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Urânio-235: como EUA saquearam minas do Congo para produzir bomba atômica

Inteligência estadunidense implantou seus melhores agentes no então chamado Congo belga para garantir o minério
Redação Misión Verdad
Missão Verdade
Caracas

Tradução:

Em um fatídico dia há 78 anos, a humanidade enfrentou uma realidade que mudaria seu curso para sempre. Foi em Hiroshima que se presenciou o lançamento da bomba atômica, uma arma que seria lembrada como uma das mais devastadoras da história. Mas, como chegamos a este ponto? Graças à descoberta da fissão nuclear, realizada por cientistas como Enrico Fermi, Otto Hahn e Fritz Strassmann,  que estabeleceu as bases para esta nova era de armas nucleares.

O núcleo de urânio-235, um dos isótopos deste elemento que se encontra na natureza em quantidades extremamente pequenas, desempenha um papel fundamental na criação das bombas atômicas. É o único capaz de manter uma reação nuclear em cadeia. Sua propriedade permite que, quando é bombardeado com nêutrons, se desestabilize e se divida em duas partes desiguais.

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Durante este processo são liberados dois ou três nêutrons adicionais e, se estes voltam a entrar em outros núcleos de urânio, a reação se multiplica exponencialmente, desencadeando uma explosão devido à liberação de uma enorme quantidade de calor.

Explosão da bomba nuclear em Nagasaki, em 9 de agosto de 1945

Little Boy, a bomba que caiu sobre Hiroshima, foi fabricada com urânio-235, enquanto Fat Man, que caiu sobre Nagasaki, foi fabricada com plutônio-239, obtido do urânio. Em ambos os casos, a matéria-prima veio da República Democrática do Congo, quando este país estava sob o domínio do Reino da Bélgica.

Inteligência estadunidense implantou seus melhores agentes no então chamado Congo belga para garantir o minério

DAPD
A exploração do urânio congolês adquiriu um tom obscuro quando os EUA, ávidos de assegurar sua supremacia nuclear, se envolveram na região

A mina que alimentou a bomba atômica

Na província congolesa de Katanga, no coração da África, encontra-se o cobiçado cinturão de cobre, que se estende desde o sul do Congo até a Zâmbia. 

As minas desta zona abrigam grandes concentrações das matérias primas mais raras e essenciais para a indústria moderna, entre elas o urânio. Por isso não surpreende — ainda que seja um dado pouco conhecido — que o Projeto Manhattan se abastecesse na mina Shinkolobwe, situada em Katanga, para alimentar as devastadoras bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

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Este depósito de urânio, o maior do mundo, foi descoberto em 1915. Naquela época esse metal tinha um interesse limitado, entre outras coisas, para a indústria de cerâmica para obter pintura luminescente. Tudo mudou com o desenvolvimento da fissão nuclear, que gerou um interesse enorme pelo elemento radioativo.

Espiões no Congo

Em seu livro Espiões no Congo: A missão atômica norte-americana na Segunda Guerra Mundial, a jornalista britânica Susan Williams narra as intrigas e operações clandestinas que tiveram lugar nesse país durante a Segunda Guerra Mundial e revela como os Estados Unidos, para garantir o urânio, implantaram seus melhores agentes de inteligência no então chamado Congo belga.

Em 1939 os Estados Unidos temiam a possibilidade de que os nazistas pudessem adquirir armas atômicas antes deles, ainda que na realidade não tivessem avançado muito em seu desenvolvimento devido à falta de urânio altamente enriquecido. Albert Einstein escreveu uma carta ao presidente Franklin D. Roosevelt na qual lhe recomendava que impedisse que os nazistas tivessem acesso a Shinkolobwe:

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“No curso dos últimos quatro meses surgiu a probabilidade – por meio do trabalho de Joliot na França, assim como o de Fermi e Szilard nos Estados Unidos – de iniciar uma reação nuclear em cadeia em uma grande massa de urânio, por meio da qual seriam geradas enormes quantidades de energia e grandes quantidades de novos elementos similares ao rádio. Agora parece quase certo que isto poderia ser conseguido no futuro imediato.

“Este novo fenômeno poderia levar também à construção de bombas, e é concebível – ainda que com menor certeza – que possam ser construídas bombas de um novo tipo extremamente poderosas…

“Os Estados Unidos só têm veios de urânio muito pobres e em quantidades moderadas. Há veios muito bons no Canadá e na anterior Tchecoslováquia, enquanto que a fonte mais importante de urânio está no Congo belga”, rezava a carta.

Vista da área de mineração de cobre e urânio de Shinkolobwe, em 1925

A concentração de urânio de 65% do Congo superava muitas vezes as minas estadunidenses e canadenses, onde não chegava a 1%.

Matéria prima

Os Estados Unidos, conscientes da necessidade de uma matéria prima abundante, negociaram em segredo com a companhia proprietária da mina, Union Minière du Haut-Katanga, para explorar Shinkolobwe.

