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União Europeia não pode fazer milagres na Ucrânia

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Pavol Stracancsky^ 

Os ucranianos podem ter pela frente anos de dores e agitação se decidirem pela integração à União Europeia (UE), ou um possível caminho para a ruína se optarem por não fazê-lo.
Os ucranianos podem ter pela frente anos de dores e agitação se decidirem pela integração à União Europeia (UE), ou um possível caminho para a ruína se optarem por não fazê-lo.

Após o levante do final de semana na Ucrânia, que culminou com derrubada do governo de Viktor Yanukovych, governantes europeus comprometeram seu apoio ao país da Europa oriental, enquanto uma administração interina dá sinais de estreitar vínculos com a UE.

Embora isto satisfaça muitos dos que participaram dos protestos dos últimos três meses – além de indignar muitos pró-russos no leste e sul do país – ninguém deve ter ilusões sobre o que a Ucrânia ganhará e perderá se iniciar o longo caminho para a incorporação à União Europeia, afirmam especialistas.

“As pessoas que se beneficiarão com a integração europeia esperam certa ‘dor’ na medida em que as reformas forem assumidas, por exemplo, desemprego e problemas econômicos”, observou à IPS Lilia Shevstova, do Centro Carnegie de Moscou. “Contudo, não sabem tudo sobre o tipo de padecimento que terão de suportar, nem que terão de atravessar um vale de lágrimas. E se não o conseguirem, ou sofrerem tropeço, a Ucrânia se perderá e implodirá”, acrescentou.

Embora as manifestações de vários meses que culminaram com a saída de Yanukovych constituíssem um manifesto sobre vários fracassos do regime muito antes de chegarem ao seu sangrento fim, a questão de integrar-se ou não à UE foi um fator fundamental do descontentamento popular.

Os primeiros protestos na Praça da Independência de Kiev, após ser divulgada a notícia de que não seria assinado um acordo de associação para livre comércio com a UE, mostraram até que ponto muitos ucranianos sentiam que era importante manter vínculos mais próximos com a Europa. E, segundo a UE, esse acordo está novamente sobre a mesa.

Embora esse pacto ofereça benefícios econômicos no longo prazo, esse será apenas produto de reformas que se mostrarão muito caras e impopulares, segundo observadores. Não está claro se uma população que já suporta anos de recessão econômica será capaz de manter seu entusiasmo pela UE nos muitos anos que consumirá a plena implantação das reformas.

“Essas reformas estruturais exigirão um esforço enorme dos ucranianos”, disse à IPS o analisa de desenvolvimento internacional Balázs Jarábik, do Instituto de Políticas da Europa Central, com sede na Eslováquia. Este país integrou-se à UE em 2004, depois de muitos anos difíceis transformando sua economia para cumprir os critérios do bloco.

Ao mesmo tempo, uma relação mais estreita com a UE pode ter consequências severas para boa parte da indústria pesada da Ucrânia, na medida em que ficarem tensas as relações com a Rússia e isto levar à perda dos intercâmbios comerciais com esse vizinho oriental. Moscou é um dos sócios econômicos mais importantes da Ucrânia e destino de boa parte das exportações do complexo industrial-militar do país.

“Esses setores da economia ucraniana que são de origem soviética, incluídos os vinculados às forças armadas e à indústria russa, serão muito afetados e ficarão arruinados ou serão reestruturados”, pontuou Shevstova à IPS. “Os que permanecerem trabalhando em fábricas e planos obsoletos sofrerão. Este será o preço da reestruturação”, opinou.

Além do que a UE possa fazer, se é que pode fazer algo, para compensar essa demolição da indústria no longo prazo, não está claro se é capaz, inclusive com outros sócios internacionais, de apresentar um pacote de ajuda para responder às necessidades financeiras imediatas da Ucrânia, que este ano são estimadas em cerca de US$ 35 bilhões.

“Não é uma quantia tão grande em relação ao produto interno bruto da UE, e em todo caso o apoio financeiro viria do Fundo Monetário Internacional”, afirmou Jarábik à IPS. “Mas, tendo em conta as consequências políticas (de tal medida) e o contexto dos resgates grego e cipriota, não creio que os contribuintes europeus tenham muita vontade de resgatar a Ucrânia”, ressaltou.

Entretanto, para muitos ucranianos pró-europeus, o importante da UE não são apenas os benefícios comerciais de um acordo de associação. Muitos sentem que, dessa forma, finalmente a Ucrânia fugirá da esfera de influência ideológica e social da Rússia. Os que criticam o governo de Yanukovych o acusam de ter sido títere do Kremlin, que refletia a maneira de se conduzir de Moscou, com corrupção, favoritismo, nepotismo e uma flagrante falta de consideração pelos direitos humanos.

Na medida em que os protestos se prolongavam, alguns manifestantes expressavam que as opções eram uma Ucrânia vassala da Rússia e seguidora da ideologia repressora do Kremlin ou um país moderno funcionando segundo os princípios da UE: um Estado de direito e uma sociedade aberta e livre. Porém, muitos dizem que a sociedade não está plenamente consciente do que obterá se aproximando da União Europeia e assinando um acordo de associação que vai gerar somente benefícios econômicos limitados.

“Poucos manifestantes leram o texto do acordo. A maioria pensa que imediatamente após sua assinatura poderão viajar para a Europa sem visto, que acabará a corrupção na Ucrânia e que a vida será como na Europa. Mas não é assim”, destacou à IPS a assistente de vendas Vera Kovalenko.

Os meios de comunicação ocidentais também retratam o sentimento contrário à UE na população do leste e sul do país, onde vivem os ucranianos de origem russa, que constituem um sexto da população. A generalizada antipatia em relação aos protestos e o aberto sentimento pró-russo nessa região da Ucrânia contribuíram para descrever a questão da incorporação à União Europeia como uma luta entre o oeste e o norte do país contra o leste e o sul. Mas esse é um ponto de vista superficial.

“O assunto da UE gera divisões, mas que são menores entre os jovens e os com mais instrução. Esse setor da população, não importa em qual região do país viva, quer estreitar laços com o bloco”, disse à IPS Vladimir Pavlenko, de 42, comerciante em Kiev. “Entre a população de mais idade, a do ocidente e do norte é mais favorável à UE, enquanto a do leste e do sul se inclina mais para a Rússia. Em qualquer caso, a maioria não tem ideia do que é realmente a União Europeia”, ressaltou.

Porém, há quem preveja um futuro brilhante para uma Ucrânia que não seja alinhada nem com a UE nem com a Rússia. “Não creio que a Ucrânia tenha que se integrar à UE. Simplesmente precisamos consolidar nossa situação, e depois poderemos avançar como um país comum, independente e aberto à cooperação com todos”, argumentou Katia Gerus, de 39 anos, secretária em Donetsk, no leste do país. “Temos nossos recursos e podemos encontrar nosso próprio caminho. Temos a oportunidade de fazer o correto e por nossa conta”, enfatizou.

*IPS de Kiev, Ucrânia, para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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