decidam fazê-lo.  

Mas pôs a responsabilidade do desastre deixado pela guerra dos Estados Unidos nas mãos dos afegãos: “Não fomos ao Afeganistão para construir uma nação. É o direto e a responsabilidade apenas do povo afegão decidir seu futuro e como querem governar seu país”. 

Biden informou que milhares de intérpretes, choferes e outras pessoas que serviram com as tropas estadunidenses no Afeganistão serão outorgados vistos especiais para migrar a território estadunidense.

Insistiu em que os Estados Unidos manterão sua presença diplomática no país e apoia uma solução pacífica entre o governo do Afeganistão e o Talibã. Assegurou que Washington continuará oferecendo assistência civil e “humanitária” ao país.  

Segundo fontes oficiais, se calcula que menos de mil soldados estadunidenses permanecerão nesse país para proteger a embaixada dos Estados Unidos e o aeroporto de Cabul.

Fracasso completo

“Os comentários de Biden deixam claro o fracasso completo da intervenção estadunidense no Afeganistão. Nunca se teve a intenção de dar prioridade aos interesses dos afegãos sobre os dos Estados Unidos…”, comentou Adam Weinstein, veterano militar da guerra no Afeganistão e pesquisados no centro de análise política Quincy Institute em Washington.

Saiba+

O Afeganistão e a rota da CIA para a heroína

Embora Biden tenha primeiro anunciado sua intenção de retirar tropas do Afeganistão em abril, foi surpreendente o abandono repentino da base Bagram, o centro de operações da invasão estadunidense do Afeganistão, onde os estadunidenses fecharam o fluxo de corrente elétrica e foram embora de noite no fim de semana passada em avisar o novo comandante afegão da base, que só descobriu o que tinha sido feito na manhã seguinte, reportou a AP. 

Isso provocou alguns comentários de que o fim da guerra mais longa concluiu com os estadunidenses apagando as luzes e abandonando a festa sem avisar seus anfitriões e aliados. 

Não estão sendo organizados desfiles de celebração, nem haverá uma faixa que proclame “Missão cumprida”. Muitos, inclusive veteranos do Vietnã, estão comparando este momento com a fugida final do superpoder desse país asiático há quase meio século. The Economist declara que “a guerra mais longa dos Estados Unidos está sendo concluída em uma derrota esmagadora”. 

Especialistas, incluindo comandantes militares estadunidenses, expressaram alarme sobre a possibilidade de uma guerra civil e do rápido avanço do Talibã que em apenas nos últimos dois meses já controlam pelo menos 150 dos 421 distritos do país, reporta o New York Times.   

Ao mesmo tempo, circulam informes de que forças afegãs capacitadas pelos Estados Unidos estão se rendendo e/ou abandonando seus postos e deixando armas e equipamento militar para o Talibã, dizem a NBC News e outros meios.

Custos da guerra

A guerra no Afeganistão custou 2,261 trilhões de dólares em total, ou seja, mais de duas vezes o que Biden disse hoje, segundo cálculos do projeto Custos de Guerra do Watson Institute da Universidade Brown. 

O número de mortes diretamente vinculadas à guerra no Afeganistão e operações relacionadas no Paquistão somam entre 238 mil e 241 mil; entre essas, as de 71 mil 344 civis desses países, mais 136 jornalistas.

Enquanto isso, os custos dessa guerra regressam para casa de várias maneiras. Uma nova pesquisa calcula que o número de militares ativos e veteranos das guerras após o 11 de Setembro – incluindo Afeganistão e Iraque – que morreram por suicídio é 4 vezes mais os que pereceram em operações bélicas com um total de mais de 30 mil.

David Brooks, Correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

LEIA tAMBÉM

milei-argentina-espanha
Ataques de Milei deixam relação diplomática Espanha-Argentina na corda bamba
Ebrahim Raisi (1)
Ebrahim Raisi, Robert Fico, Prigozhin e Gaza: dois pesos e duas medidas na imprensa internacional
Paris
Da Porte de la Villette à Bastille: uma jornada pela cultura e modernidade de Paris
Prancheta 55
Reino Unido decide expulsar mais de 50 mil pessoas solicitantes de asilo para Ruanda