O Departamento de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos (OSS), predecessor da CIA, criou uma unidade especial para levar a cabo o contrabando de urânio.

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Sob a direção de William “Wild Bill” Donovan e Rad Boulton, a Divisão da África da OSS assumiu a missão de assegurar todo o urânio a que pudessem acessar os estadunidenses, diz Williams em seu livro.

Para efetuar esta operação de maneira encoberta, os agentes da OSS se disfarçaram de diversas formas, desde observadores de aves até importadores de seda, para evitar sua localização e evitar suspeitas.

Utilizaram até a fachada de empregados da companhia petroleira Texaco para camuflar suas atividades.

Extração e transporte

O processo de extração e transporte do urânio manteve-se no mais absoluto segredo, tanto que muitos dos agentes envolvidos pensavam que estavam traficando diamantes. Só alguns poucos conheciam seu verdadeiro objetivo, mas desconheciam seu propósito final. Um desses sujeitos, Wilbur “Doc” Haug, soube da real natureza de sua missão só depois de 6 de agosto de 1945.

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O urânio era transportado por estrada de ferro até Port Frankie, depois em barcaça pelos rios Kasai e Congo até Leopoldville, capital do país africano — agora Kinshasa —, onde era transportado para trens para ser levado ao porto de Matadi. Dali, o urânio era enviado por aviões da Pan American ou por navios até um armazém na costa norte de Staten Island, perto da ponte Bayona, em Nova York.

A partir de 1942 retirou-se o urânio do lugar para seu refinamento e uso na fabricação de bombas atômicas. Embora o armazém tenha sido destruído em meados da década de 1940, o local continuou sendo radioativo devido ao derramamento de mineral de urânio bruto.

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Durante várias décadas esta informação permaneceu como uma lenda urbana até que, em 1999, Beryl Thurman, da Associação Cívica de Port Richmond, interessada em um terreno na zona, solicitou ao Departamento de Energia dos Estados Unidos mais detalhes, invocando a Lei de Liberdade de Informação.

O informe dizia que “uma série de edifícios localizados no lugar do antigo armazém de Staten Island em Port Richmond, Nova York, foram utilizados pela Union Minière du Haut-Katanga Company para armazenar mineral de urânio de alto grau do Congo belga, desde 1939 até 1942”.

A tragédia de Lumumba e da população congolesa

Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, a província de Katanga continuou sendo uma valiosa fonte de urânio para os Estados Unidos e o Reino Unido.

No entanto, em 1960 o panorama político colonial mudou drasticamente. As eleições prévias à independência levaram ao poder o Movimento Nacional, liderado por Patrice Lumumba, que se tornou Primeiro Ministro, ganhando popularidade em todo o continente africano.

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A possibilidade de nacionalização da indústria do cobre e o destino das minas de urânio, com a União Soviética no radar, foram alguns dos elementos que motivaram forças políticas belgas vinculadas ao rei, com apoio da CIA, a fomentar a secessão de Katanga, onde se concentrava toda a indústria mineira do país.

A Union Minière du Haut-Katanga participou do complô, pagando impostos aos grupos separatistas em vez de ao governo do Congo. Esta decisão alterou drasticamente o equilíbrio de poder na capital deste Estado, e Lumumba foi detido e entregue aos separatistas para ser torturado.

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Em 17 de janeiro de 1961 Patrice Lumumba foi assassinado em Elisabethville — hoje Lubumbashi —, que se encontrava a cerca de 120 km da mina de Shinkolobwe.

40 anos depois, o Parlamento belga reconheceu sua responsabilidade no assassinato e revelou detalhes sinistros sobre o caso: o corpo de Lumumba foi desmembrado e dissolvido em ácido. Ainda que se tenha dito que gente do lugar cometera o crime, mais adiante se soube, pela televisão alemã, que um policial belga guardava dois dentes como troféu. Um deles foi devolvido à família do líder africano em 2022, em um ato oficial em Bruxelas.

Atualmente Shinkolobwe é uma área restrita, e a extração e exportação de urânio foram proibidas mediante um decreto presidencial em 2004. O lugar nunca recebeu nem as avaliações nem a limpeza adequada; tampouco foi feita uma lacração correta da mina nem foram investigados os efeitos nocivos na comunidade em geral. Além disso, mineiros ilegais continuaram escavando clandestinamente, em busca de cobre ou cobalto nos arredores.

Apesar de seu papel crucial no abastecimento de urânio para o Projeto Manhattan, o obscuro capítulo do Congo e de sua população afetada permaneceram relegados ao silêncio na extensa lista dos crimes do Ocidente. Especificamente esta situação foi esquecida, mas não o país em seu caráter estratégico. Esqueceu-se a vida, a dignidade das pessoas, mas jamais os recursos a super explorar.

Redação | Missión Verdad
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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